15 de fevereiro de 2014

Blood Meridian

BM-cover
See the child. He is pale and thin, he wears a thin and ragged linen shirt. He stokes the scullery fire. Outside lie dark turned fields with rags of snow and darker woods beyond that harbor yet a few last wolves. His folks are known as hewers of wood and drawers of water but in truth his father has been a schoolmaster. He lies in drink, he quotes from poets whose names are now lost. The boy crouches by the fire and watches him.

Night of your birth. Thirty tree. The Leonids they were called. God how the stars did fall. I looked for blackness, holes in the heavens. The Dipper stove.

The mother dead these fourteen years did incubate in her own bosom the creature who would carry her off. The father never speaks her name, the child does not know it. He has a sister in this world that he will not see again. He watches, pale and unwashed. He can neither read nor write and in him broods already a taste for mindless violence. All history present in that visage, the child the father of the man.
Cormac McCarthy in Blood Meridian
BLOOD MERIDIAN, de Cormac McCarthy 
Cormac McCarthy escreve visões. Visões do mundo como ele é naquele instante em que se lhe revela. E da sua mecânica. Talvez pela primeira razão, a paisagem, a imensidão, seja antes de mais lugar de rapto do leitor como foi rapto do autor. E talvez pela segunda Blood Meridian seja uma parábola tanto quanto, na expressão feliz cunhada por H. Bloom, o definitivo western*. E assim não será o regresso ao sentimento épico, a uma ideia de grande, grandioso? Nesta obra perfeita a própria linguagem é pura música cadente para aquela vida cor de cinemascope. Para mostrar com toda a exuberância, e usando como pretexto o paradigma norte-americano, sincrético, onde a exaltação dos valores da revolução francesa se aliaram ao protestantismo mais branco, o modelo do universo em vermelho sangue. Como se extrai tamanha poesia do horror? Há estética sem ética?
Esta parábola é construída canibalisticamente. Na verdade toda a literatura e poética são - se as palavras tivessem calorias, os escritores eram gordos se não fossem prolíficos. Já não me lembro quem foi, se Goethe, ou quem, falava em ingestão. Foi Joyce? Usamos os pensamentos dos outros para os pensarmos, nos pensarmos, e agora, nesta hora literária em que, como tão bem disse Steiner a propósito de Hemingway, já não basta dizer Roncevaux para que o vasto público leitor logo antecipe a traição, agora nesta hora explicativa de Roncevaux em nota de rodapé, nesta hora em que as referências dos mais elementares conhecimentos, lugares fundantes da cultura que somos, são tidas por erudição, como ler Blood Meridian? Há quem leia McCarthy no cinema – confesso não o ler no ecrã, quando vi o cartaz de um dos meus livros da vida, The Road, tive medo: por muito bonita que a Charlize Theron fique mesmo enrolada em farrapos posso garantir que na estrada ela não estava. Enfim, derivo.
As referências de McCarthy em Blood Meridian, como em qualquer outro romance seu, são explícitas, não por mal digeridas, mas porque ele é um homem de reescrições, e aqui temos a  Bíblia, punitiva, protestante, redentora, revista por ele no silêncio de Deus até na cruz do Seu próprio Filho, e Moby Dick muito para além da dinâmica Captain Ahab-Jugde Holden, chegando à revisão do próprio texto de Melville – McCarthy não é para meninos nem tem medo de caras feias. Há mais referentes, e os de base como Chamberlain, usados na investigação, porém estas duas grandes obras colaboram na elevação de facto a ficção, e de ficção a mito, portanto, estão em Blood Meridian como Jonas dentro da outra baleia.
Claro, isto dito assim parece uma seca do caneco, tem razão, mas é preciso levar para dentro desta leitura, pelo menos uma ideia de ambas, ainda que assim, pela rama. E a ideia de mistério e de mal. Sim, ouviu bem: mistério e mal. Pensamentos clássicos, ambos substanciados, quero dizer, feitos carne e ossos de gente, logo traduzidas em acções dos personagens naquela acção maior: o tal western. Porquê?
Porque Blood Meridian é um livro que oferece resistência, quase não se deixa ler apesar do lirismo, usa-se da carnificina para nos fazer fechar os olhos e não ver. Blood Meridian vê-se. Precisamos de força anímica. E essa força vem de trás, da Bíblia sanguinária, da crueldade exposta por Melville. E depois abre-se. Como o céu apocalíptico. E vendo o tempo, o tempo que foi, vemos o agora e o fim dos tempos. É terrível. É majestoso.
Há a violência como condição da existência, expressão de vida, expressão divina, expressão humana, de superioridade humana. Sou da convicção de que todo o romance bem construído mostra no átrio a sua intenção como um neófito: basta ler as palavras iniciais para recebermos a chave. McCarthy dá-nos a súmula pela voz de Paul Valéry, your acts of pity and violence are absurd, do extraordinário Jacob Böhme, death and dying are the very light of the darkness, e finalmente, the reexamination of a 300.000 year-old fossil skull (…) showed evidence of being scalped. E sabemos a porta que abrimos.
Entramos.
O Tratado Guadalupe-Hidalgo de 1948 fechou a guerra entre mexicanos e americanos. No entanto.
Há um bando comandado por Glanton. São caçadores de escalpes. Cada escalpe de homem, mulher, ou criança vale duzentos dólares. Quem os paga? O governador. Quem os recebe distingue entre o escalpe de um índio ou o de um mexicano? Se não fosse paga a violência existiria? Sim, de todas as formas gratuitas e incondicionais ela aparece ao longo de Blood Meridian porque está na génese e na síntese de Blood Meridian na reescrição de Heraclito que disse: A guerra é o nosso Pai e o nosso Rei. A guerra revela quem é como deus e quem é apenas humano, quem é um escravo e quem é um homem livre. McCarthy na voz de Holden conclui: War is God. Existe. É uma condição da natureza à qual só se pode responder intimamente, mentindo e dizendo a verdade em simultâneo, You ain´t nothing e morrer da morte que vier. Por isto, se lhe passar pela cabeça fazer uma leitura social e política da América imperial quando focar a sua atenção neste bando que entre México e o Texas, matou, torturou, escalpelizou, violou, perde.
Há the Kid, nascido no Tennessee, órfão de mãe logo à nascença, pálido, esguio, de olhos inocentes, órfão de pai quando saiu de casa cedo, com uma vontade de violência para além do significado.
Há o Judge Holden surgido do deserto sulfúrico e de um pacto com Glanton. A ele o tempo não toca, mantém as suas características físicas inalteradas ano após ano: a carne terrível, imensa, albina, sem um único pêlo, sequer pestanas, super-potente, sobre-humano.
Há o ex-pastor Tobin.
Há mais gente.
E vou dizer-lhe uma coisinha, inha, inha: McCarthy faz com Holden e the Kid o Roncevaux de Hemingway para o que não se diz da natureza humana porque quando é dito é-se maldito como Sade.
Depois há aquela coisa dos prodígios. McCarthy é um dos últimos romancistas vivos. Protegeram o lince ibérico, os romancistas não, e estes vão-se extinguindo. No século dezanove saíam debaixo das pedras. No século vinte um, extinguem-se. É natural. No século dezanove não havia rádio, televisão, cinema, internet. Esta é só mais uma mudança de modo de uso da linguagem. E que bom podermos ter ainda a beleza da arquitectura do romance e na frase em papel, nas nossas mãos: McCarthy é o lugar entre Faulkner e Roth, assimilado a Faulkner, avesso de Roth e por isso mais complementar a Roth.
Ninguém escreve como ele. Ninguém sabe deixar tanto vazio e criar um mundo tão denso, a verdade é que lhe poderíamos fazer mil perguntas. Mas, de facto, elas são necessárias?
*era o próprio McCarthy quem se referia ao seu trabalho na altura em que o fazia como o seu western. Bloom sobredimensionou este conteúdo muito justamente – isso não significa que lhe possamos perdoar o despropósito de meter DeLillo na mesma prateleira que Faulkner, McCarthy, Roth.