22 de fevereiro de 2014

A minha querida lista negra

O meu avô deu-me presentes atípicos, já contei. Aqui, por exemplo. Também me ofereceu um candeeiro de tecto que talvez um dia volte a contar.
A minha Hermes Baby cor-de-laranja não a pedi, nem sequer sabia que existia, foi uma grande e linda surpresa apesar de pequenina como eu então era. Porque quando eu era pequena ia ser escritora quando fosse grande: de romances, poesia, escreveria para os jornais, enfim, uma vida de letras. Ora, uma pessoa que passa o dia a escrever não se governa só com os Cadernos Flecha da Papelaria Fernandes, os melhores do mundo para tomar notas, precisa de teclas.
Este texto foi publicado no blog É Tudo Gente Morta, no dia 19 de Novembro de 2009. Republico hoje por grande culpa do Manuel Fonseca e para estrear as belas Trasladações e Outras Ossadas que o nosso Nuno criou para nós no Escrever é Triste - só mimos e vontadinhas.

A MINHA QUERIDA LISTA NEGRA
Quando era pequena, muito pequena, pensava em quando fosse crescida.

Quando eu era crescida nesses dias de ainda tão pequena, era crescida sempre de saltos altos e vestido, saia, às vezes calças, dezoito anos crescidos ou mesmo vinte, bem cuidada, composta, uma senhora, pois claro. Seja sempre uma senhora, ouviu? Sim, avó.
Quando eu era uma senhora, era obviamente casada e vivia numa casa onde as janelas francesas da salinha de estar da casa portuguesa abriam para um pequenino jardim de Inverno: uma árvore grande à sombra da qual uma mesa e duas cadeiras e eu sentada de saltos altos, bem cuidada, composta, e obviamente porque

quando eu era pequena era sempre casada. Os maridos mudavam: o Pedro Bala, o Duque Próspero, o Che Guevara, o Eça só dos Maias...
 
Quando eu era pequena escreveria sempre à sombra desta grande árvore, logo não estivesse a chover, duas cadeiras, eu sentada numa delas, ao lado a cadeira vazia, a cadeira de quando o marido em casa, e eu escrevia já quando era pequena histórias na minha Hermes Baby cor-de-laranja, mas com papel químico para o caso da cadela comer algumas folhas, ou de eu perder a pasta de cartão com elástico onde guardava os originais - as folhas dos leitores, folhas à solta, perdiam-se sempre nem que fosse do desgosto crítico-cítrico da minha avó. Ó. Escrever tudo outra vez até que um dia: muito bem, em condições. Nunca chegou o dia porque não chegou o tempo.

Quando eu fosse grande também teria um cão e papel químico de dedos azuis, e ao lado da minha máquina de escrever estaria um cinzeiro porque quando eu fosse grande haveria de fumar como a minha avó: um movimento longo, ascendentemente lento, elegante na ponta dos dedos de bailarina. E depois do intervalo do pensamento, durante o ininterupto tac-tac, o cigarro a queimar-se no cinzeiro em equilíbrio incandescente. Sempre acompanhada pela ausência do marido porque a presença do Amor é muito forte na cadeira vazia.

Quando era pequena, quando os meus maridos chegavam, ouvia com muita atenção o que eles tinham para contar de tudo lá de fora e depois do jantar, ao chá, na sala, eu contava de tudo de cá dentro. O cão dormitava na nossa sala, ao chá de depois do jantar, quando era pequena.
Quando eu era pequena, com alguns maridos a vida era mais movimentada do que com outros. Com o Michel Strogoff, por exemplo, era uma vida de estrada, os dois juntos, também gostava disso, além do que a Hermes Baby era portátil, leve, tinha uma alça, era uma mala se a casa era viagem. Até porque de botas de montar também se é uma senhora, e uma mesa e duas cadeiras em qualquer sítio do mundo há, pode-se ouvir tudo mesmo em estrangeiro, e contar de tudo em português em qualquer lugar se pode, e assim escreveria de fora para dentro, para Portugal, porque Portugal decerto haveria de querer de saber de fora tal qual como queria saber quando eu escrevia de dentro de casa para o mundo lá fora.
A casa não tem um pequenino jardim com uma árvore grande à sombra da qual, ou Amor algum na cadeira vazia. Uso ténis vezes demais e penteio-me vezes de menos. Tive um Toshiba cor-de-laranja, portátil - avariou já não sei quando. Não fumo há mais de quinze anos e Portugal não quer saber: decerto escrevo e escreverei. 

Mas à noite, na sala, enquanto tomo o chá, o Cão dormita.