11 de fevereiro de 2014

Girls, forget your balls and grow a pair of tits


I suppose I should tell you
What this bitch is thinking
You find me in the studio
And not in the kitchen
I won't be bragging about my cars
Or talking about my chains
Don't need to shake my ass for you
'Cause I've got a brain
If I told you about my sex life
You call me a slut
Them boys be talking about their bitches
No one's making a fuss
There's a glass ceiling to break, uh huh
There's money to make
And now it's time to speed it up
'Cause I can't move in this place
Sometimes it's hard to find the words to say
I'll go ahead and say them anyway
Forget your balls, and grow a pair of tits
It's hard, it's hard
It's hard out here for a bitch
lailailai
You should probably lose some weight '
cause we can't see your bones
You should probably fix your face
or you'll end up on your own
lailai
It's hard, it's hard
It's hard out here for a bitch
CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - viii
Lily Allen, a sweet girl
A 17 Novembro, Lily Allen, Lily Rose Cooper, lançou o single Hard out here, do seu terceiro álbum em estúdio que sairá a 14 de Março. É muito politicamente correcto. Acho que ganhará prémios - vamos esperar para ver. A imprensa deu gás a uma discussão que começou nos blogs e plataformas feministas. Tentam fazer da miúda uma bandeira, ou mesmo duas. Falo disto agora porque se aproximam os Dia dos Namorados e da Mulher e não gostaria que faltasse assunto, ou vontade, ou o contrário. Antes da discussão, vamos ao single propriamente dito.
Este tema é uma resposta directa a Robin Thicke em Blurred lines. Robin Thicke tem no seu videoclip, em letras bem visíveis, Robin has a big dick. E as mulheres são tratadas por bitch. Em Hard out here, em balões gigantes e prateados de sarcasmo, lê-se: Lily Allen has a baggy pussy. Esta é também uma resposta ao sexismo da indústria musical dominada pelos homens, neste men´s world e, portanto, uma reposta à objectificação da mulher. Tudo isto segundo a leitura da própria Lily Allen que, aos vinte o oito anos, e acabada de se estrear na maternidade, viu a sua imagem de estrela da pop ser questionada na praça pública através dos media.
Porquê? Porque o seu corpo não se adequava à imagem que media, público e indústria pretendiam. Lily Allen marca então uma intervenção cirúrgica: lipoaspiração e abdominoplastia - resumindo, barriga, costas, joelhos, tornozelos e já não sei se mamas ou não. É então que descobre que está grávida outra vez. Adeus plástica. Vem a segunda filha e, para fechar o assunto sem anestesia geral, este tema Hard out here que aponta alguns dos double standards que nos regem, a nós, homens e mulheres.
Para as feministas do costume, este single é feminismo do bom porque desanca os homens, a misoginia, a indústria musical dominada pelos homens, o mundo dominado pelos homens, o estereótipo da mulher enquanto objecto de satisfação sexual construído à imagem do desejo do homem, a falta de paridade e toda a parafernália do costume. A própria miss Allen, desconfio que fortemente influenciada por Pink e afins que têm uma visão conservadoríssima e politicamente correcta do feminismo, tem uma saída na letra que não é nada Lily e muito menos Rose. E é a saída logo à entrada: Isuppose I should tell you what this bitch is thinking/ You´ll find me in the studio and not in the kitchen/ lailailai/ Don´t need to shake my ass for you ´cause I´ve got a brain.
Ora, qualquer miúda com brain sabe que a cozinha é um lugar tão bom para ser mulher quanto o palco ou a medicina. E afirmar que quem tem brain não está em qualquer papel tradicional feminino, é negar valor a esse papel só porque ele foi/é também um constrangimento. Pior, shake the ass é uma forma de poder. Poder sexual. E quem tem brain também sabe isso. Mais, usa isso: viu Rihanna e Shakira a queixarem-se muito em Can´t remember to forget you, o videoclip da dupla que deu volta ao juízo da população masculina e disparou o valor de mercado de ambas? Sim, a indústria da pop é um negócio. Enfim, aquelas duas mulheres de negócios, pop stars, material girls, não se queixaram. Enrolaram no dedinho mindinho a fantasia de qualquer homem de mergulhar no meio das duas e ser bendito entre as mulheres e fizeram uns valentes trocados. Aliás, Shakira já o tinha feito antes com Beyoncé, em Beautiful Liar, uma versão pop de C´est obscur object du désir, Buñel de MTV. Porque é disto que se trata: negócio. E fantasia erótica tangente à pornografia para saturar a retina. Fantasia que depois levamos para a cama, mas isso é outra conversa.
Por outro lado, para as feministas que descobriram a mulher negra, ou a que não pertence à classe média e branca, quando estas chegaram ao poder e lhes apontaram o dedo com mais de cem anos de atraso, o videoclip Hard out here é racismo e objectificação da mulher negra/asiática/de baixos rendimentos pela diferença de papéis e raças (e de rendimento?) entre a cantora e as bailarinas. Não aceitam a explicação mais simples que costuma ser a verdadeira: foram escolhidas as melhores dançarinas do casting. Pelos deuses, quer comparar uma bailarina, ainda por cima negra com séculos de twerking nos genes das belas nádegas com a maioria das branquelas? E não me mace a dizer que estou a ser racista também, prefere o quê?, ver, olhe, o samba dançado por alguém na Portela ou na Beija-Flor ou no Carnaval de Ovar? E porque é que a própria da Lily Allen não está descascada como as bailarinas? Porque tem muita curva boa, porém de mulher normal, e não é bailarina. Ou seja: tem medo de não corresponder às expectativas irrealistas da sua própria cabeça - e está a justificar o tal brain. Quem disse? Digo eu.
Aliás, é por estas patetices que se gosta de Lily Allen, este é o seu apelo: a frágil humanidade. As inseguranças. As zangas, o I'll go ahead and say them anyway. Lolita. Não ser uma mulher adulta, apesar da idade - é mais velha do que Rihanna e esta é uma mulher feita. Não gostamos de Lily Allen por ser paradigma do feminismo nem role model de quem quer que seja. Ela é aquilo que todas as miúdas são. Quer ver?
Não é tão magra quanto as revistas pedem e gostava de ser. Sente vergonha de aparecer em bikini porque engordou. Tem distúrbios alimentares. E ainda por cima tiram-lhe fotografias e plasmam na imprensa quando bebe demais, ou porque chorou no meio da rua quando o namorado a deixou - e ela lhe fez uma canção tão bonita quanto pirosa. E também tem conflitos com a indústria a que pertence, com os colegas, com quem a emprega e com os seus pares, portanto. Diz mais palavrões do que a Julie Andrews, o que toda a gente sabe, não é fácil, dá respostas impulsivas, juvenis e na ponta da língua, arrepende-se. E tudo isto com aquele ar trendy, e um bocadinho kitsch, de boa menina que faz asneiras em público como qualquer boa menina as faz em privado porque não tem a vida nos tablóides.
Claro, por outro lado, Lily Allen não é nada como as outras miúdas. É uma estrela da pop, rica, casada, com duas filhas e uma carreira de grandes perspectivas agora que faz parte da Warner. Portanto, ao contrário das miúdas que querem um dia ter tudo, Lily Allen já tem tudo.
Até tem o que não precisa: patrocínios feministas e protestos feministas. Porquê? Porque Lily Allen é feminista com a plataforma feminista da geração da minha mãe. E porque não pensou no assunto, saiu-lhe, estava chateada, plásticas, filhas, corpo, Robin Thicke... Bum! É natural nela. E depois foi uma bola de neve. O que lhe saiu bem, mas mesmo bem, foi: forget your balls and grow a pair of tits. Porém, dirigido às mulheres, não aos homens. Porque o poder feminino não está na replicação do poder masculino. Mas no exercício do poder feminino e este além de brain inclui mamas, não tomates.
O feminismo tende a ser um lugar onde se não estás comigo és contra mim em cada uma das suas capelas. No entanto, pode-se muito bem estar sozinho. Ou mesmo servir a dois senhores. Ou concordar aqui e discordar ali. A vida não é o PCP: a coerência é quase sempre uma pobreza intelectual. E nós, como a Lily Allen, somos pessoas cheias de contradições.
Uma notinha final. Em controlo da própria vida está quem provoca a reacção, não quem reage. Resumido: mulheres proactivas são Beyoncé, Rihanna, Shakira, Jennifer Lopez e outras máquinas de eficácia pop feminina que não andam com uma fita métrica a chorar o próprio, vá, rabinho, preferem transpirar no ginásio.