1 de fevereiro de 2014

E só nós permanecemos imorais e puros*

Ouço dizer: não há milagres. E ouço-o com a maior atenção. Gente inteligente. Bem sucedida. Com um sorriso. Com segurança ou com ironia. Ouço, noutro tom, de quem queria e não tem: não há milagres. Porque houve a perda que marca o antes e o depois. Ou porque haverá a perda e o que o relógio conta é já o tempo decrescente.
Eu não acredito em milagres. Eu sei que há milagres. Mesmo agora tinha bem cavada a certeza de que não escreveria nem mais uma só palavra, que desistiria de todas, outra vez, de uma vez por todas, e aqui estou – sim, também as notícias da minha morte são manifestamente exageradas. E não é o meu desconhecimento de mim mesma que faz o milagre. É o mundo. E forma como colide com ele mesmo e comigo.
Há um momento em que o dessentido ganha o domínio e logo a seguir reina. Abre-se o caos. Doença, morte, nascer a norte ou sul, debaixo da guerra ou a céu aberto. Ver como é pago o bem e como é pago o mal, o amor no lixo e recém nascidos no lixo.
Tudo isto é Bosch e não estou a falar de electrodomésticos.
Não consigo, e penso que não consigo mais. Nada dói, não há desgosto. Só desolação e impotência. A devastação é devoradora. Uma solidão sem remédio.
E do nada, do fundo repetido do ecrã de quando era pequena, ouço claramente, não Deus, tire daí o sentido, na sala não me ardem sarças nem com a lareira a queimar bem, a voz clara de Julie Andrews a cantar Something Goodnothing comes from nothing, nothing ever could, so somewhere in my youth or childhood, I must have done something good . Claro que não tenho diante de mim alguém a quem possa dizer, concluindo a canção, for here you are, standing there, loving me whether or not you should. As pessoas, mesmo as que amamos, são-nos tiradas, mesmo contra vontade, não as podemos reter. Morrem. Partem. Até mesmo nós podemos, de um momento para o outro, ser retirados de nós. Demência ou outra tragédia qualquer.
Mas duas ou três coisas, nem que seja por uns segundos, temos, são nossas e ninguém tira.
A certeza de que cada dia é uma dádiva. Sei lá eu quantas vezes poderia já ter morrido, fracturado tudo, ter feito mil vezes pior do que fiz - e se há coisa que faço bem é fazer errado. E se a palavra que disse alta demais, ácida demais, carregada demais, transbordou desesperada num temporal qualquer no sul da Índia? Não é isto a concreta teoria do caos? Não é apenas feita de asas de borboletas e furacões japoneses abstractos. Há este impossível fio, e invisível fio de responsabilidade que nos atravessa a todos e nos liga uns aos outros e as coisas, árvores e rios também.
A certeza de que este caos é meu. Também o fiz. Também o faço. Tudo o que colho no exacto momento em que verifico que é impossível escrever uma só palavra mais, no meio da solidão sem remédio, é meu. Mas devo ter feito qualquer coisa boa, um bem qualquer, espreitado a verdade por um instante. Porque dentro desta dávida que é a vida, do caos que ela é, há outras perplexidades, o jantar feito, um casal de miúdos a inventar a paixão pela primeira vez, o filho que olha para o pai com aquele olhar que só o filho tem para o melhor pai do mundo. Tenho observado tudo, e muito o que não me coube, que é uma maneira viver em segunda mão e saber como se fora em primeira - eu sou uns grandes olhos que em isto tudo há.*
A certeza de que tenho andado noite após noite a ler um milagre a rebentar pelas costuras dos versos, Todas as Palavras, de Manuel António Pina. E também por isso sei: I must have done something good.
* do poema Imorais e Puros, de Manuel António Pina