22 de janeiro de 2014

Eduardo Lourenço: A História É a Suprema Ficção


Eduardo Lourenço: A História é a Suprema Ficção
, uma entrevista de José Jorge Letria a Eduardo Lourenço, é o segundo título da colecção O Fio da Memória, da editora Guerra & Paz e da SPA. Chegou hoje às livrarias. E vou dizer-lhe porque vale a pena lê-lo devagar e com gosto: é um livro que nos facilita a vida. Se calhar deveria ter dito é um livro que nos felicita a vida, porque a verdade é que a vida é mais feliz com ele. Mal comparado é como o amor de quem nos ama: faz-nos gostar mais de nós, faz-nos ser melhores – ou ver quem podemos ser. Futurantes como Eduardo Lourenço.
Começo pelo princípio - coisa sem originalidade alguma nos dias que correm em mosaicos de flash-forward e flash-back.
Conheci Eduardo Lourenço há muito tempo, pois se eu tinha dezoito anos... Foi na Casa dos Açores, em Lisboa. Pela boca de Agostinho da Silva – e ele que não estava presente, logo apareceu. Foi na mesma noite em que amei pela primeira vez as palavras, assim, coisas, coisinhas e outras inhas e inhos que não sabia serem tão amáveis até as ouvir de Agostinho da Silva. Tinha aprendido em pequenina que era feio. Ensinam-nos muita asneira, o que vale é que podemos desfazer-nos delas depois. Não é por mal. É para sermos lobos que os cordeiros são mansos.
Depois de, então, me ter sido apresentado pela fala, fui lendo os livros dele. Todos não. E ouvi-o num lado ou noutro. E agora, apanho-o aqui. Mas antes de avançar é preciso anotar: este homem tem uma meticulosidade beirã, uma minúcia de caligrafia miúda com uma regularidade de impressão de máquina. Alguns beirões têm-na. É uma coisa obreira que vem com a dureza da terra, ela só cede à continuidade, é assim. E leva-se aquele estado do ser para qualquer lado, até pelo mundo fora, vida afora, para o que quer que se faça, a água corre, corre, corre, o seu fio constante, mesmo se o correr é para o sonho como em Eduardo Lourenço, pois ele sabe melhor do que ninguém que as árvores crescem das copas celestes para a terra à procura do lugar da sua raiz. Porque a história da alma é a história do mundo, e a percepção, o sentimento de uma é a construção do mito da outra: a ficção sobre a ficção. Quero dizer: Eduardo Lourenço sabe o que precede o quê e que tudo procede do incriado. E isso já é saber muito. Porque é isto importante?
Porque em Portugal não sabemos que futuro, futuros, se futuro. Temos oitocentos anos de história, da fundação à talassocracia, de centro Europeu e do mundo ocidental a canto mais ocidental da Europa, fechado, fascista, aberto a cravos e depois? E porque também não sabemos que passado tem a Europa no exacto momento, neste, em que o ocidente é deslocado para oriente – quem fomos no oriente do tempo? E porque enquanto as páginas de papel impresso se apagam como antes da imprensa milhares de manuscritos se perderam, uma Alexandria virtual, simultânea, nasce para se erguer e só agora dar início à antiga história universal. 

Não vou fazer a biografia de Eduardo Lourenço. Ela está lá, no livro, a introduzir o convidado à conversa, a contar a vida que o tem vivido. Sim, há tradição, ou sensatez, em Eduardo Lourenço quando diz isto: é uma não resistência àquele curso da água que corre, corre, corre. E por não resistir, é água com a água e mil morosas páginas, rigorosas páginas, são amorosas páginas, são um poema só num ensaio sobre a paixão por Portugal – não é estar apaixonado o sempre desejo de conhecer o que é, o que foi, o que será, para saciar o que jamais se satisfará? Por muito que sejamos possuídos pela paixão, jamais possuímos o objecto da nossa paixão, sempre será mistério. Também isto, ser possuído, é deixar-se ser vivido pela vida.
E também não poderia fazer a biografia de Eduardo Lourenço sem contemplar a relação Leste-Oeste vista de uma França intelectual, Nova Atenas pluri-político-cultural, nos seus nichos, que Eduardo Lourenço atravessou desde 1949 até hoje. E o Portugal de então passando pelo da revolução e o de hoje. E os portugueses, os que ficaram, os que recusaram ficar, os que estão a sair. É quase um século, meu Deus.
Releio os parágrafos acima e vejo que escrevi ser este livro uma conversa. Porque é uma conversa o que acontece quando dois se entre vistam, se vêem um ao outro e se falam. E nós que não estamos lá, quando lemos, passamos a estar e a vê-los entreverem-se. Mas como se conta uma conversa para que ela se faça interessante a quem ainda não a ouviu? Assim: ele perguntou isto, e ele disse aquilo? Não, parece uma bisbilhotice, o diz que disse nunca dito. Não. Isto é difícil. Faz lembrar quando éramos pequenos e queríamos muito contar um filme a quem não o tinha visto: e depois ele deu-lhe um soco que o deixou estendido, ou, então, toda a gente adormeceu e à volta do castelo cresceram espinhos muito altos e ninguém sabia o que lá havia porque de fora só se viam os espinhos, passaram cem anos até que um príncipe, ao passear a cavalo, percebeu o castelo encoberto. Este querer contar, é mostrar algo que se admira a alguém de quem se gosta.
Não sei quem foi. Sei que afirmou: só se admira aquilo que não se é. Isto é uma parvoíce, ou uma daquelas coisas que se dizem em dia não.
O que mais se admira em Eduardo Lourenço é o Portugal que somos na nossa vocação de sermos outros, e sendo todos sermos mais quem somos. Não é difícil de entender este messianismo sem proselitismo. Este solve et coagula alquímico e pessoano: quanto mais nos dissolvemos pelas terras que o mar nos deu, as mesmas que demos à terra para que fosse efectivamente redonda, mais se solidifica a identidade que é múltipla: o outro nome para a poética portuguesa - aliás, como a identidade do próprio Eduardo Lourenço se diluiu para se concretizar na obra. Assim, esta vocação de centralidade não é narcísica nem saudosista, é universalista, é a poesia ela mesma. É a vocação Camoniana. A poesia é a essência do que nós somos. Não há outra inscrição maior no ser humano que a expressão poética. É o corpo dos Lusíadas na carne e na cosmologia, uma aventurosa experiência profana e religiosa: a aventura do significado, da busca do sentido, as ficções da história.
Nas cartas de antes, como os navegantes éramos nós que as mandávamos fazer, Portugal vinha ao centro. O centro do mundo no mapa. Tanto que o Japão, não me recordo quando, os mandou refazer com o Japão ao centro – susceptibilidades de olhos em bico. É isto. Somos o centro. Tão pequenino. Somos só um pontinho voltado para a circunferência que nos espelha. Há uma plasticidade em ser português como nos refere Eduardo Lourenço a outro propósito no episódio da auto-colonização brasileira: os portugueses no Brasil converteram-se em brasileiros e reclamaram a independência de… Portugal. E também isto é a metafísica portuguesa. E, em simultâneo, a sua irremediável contradição onde coabitámos senhores da nova escravidão imperial e da velha cristandade - com os descobrimentos e uma igreja sem a Reforma.
Nesta crise identitária europeia, mais funda desde o fim da Segunda Grande Guerra, e mais clara desde a queda do Muro de Berlim, o que é ser Europeu? E português? E agora que a China está às portas dos Estados Unidos para um novo Tordesilhas, o que é ser ocidental?
Somos Édipo com Eduardo Lourenço. Perguntamos. Mas e a Esfinge, quem é?