9 de janeiro de 2014

Assim nasceu a estrela do mar


ESTRELA DALVA
Agora que pensava nisso, via: a culpa era toda sua. Lembrava-se das palavras enojadas da irmã: tens uma sentimentalidade de sopeira. Aquilo era um desconchavo. Irritou-se. Já não há sopeiras, Teresa, ou queres dizer a terrina da sopa? Quero dizer que és uma parva. 

Madalena era muito pequenina quando fora para o Brasil. Nem sabia o que era Portugal quando voltou a Portugal. Recordava-se da viagem de regresso, um desgosto em forma de avião barulhento e de choro a motor, e o pai mas ninguém cala essa miúda? A mãe, desabituadíssima das exigências práticas da maternidade desde a alimentação ao consolo, dizia baixinho e séria porte-se como uma senhora, ouviu, porte-se como uma senhora, mas diante da inoperacionalidade do pedido desesperava, porque é que não é como a sua irmã? Quero a Dalva, quero a Dalva. Cale-se lá com isso, que horror.

Dalva era a babá das meninas. No Brasil do fim de 74 vivia-se o remanso do Portugal salarazista e criadagem era coisa que não faltava - em português contemporâneo, pessoal, assistentes, staff.

Quando aterraram na Baía aquilo ainda era muito Jorge Amado. Por ironia, a casa para onde foram viver era quase idêntica à casa de Cuba onde raramente punham os pés, de momento convenientemente ocupada pelo povo unido jamais será vencido, e o gado a morrer de fome no pasto, os cavalos a rebentarem de ossos que a união vencedora não se transforma em ração por obra e graça da foice e do martelo, e os montados entregues ao mato. Era uma casa branca e alta, debruada nas janelas a sangue de boi, portadas de sangue também, e com aquele rendado distintivo das telhas duplas e triplas de quem nasce mais protegido pelo céu - o que é um tecto se não for um céu particular sobre as cabeças, cheio das constelações antepassadas a determinar a astrologia? A cada um o seu presépio. É assim. E lá porque os pastores perderam a noção e se julgaram Reis Magos, mais cedo que tarde e por meia dúzia de ovelhas mais, tudo voltaria ao lugar. 

O pai e a mãe viviam em trânsito: Rio, São Paulo, Baía. O triângulo das barracudas. Elas ficavam, a Teresa já tinha aulas. Numas férias grandes, a Teresinha foi para o Rio onde a mãe passava mais tempo entre jantares e recepções, e acabou por lá ficar por artes de magia e de competência social. Ser adolescente no Rio era uma modernidade que o Portugal pós-revolucionário nas suas classes emergentes não compreenderia com facilidade, faltava-lhe a experiência de anos no sul de França e na costa italiana. No entanto, em Angola e Moçambique, pobres, ricos ou remediados, percebiam essa ideia de liberdade e de espaço sem dificuldade alguma, a frescura do bikini, fazer quatrocentos quilómetros como cá se fazia o passeio higiénico de domingo, canoas, barcos à vela, aviões, eram uma naturalidade como cá as linhas de comboio. A cabeça que se usa para pensar é igual em espaço por dentro ao espaço em volta dela: quanto maior, melhor.
A Baía era outra coisa. E aquele ano antes do regresso, perfeito. Sem razão aparente, sem a irmã por perto fora ficando na mesma como se nada fosse, e a rota de visitação familiar mantinha-se nos mínimos necessários aos negócios. Não queria sair do colégio nem Dalva, mistério intocado pela subalternidade, iria jamais para o Rio ou para onde quer que fosse. A verdade é que Margarida, a mãe das meninas, tinha um certo receio de Dalva, era aquele olhar calmo e reprovador que vira nos olhos da própria mãe, mas a mulher era de absoluta confiança, disso tinha a certeza, podia entregar-lhe as filhas no meio de leões. E a Madalena era tão, tão, enfim, tão não sabia dizer, qualquer coisa vagamente estranha, não parecia sua, e assustadora também, uma miniatura não é bem uma criança, pois não?, tinha os olhos daquele castanho muito escuro de poço, uma coisa de abismos a olhar para cima para uma pessoa. 
Madalena andava a reboque de Dalva para todo o lado. Gostava muito dela. Era recíproco. A Yayá de Dalva explicara os porquês, o presente, o passado e o futuro, magrinha, de turbante como os da mãe de ir à pisicina, aumentada por folhos de uma brancura que a faziam mais negra e rebrilhante, até no meio das rugas. Ai que mulher linda no seu assento como Deus no seu trono de poder e glória. 

Aquele terreiro fora fundado por mulheres. Princesas feitas escravas e levadas do seu reino selvagem e africano para outro reino. E, a bem dos factos, o palácio do rei desse novo reino não ficava longe do que elas levantaram. É natural, a realeza, tudo família, junta-se. Mas também se mata. Havia de ter sido por isso que a Grande Iya Nassô o levara para a Casa Branca do Engenho Velho. Dalva, filha de Xangô, Yayá também, filha de santo ainda no tempo da Mãe Senhora, Maria Bibiana do Espírito Santo, do Império Yoruba, de Oyo e Ketu, da nobre família Asipá, sabia tudo: sabia lavar, cozinhar, passar, rezar, sacrificar, dançar e espreitar para dentro do futuro, e sabia que lavar, passar, cozinhar, rezar, sacrificar, dançar e espreitar para dentro do futuro era alimentar o Axê que alimenta depois a todos. Que mundo bem feito.
Ora, isto viera ao cima por causa da sentimentalidade de sopeira. Cruzara a perna e de cotovelo apoiado no joelho e queixo apoiado na palma da mão, revia. Era verdade, reconhecia. Quer dizer, não revia, revia-se. Os acontecimentos a passarem na tela da memória por junto com os pensamentos, uma salgalhada a velocidades distintas e sem noção de cronologia. 

Há coisa de um par de anos, ao telefone, ele:
- Já cheguei. Estou em casa. Vou à reunião e depois volto. Isto está desolado. Pareço um zombi.

Ele dizia-lhe que se sentia um zombi numa casa desolada, vazia da mulher e dos miúdos, então de férias, como sempre, em São Martinho, de onde viera para uma reunião em Lisboa. Era, portanto, a amante de um zombi. Não ser casada com ele tinha grandes desvantagens, todavia as vantagens eram maiores. Nem todas as mulheres são feitas para o casamento. Mas estar com um zombi não. Se a ausência da mulher e dos filhos fazia dele um zombi, o que era ela? Nessa altura viera-lhe à ideia o Longe Daqui Mesmo, de António Bivar, onde é que tinha enfiado o livro?, aquele texto onde ele falava de outro, do da trapezista e de como a sua comuna de então, no caso a Betânia, lho colara à Estrela Dalva, e logo a seguir pensou na Dalva de Oliveira na voz da sua própria Dalva, estrela guia da manhã e da noite. Tanto tinha acontecido todos os dias enquanto era  pequena e não vivera nada disso de rebeldia e cabelos compridos, nem agora que pouco acontecia, eram outros tempos, viveria, continuava a ter medo de quase tudo, ah era isso, já não precisava do livro, eu queria ser trapezista. Minha paixão era o trapézio, me atirar lá do alto na certeza de que alguém segurava minhas mãos, não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo. Tinha medo de tudo quase, cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo, do que não ficava para sempre. 

Não sabia muita coisa mas alguma coisa sabia. A voz voltava a encher-lhe os ouvidos e tudo em redor. Feche os olhos, coisa pequena. Agora veja uma grande árvore. A árvore foi embora e no seu lugar está um lenço vermelho. O lenço se desfez e agora é o sol amarelo e dourado quem está. Pode abrir os olhos, menina, não vou lhe comer, não. Ria uma grande falta de dentes. O que descobriu? Posso ver o que quiser. Isso também. Mas não é o principal. O importante é reter que você não é seus pensamentos, é o que vê os pensamentos aparecerem e desaparecerem. E isso é ser quem? Isso é ser tudo. Uns chamam-lhe Deus, outros, nada. É Olorum. É o coração da terra quando ainda pulsa no Céu, antes das estrelas, antes do céu e da terra.
Depois daquilo do zombi houve mais outra aresta qualquer e ao fim, como sempre sucede com estes homens, ele seguiu o seu casamento, as suas férias em São Martinho, outra amante, e como sempre sucede com estes homens, quando ela arranjou um namorado a tempo inteiro, quis muito voltar para ela, e ela, como sempre sucede com estas mulheres, deixou o namorado e voltou para o trapézio em time-sharing.
A chatice, desta vez, é que partira a perna e bem durante as férias de toda gente, que era pouca. Da família sobrava-lhe a irmã, de férias, e ele, de férias. Não tinha sido nada de especial. Mas uns dias mais tarde, uma dor como se a carne fosse explodir. E pegou no telefone:
- Preciso de ti. Preciso mesmo de ti.
E ele uma oitava acima - ficou chocada. Não foi com a oitava acima. Foi o tom. Desconhecido:
- Eu não vou a Lisboa. Não estás a pensar que vou para aí, pois não?
Não estava. Nem tal lhe ocorrera. Só precisava dele de forma concreta e modo indefinido.
Ele amava-a. E ela a ele. Era uma loucura como há outras. Amavam-se de todas as maneiras – e em todos os lugares. Estavam outra vez na esplanada. Depois de mais outras férias, outra amante, nenhum namorado. Ele queria voltar.
- Tu sabes que também queres, Madalena. Não podemos jogar fora aquilo que temos.
Por muito que ela não fosse os seus pensamentos, tinha havido aquele dia, o do trombo na perna partida e engessada, a irmã no hospital, tens uma sentimentalidade de sopeira, danada das férias interrompidas, porém ele já se baloiçava, de cabeça para baixo, tão alto, os braços estendidos para a segurar, tu sabes que também queres, Madalena, e ela a olhá-lo, lá no alto, adorava-o, quando de repente, uma rebeldia de cabelos compridos a revolucionar-lhe o peito, a jurar-lhe que estava sozinha, ah era isso, de repente sozinha, os restos ao fim do texto, de repente apareceu uma luz lá no alto e todo mundo ficou olhando. A lona do circo tinha sumido e o que eu via era a estrela Dalva no céu aberto. Quando eu cansei de ficar olhando para o alto e fui olhar para as pessoas, só aí, eu vi que eu estava sozinha. 
Levantou-se sem uma palavra. Deu um passo. Dois. Três. Veio-lhe uma fúria de filha de Iansã que era, voltou-se para trás, e à distância disse-lhe alto e bom som:
- Zombi, sabes o que é um zombi? É um morto que pensa que está vivo.