7 de janeiro de 2014

Para o que nasce uma pessoa


SABE-SE LÁ
Dizer os sentimentos não se vêem é uma merda de primeira apanha. Se há coisa que se vê é o que se sente, a menos que se esteja a esconder propositadamente – e o que se esconde, se não for o que tem vergonha de se mostrar ou o que não se pode mostrar sem castigo?  Bem, em casos raros esconde-se o que se quer só para si, e para alguns escolhidos, aquilo a que se dá extremo valor. Ali Babá escondia, não só por ser tesouro, mas por ser roubado, isso sabia ele de pequenino. E muito bem.
Outra coisa não fez enquanto ganhava corpo. Escondia as nódoas negras e roxas e os vergões debaixo da roupa estratégica e de manga comprida, as sweat por baixo de t-shirts. Toda gente usava assim. Só que ele não variava o uso nem no Verão. Escondia a raiva e escondia a vontade de matar aquele filho da puta: aos cinco anos já comia pelos cornos abaixo à sexta-feira como os outros comiam peixe para não ofender o Senhor. Aleluia.
Enfiado e calado, de manga comprida, num sexto-andar da Cidade Nova, em Santo António dos Cavaleiros, um bloco colado a outro e a outro, em riscas horizontais de mau betão pré-fabricado e multiplicado ao infinito, uma ideia mal copiada das cidades-jardim inglesas à porta das cidades que serviam, um refugo relvado para os imigrantes da fome do Alentejo ou os retornados que lá iam refazendo a sua vida, legais e ilegais de Goa, Moçambique, de Angola, gente que saía de autocarro às seis e meia da manhã e chegava a casa depois das sete da noite, vinda de Lisboa. Os anos 80 elevaram o estatuto dos filhos destes pais. Saiu dali, Calçada de Carriche afora, uma nova classe de miúdos que acedeu ao ensino superior e se fizeram homens para nunca mais voltar.
Ele fazia parte deles, e desses números. Crescera ali entre os novos pobres misturado com as minorias étnicas que estavam em maioria e cuja etnicidade não descortinava. A mãe, sim. Tanto que apesar de ter a escola primária perto, lá em baixo, e a secundária em frente de casa, em contentores provisórios desde a revolução sem derramamento de sangue que aprendera nos manuais, à primária fizera-a na Escola Paroquial de Loures, um reduto religioso, esse sim, minoritário, em plena cidade de despojos soviéticos. E a seguir Colégio Moderno onde a mãe era auxiliar de educação - coisa que não o favorecia entre pares com o valor supremo da paridade. Foi aí que começou a descortinar. Não veio mal ao mundo. Sempre aprendera cedo a diferença que vai do discurso à realidade e é que não há diferença entre a sociedade dos homens e uma alcateia. A hierarquia é uma malha de ferro. Ou se a rompe ou é ela quem diz quem somos e para o que somos e para quem.
Aprendera também ali entre os seus pares colegiais a fazer-se invisível. Não há melhor maneira de se esconder do que parecer um entre muitos: nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem bom nem mau aluno. Mas tens a certeza de que ele era da nossa turma?, pensava que o filho da contínua era da outra. Tens a certeza? Perguntaria anos depois uma das colegas quando não havia quem não lhe soubesse o nome: neurologista, prémio Nobel da Medicina pela APDCP – Aplicação para Plasticidade e Desenvolvimento do Cortéx Pré-Frontal. Descobrira a chave que controlava a violência ainda antes desta se manifestar.
Enquanto pisava a carpete azul cerimonial no dia da entrega do prémio, pensava nos contras da APDCP. Um capital de revolta e de ódio, se bem gerido, se escapa à humilhação e submissão que traz dentro, se apontado a um alvo, é infalível. É uma máquina de criação. Que pena ser também uma máquina de destruição. E não saber a magia do pêndulo. Tinha na cabeça a letra do fado na voz de fazer as limpezas de sábado de manhã da mãe, a saltar versos: sabe-se lá quando a sorte é boa ou má, ninguém sabe quando nasce, pró que nasce uma pessoa.

A última vez que o pai lhe jogou a mão, deu consigo mesmo estendido de barriga para cima no chão de má cerâmica da cozinha onde há que anos os ladrilhos rachados esperavam substituição. Nem percebera. Ficaram-lhe as rachas dos ladrilhos metidas na memória. Ouviu a voz do filho em cima dos olhos que abria e fechava piscando de dor e incredulidade. Uma voz calma, pausada, um sopro de fogo nas pálpebras: faça as malas e saia. Se voltar, se alguma vez se aproximar da mãe, mato-o e nunca ninguém saberá, nem a mãe. Há-de cair de bêbado em qualquer lado, mas desta vez não se levantará, e quem há-de estranhar?
Ninguém põe em causa uma revelação. Uma revelação é uma coisa íntima. É o mundo a falar connosco numa linguagem profana a sua verdade sagrada. Ora, ele que toda a vida tivera a desconfiança, de antes do filho nascer, mesmo com a mulher cheia de grávida, mal bebia dois whiskys, a desconfiança, mais um copo, a certeza, a certezinha absoluta ah grande puta que me anda a dormir com o ex-namorado, põe-me os cornos e ando a criar o filho do outro, naquele momento percebeu que não, que ela não dormira com ninguém e que aquele era mesmo o filho dele. Filho, ainda disse antes do cotovelo na base do pescoço lhe cortar o ar e o pio, não me chame filho que eu não tenho pai, vá-se embora.
E ele foi. Mas quem saiu dali foi um trapo. Nem copos nem porrada. Do trabalho para o quarto alugado, do quarto alugado para o trabalho – tinha sorte, estava vivo e em liberdade. Não merecia. Sabia que não merecia. Se o arrependimento matasse como dizem as pessoas. Mas não mata, nem muda o passado, nem redime a ponta de um corno a quem teve de levar com o que teve antes do arrependimento mostrar a cara. O arrependimento é tal qual a revelação, íntimo, não serve a mais ninguém, não se pode ser o que se foi porque se repudia o que se foi, mais nada. Um dia, a ler a notícia dum homem que morrera dum camarão percebera. O arrependimento era uma alergia, hoje comes camarões e gostas, não acontece nada, ao outro dia comes camarões, fazes edema da glote, era este o nome do sucedido derivado do camarão, e vais desta para melhor. Era isso. Fixara tudo. O sistema imunológico moral volta-se contra o próprio dono: tu és o inimigo, cabrão. Agora passa sem camarões, trabalho, quarto, trabalho. Ou morres e fazes do teu filho um parricida como no filme daquele careca, o Yul Brynner, em vez de o veres na televisão, de abas de grilo e faixa a tiracolo a falar tão bem que parece que nunca lhe tocaram com um dedo.