10 de janeiro de 2014

Deus quis

DEU-ME ESTA VOZ A MIM
Ontem li duas ou três páginas da militância poética
de Ruy Belo, em Cristina Campo predestinação.
E o grande mistério de Herberto Helder.
E do dia-a-dia levantado em verso
por Manuel António Pina.
E do fogo de Camões a correr o ouro frio
para dentro de Pessoa. Fui ver mais. A descarnação de Larkin
e o esgar e a paixão em forma de O´Neill. Até Joyce
e o seu desgosto igual ao meu diante da partida
dos barcos de imigrantes à míngua de país. Aviões.
Tudo escorreito. O pensamento limpo nas
páginas, livros coração de gente.
Fui lavar-me neles. Ver que não estava doida.
E isto porque fiquei com a cagança
do que antes tido lido agarrada aos dedos.
Pessoas grandes da literatura.
Homens.
Quero dizer, pessoas de bem, pensava. E em algum sítio
hão-de ser, na parte mais bestial,
lá pelas entranhas hão-de ser, no esqueleto,
não conheço um fémur com vícios
nem se foi fracturado, pode arrepiar-se depois,
mas isso é a sabedoria meterológica do osso.
Não são. Ilusionistas. Porque escreve, como,
por quem, para quem. Fiquei cheia de vergonha.
Ao que faz, respondo, escrevo,
pois se sou escritora e poeta escrevo, que havia
de fazer, carpintaria?, não sou é cá ilusionista.
Isto de intangibilidades,
espectros, grupetas, merdas de cemitério
ultra-romântico ou o reverso, uma escola de brancuras
de meias japonesas dentro da domesticidade lisboeta,
ser clean, minimalista, ser um atrofio de bonsai.
Gente não é bonecos articulados.
Coração de gente não se escreve em pinoquiotês.
Que vergonha. O que faz? Que vergonha.
Aqui afirmo:
escrevo sem qualquer influência, sem qualquer pertença tribal,
Deus é o Verbo, eu estou no Verbo, recolho as palavras,
a vida basta-me, escrevo.
Não sou ilusionista, não ponho enfeites na língua,
não me cabem nas frases, só na árvore de Natal,
e não sou actriz, não sou de palco, não dou show,
sou de mesa e cadeira,
portanto, sento o rabo na cadeira diante da mesa,
olho para a folha a olhar para mim e escrevo.
A vida basta-me. Quando o cão era novo e respirava
sem dificuldade, dormia de barriga para cima,
as patas flectidas, parte do branco dos olhos a ver-se,
uma lindeza mediúnica, ressonava grosso, todo do sono,
e aquilo dava-me uma paz tal que nenhum restolho de asas de anjo
me fez alguma vez falta.
A vida basta-me.
A tua voz a deslizar no caracol do ouvido, de manhã, basta-me,
a abrir uma janela à luz e ao trânsito no meio escuro dos lençóis quentes,
um búzio para a eternidade
a tua voz no dia aberto a beijos
que a melhor coisa do mundo é estar nu com quem se ama.
Passou. Que pena.
Tudo quanto passou me basta.
Quem passou basta-me. Os meus mortos são meus,
a minha infância é minha, hoje é meu, todo o povoamento da existência
que tive e me tiveram, pessoas, lugares, imaginações,
livros e horas, é meu.
Ter sonhado esta noite que ao lado do mercado velho
havia um matadouro desactivado basta-me,
e contíguo a este,
onde antes tinham vivido funcionários de cutelo na mão,
um edifício setecentista estava a ser recuperado,
e o homem tão brioso do seu restauro mostrava-me
a talha do travessão de uma cadeira e quando me aproximava
explodia de luz porque entrava num imenso mural
de Rafaello pelo manto da Madonna e ao voltar,
pela mesma seda por onde entrara,
dourada na talha do travessão da cadeira,
saía maravilhada daquele ofício de restaurador,
e com as casas pequenas ao lado do matadouro
onde a arte estava viva dentro das coisas,
ali rente à memória do sacrifício animal, nosso alimento,
mas seguia adiante porque era o meu caminho
seguir adiante subindo aquela larga rua
despreocupada de não ter casa. Não ter casa basta-me.
Sonhar enquanto durmo basta-me.
Começar o dia neste poema bastou para a minha taça transbordar,
para agradecer tanto por mais uma noite e mais um sonho,
por mais um dia e mais um poema,
pela taça a derramar a bondade do bem
e a bondade do mal
- Deus quer dar-me e eu aceito -
Escrevo porque é o meu dharma, diz Buda,
porque é a semente que Deus plantou no meu coração,
diz a Bíblia e sendo católica e meditativa,
escrevo porque digo faça-se a Tua vontade que é igual à minha.
Deu-me esta voz a mim, de Amália Rodrigues, em Foi Deus
my cup runneth over, in Psalm 23, KJV