31 de janeiro de 2014

Bonjour Mundo Cavalo!

where is my love
lailailai
horses galloping
bring him to me
where is my love
where is my love
horses running free
carrying you and me
where is my love
where is my love
safe and warm
so close to me
in my arms
finally
there is my love
there is my love
horses galloping 
bringing him to me
lailailai

30 de janeiro de 2014

Agora chegamos à noite

NOCTURNO
Agora chegamos à noite.
É a hora do império da lua.
Navegamos nesta nave de todos,
somos esta ave de tolos, 
o lento cruzador do céu, 
chamamos-lhe Terra.

Agora chegamos à noite

É a hora do império da lua.
Atravessamos as duas partes do dia:
a da luz como a do sol, parece ter partido;
e a da luz que não se vê, se não se reflecte. 
Pagamos dois tributos,
temos dois senhores
para um só Deus de simetria.
A mão esquerda e mão direita. 
O bem e o mal. 
E por isso temos um só coração, meu Amor.

Seasick Steve - Vocals and guitar
Amy LaVere - Vocals
John Paul Jones - Mandolin
Georgina Leach - violin

29 de janeiro de 2014

v - Tenho de explicar tudo, eu?!

quá-quá
My Girl, dos The Temptations, é o tipo de gal que as meninas podem e devem ser quando se encontram naquele estado interessante: o estado entre maridos/namorados/híbridos. Quando já não se tem o marido, ou namorado, ou híbrido que se tinha, e ainda não se tem o que se vai ter. Como é essa gal? C´est comme ça!, explico tudo. Sou uma santa, eu, é o que sou.
Um pretendente a namorado é uma chatice, tem delírios, se não se tem o cuidado de lhe oferecer, vá, um pouco de realidade, acaba-se com um anel de que não se gosta no dedo e depois, azarucho do caneco, é uma trabalheira para desfazer a distracção. Um rapaz sozinho não serve para quase nada. Mas, e isto, sim, é importante, serve para arranjar outro rapaz. É uma coisa que os entusiasma, a eles, sei lá. Aceite, é um facto.
O seu papel é deixar que eles se esgoelem todos enquanto a minha querida é o sunshine. Depois dá-lhes uma colherzinha de chá: acompanhe só por uns segundos com um lailailai de nada. Pouco, que a raça é perigosa, entusiasmam-se e do nada podem ficar com mais braços do que um polvo. Só com um bocadinho, inho, ínfimo de música, linda menina, põe-nos a cantar e dançar para si porque é the month of May. Não se arme em maluca!, não prefira nenhum. Fique em estado de indecisão. É fácil: todos os rapazes têm ó tantas boas qualidades, se um é giro, o outro é simpático, paciente, um sem fim de virtudes - não é preciso contar que todos lhe provocam sono, por exemplo, ou que não ouve nada do que dizem. Ao fim do show, bate palminhas, ai que bem, muito obrigada, gostei muito, agora o bebé está cansadinho vai ó-ó, ou está descansadinho e vai trabalhar. E vai-se embora.
Não se preocupe com isso, nem com nada, os rapazes são como os patinhos do tio Popper, quando um vê que outro está na fila, lá vai ele atrás também. Porquê? Porque quem vai à frente é quem manda, é a mãe.

27 de janeiro de 2014

Mais Luz, disse Goethe

MAIS LUZ
Coisas acontecem.
A Alegria flui. Constante. Circulatória.
Os poemas
escrevem-se e os pássaros.
Há uma ordem nas letras,
nas rotas migratórias,
na suspensão das estrelas,
no movimento dos planetas.
O pássaro não pergunta
por onde vou. Voa:
vai, volta, flui, constante.
Pássaro quer dizer Alegria.
Depois nada acontece.
Cai uma seda fina
do céu e cobre a alma.
Não é tristeza: é menos luz.
O sol brilha o mesmo brilho
mas não, caiu a seda. O espaço
é negro e frio e silencioso.
Toda a luz é devorada
pela escuridão porque
espaço quer dizer vazio.
A união separou-se,
abriu espaço. E a porta.
Espaço quer dizer seda.
As mãos afastam a seda
e ela fica. De onde vem?
De onde vem a sombra?
As aranhas tecem veios
luminosos infinitos.
Do seu próprio corpo
os tecem e isso é 
a noite e o dia da criação.
De onde vem o escuro?
Mais luz, terá dito Goethe
e não terá dito mais nada.
Para aprendermos?,
a escuridão não vem da morte, 
não há morte, é a ilusão do tempo 
quem nos mata. Mas e esta sombra,
de onde vem?

Na dúvida?, segue adiante que a resposta não está nela...

- Fui mesmo um palhaço...
- Se não tivesses sido, não sentias que eras nem parecias ser, já te viste ao espelho?
- Se fui, fui. Espero que alguém se tenha divertido. Agora deixo-vos aqui a enfeitar a parede e vou para a sala seguinte: o museu é grande.

24 de janeiro de 2014

Talvez não saibas os verbos

AMOR & OUTRAS INUTILIDADES Lda
iii
O VERBO
Dizer amei-te, amava-te, amar-te-ei,
é afirmar uma impossibilidade:
o amor não é a torneira, é a água.
Amar é um verbo. O Verbo.
Para ser conjugado preterita
ou mesmo imperfeita ou futuramente,
como nós, gente do tempo e fora dele,
do erro e do acerto,
da matéria e fora dela,
tem de ser conjugado no presente.
Amor é amo-te.
É no presente, não noutro lugar qualquer,
que está a eternidade.

Chegar

Às vezes, a distância mais curta entre dois pontos é a que demora mais tempo a fazer.

23 de janeiro de 2014

Talvez não saibas bio-gramática

AMOR & OUTRAS INUTILIDADES Lda
ii
EXTRA-SÍSTOLE BIO-GRAMATICAL
 Falha um batimento o coração.
Parece. Mas não: 
é um batimento adicional:
extra-sístole. Extra, um a mais.

É natural.
Que bem sabe bater o coração,
tal qual as palavras usadas para amar:
sístole é uma sílaba longa usada curta,
faltou-lhe o tempo quando perdeu o acento, talvez.
Que perfeito é o corpo, 
o meu próprio coração engana-me 
para poder ainda ouvir 
o coração que me deste.

22 de janeiro de 2014

Eduardo Lourenço: A História É a Suprema Ficção


Eduardo Lourenço: A História é a Suprema Ficção
, uma entrevista de José Jorge Letria a Eduardo Lourenço, é o segundo título da colecção O Fio da Memória, da editora Guerra & Paz e da SPA. Chegou hoje às livrarias. E vou dizer-lhe porque vale a pena lê-lo devagar e com gosto: é um livro que nos facilita a vida. Se calhar deveria ter dito é um livro que nos felicita a vida, porque a verdade é que a vida é mais feliz com ele. Mal comparado é como o amor de quem nos ama: faz-nos gostar mais de nós, faz-nos ser melhores – ou ver quem podemos ser. Futurantes como Eduardo Lourenço.
Começo pelo princípio - coisa sem originalidade alguma nos dias que correm em mosaicos de flash-forward e flash-back.
Conheci Eduardo Lourenço há muito tempo, pois se eu tinha dezoito anos... Foi na Casa dos Açores, em Lisboa. Pela boca de Agostinho da Silva – e ele que não estava presente, logo apareceu. Foi na mesma noite em que amei pela primeira vez as palavras, assim, coisas, coisinhas e outras inhas e inhos que não sabia serem tão amáveis até as ouvir de Agostinho da Silva. Tinha aprendido em pequenina que era feio. Ensinam-nos muita asneira, o que vale é que podemos desfazer-nos delas depois. Não é por mal. É para sermos lobos que os cordeiros são mansos.
Depois de, então, me ter sido apresentado pela fala, fui lendo os livros dele. Todos não. E ouvi-o num lado ou noutro. E agora, apanho-o aqui. Mas antes de avançar é preciso anotar: este homem tem uma meticulosidade beirã, uma minúcia de caligrafia miúda com uma regularidade de impressão de máquina. Alguns beirões têm-na. É uma coisa obreira que vem com a dureza da terra, ela só cede à continuidade, é assim. E leva-se aquele estado do ser para qualquer lado, até pelo mundo fora, vida afora, para o que quer que se faça, a água corre, corre, corre, o seu fio constante, mesmo se o correr é para o sonho como em Eduardo Lourenço, pois ele sabe melhor do que ninguém que as árvores crescem das copas celestes para a terra à procura do lugar da sua raiz. Porque a história da alma é a história do mundo, e a percepção, o sentimento de uma é a construção do mito da outra: a ficção sobre a ficção. Quero dizer: Eduardo Lourenço sabe o que precede o quê e que tudo procede do incriado. E isso já é saber muito. Porque é isto importante?
Porque em Portugal não sabemos que futuro, futuros, se futuro. Temos oitocentos anos de história, da fundação à talassocracia, de centro Europeu e do mundo ocidental a canto mais ocidental da Europa, fechado, fascista, aberto a cravos e depois? E porque também não sabemos que passado tem a Europa no exacto momento, neste, em que o ocidente é deslocado para oriente – quem fomos no oriente do tempo? E porque enquanto as páginas de papel impresso se apagam como antes da imprensa milhares de manuscritos se perderam, uma Alexandria virtual, simultânea, nasce para se erguer e só agora dar início à antiga história universal. 

Não vou fazer a biografia de Eduardo Lourenço. Ela está lá, no livro, a introduzir o convidado à conversa, a contar a vida que o tem vivido. Sim, há tradição, ou sensatez, em Eduardo Lourenço quando diz isto: é uma não resistência àquele curso da água que corre, corre, corre. E por não resistir, é água com a água e mil morosas páginas, rigorosas páginas, são amorosas páginas, são um poema só num ensaio sobre a paixão por Portugal – não é estar apaixonado o sempre desejo de conhecer o que é, o que foi, o que será, para saciar o que jamais se satisfará? Por muito que sejamos possuídos pela paixão, jamais possuímos o objecto da nossa paixão, sempre será mistério. Também isto, ser possuído, é deixar-se ser vivido pela vida.
E também não poderia fazer a biografia de Eduardo Lourenço sem contemplar a relação Leste-Oeste vista de uma França intelectual, Nova Atenas pluri-político-cultural, nos seus nichos, que Eduardo Lourenço atravessou desde 1949 até hoje. E o Portugal de então passando pelo da revolução e o de hoje. E os portugueses, os que ficaram, os que recusaram ficar, os que estão a sair. É quase um século, meu Deus.
Releio os parágrafos acima e vejo que escrevi ser este livro uma conversa. Porque é uma conversa o que acontece quando dois se entre vistam, se vêem um ao outro e se falam. E nós que não estamos lá, quando lemos, passamos a estar e a vê-los entreverem-se. Mas como se conta uma conversa para que ela se faça interessante a quem ainda não a ouviu? Assim: ele perguntou isto, e ele disse aquilo? Não, parece uma bisbilhotice, o diz que disse nunca dito. Não. Isto é difícil. Faz lembrar quando éramos pequenos e queríamos muito contar um filme a quem não o tinha visto: e depois ele deu-lhe um soco que o deixou estendido, ou, então, toda a gente adormeceu e à volta do castelo cresceram espinhos muito altos e ninguém sabia o que lá havia porque de fora só se viam os espinhos, passaram cem anos até que um príncipe, ao passear a cavalo, percebeu o castelo encoberto. Este querer contar, é mostrar algo que se admira a alguém de quem se gosta.
Não sei quem foi. Sei que afirmou: só se admira aquilo que não se é. Isto é uma parvoíce, ou uma daquelas coisas que se dizem em dia não.
O que mais se admira em Eduardo Lourenço é o Portugal que somos na nossa vocação de sermos outros, e sendo todos sermos mais quem somos. Não é difícil de entender este messianismo sem proselitismo. Este solve et coagula alquímico e pessoano: quanto mais nos dissolvemos pelas terras que o mar nos deu, as mesmas que demos à terra para que fosse efectivamente redonda, mais se solidifica a identidade que é múltipla: o outro nome para a poética portuguesa - aliás, como a identidade do próprio Eduardo Lourenço se diluiu para se concretizar na obra. Assim, esta vocação de centralidade não é narcísica nem saudosista, é universalista, é a poesia ela mesma. É a vocação Camoniana. A poesia é a essência do que nós somos. Não há outra inscrição maior no ser humano que a expressão poética. É o corpo dos Lusíadas na carne e na cosmologia, uma aventurosa experiência profana e religiosa: a aventura do significado, da busca do sentido, as ficções da história.
Nas cartas de antes, como os navegantes éramos nós que as mandávamos fazer, Portugal vinha ao centro. O centro do mundo no mapa. Tanto que o Japão, não me recordo quando, os mandou refazer com o Japão ao centro – susceptibilidades de olhos em bico. É isto. Somos o centro. Tão pequenino. Somos só um pontinho voltado para a circunferência que nos espelha. Há uma plasticidade em ser português como nos refere Eduardo Lourenço a outro propósito no episódio da auto-colonização brasileira: os portugueses no Brasil converteram-se em brasileiros e reclamaram a independência de… Portugal. E também isto é a metafísica portuguesa. E, em simultâneo, a sua irremediável contradição onde coabitámos senhores da nova escravidão imperial e da velha cristandade - com os descobrimentos e uma igreja sem a Reforma.
Nesta crise identitária europeia, mais funda desde o fim da Segunda Grande Guerra, e mais clara desde a queda do Muro de Berlim, o que é ser Europeu? E português? E agora que a China está às portas dos Estados Unidos para um novo Tordesilhas, o que é ser ocidental?
Somos Édipo com Eduardo Lourenço. Perguntamos. Mas e a Esfinge, quem é?

Talvez não saibas o que é o amor

AMOR & OUTRAS INUTILIDADES Lda

i
UMA COISA PEQUENINA
O amor é uma coisa
pequenina
cabe entre a tua mão
e a minha
quando elas se dão
É este desejo maior de dar a mão
os dedos teus e meus
sede e água juntos
para o mundo repousar
no equilíbrio do seu eixo

Bonjour Mundo!



20 de janeiro de 2014

Micah P. Hinson

Se gosta de Neil Young, Bob Dylan, Johnny Cash, Woody Guthrie, do mais novinho e meio-francês Charles Pasi, de Amy Lavere e de Seasick Steve, dos Lucero, vai gostar deste sacana. Bem sei, sacana não é palavra que use, mas não me ocorre uma melhor e alguma coisa me diz que esta alma está convencida que não é flor que se cheire. 


Porquê? Não, não é porque beba como se vivesse a Lei Seca, fume, ou enfie drogas pelos orifícios que entende. Isso é natural quando é natural. É uma daquelas coisas.
James Christopher Monger diz que ele é um rapaz problemático formado na linha dura do cristianismo e da cadeia, tudo metas cumpridas, droga, álcool, bancarrota e viver atrás das grades, antes dos vinte anos. 

Parece-me muito razoável que tenha sido antes dos vinte, pelo menos tanto quanto o mais fundamentalista dos cristianismos andar de braço dado com a morte – é outro nome para destruição, para o infame pecado. É um par antitético. Também são estas cisões que desgraçam a gente e a faz criativa, ou as mata, ou dois em um. Desgraçam quer dizer, graçam: são uma Graça, uma Bênção. Uns Cristos crucificados em pequenino. Não parecem, pois não?, mas são. Olhe, o meu Johnny Cash é um. Vê? Se não fossem eles como é que chorávamos os nossos desgostos profanos por aquilo que nos é mais sagrado? É preciso que alguém sofra para nos levar o sofrimento ao colo, quero dizer, consolo - não estamos sós. Não são cruzes que se usem ao peito, usam-se no ipod. E é preciso alguém que sonhe. Tenha esperança e outras irracionalidades que embatem contra o mundo e não se desfazem. O que é isso de vinte anos? Se começasse depois dos 30 talvez houvesse alguma coisa nisso. Assim não, é triste, é previsível. É lógico, perverso, mas lógico. E por nós homens e por nossa salvação descem dos céus. Os alquimistas medievais afirmaram: o que toca no céu tem as raízes no inferno. O que Micah P. Hinson deixa no palco está em trânsito entre o Texas com o fundo em Memphis e o futuro em Jerusalém Celeste.

Micah P. Hinson tem  quatro ou cinco álbuns e já passou por Portugal algumas vezes. Já sabe, saloios de Memphis, Tennessee, ou dos quatro costados, é comigo. Enjoy.

14 de janeiro de 2014

É Botticelli, Senhora


UMA CONCHA DE PRESENTE
Houve a questão da cama. Por causa do catálogo vindo sabe-se lá de onde na sua capa dura, ao toque quase plástico, em cor de cocó de bebé que andasse mal da barriga. Mas por dentro, ó por dentro, uma riqueza fotográfica a preto e branco, o cetim das folhas, um desparrame  de móveis estilo isto e estilo aquilo. Uma fartura barroca em moderna talha de máquina. Enfim, um desatino do luxo.
E eu adorava a coisa que ninguém sabia quem tinha trazido e para lá andava ao Deus dará. Não fosse eu a salvá-la.
A minha credibilidade estética antes da idade de ir para a escola era, como direi, fraca. Em casa, se andasse vestida de odalisca ou sevilhana estava no meu elemento natural. Usava uma profusão de jóias da cabeça aos pés segundo o critério quanto maior e mais brilhante, melhor. E assim que aprendi a desatar o laço duplo das botas ortopédicas fugia para cima de sapatos de salto alto. Ensaiava muitas poses ao espelho. Fazia muito sarau dançante. Mas não era cá doida, não ia naqueles preparos para a rua ainda que pudesse ocultar um anel descabido nos dedos. Ia sempre muito composta. Bem penteada, de carrinho de bebé com o chorão dentro a dormir descansado, e carteira. E que não se enganassem, não era por isso que andava de bicicleta mais devagar ou deixava de subir às árvores.
Já contei que a minha casa era grande e velha. Alguma coisa andava sempre a ser reparada, se não fosse o telhado era uma parede, se não fosse a parede era uma porta empenada. E os móveis eram igualmente velhos, não estalavam de fantasmas, só de cansaço de existir ano após ano, doíam-lhes as juntas. E quando era preciso mudar o que quer que fosse era ir ao depósito, lá em casa mesmo, trazer o que lá estivesse, dar-lhe ar a toque de lixa, colar, mesmo refazer, e vá de encerar, pintar, lacar, ou estofar e forrar de novo. Mas isso só acontecia muito de quando em vez, quando a minha avó dizia esta sala está uma vergonha, isto não pode ser. Era quem mais podia fugir. Palavras mágicas do canecotalvez trouxessem uma máquina que gritava mais do que as fúrias enquanto dava um estrafego ao chão. Ou sumissem cortinados e outros viessem do nada, ou do rosa se fizesse verde.
A minha cama tinha sido da minha mãe e posso jurar que ela não foi a primeira ocupante. Era assim com tudo. Das peças de tecido fazia-se roupa e das sobras pequeninas roupa para as bonecas. Era um tempo de costureiras e modistas, que parecendo ser a mesma profissão, é profissão muito diferente. Era esse tempo para mim. Que para outras meninas que conhecia, até primas afastadas, era o tempo do pronto a vestir, das socas e chinelas de pau iguais às da Anita, bonitas de morrer, e de viver em apartamentos super fantásticos com estantes feitas de cubos esvaziados de plástico colorido e alcatifas fofas no chão que não diziam um único ai. Fogõezinhos que pareciam de brincar e sem aquele escuro de chaminé por ali acima  direita ao infinito sideral. Cozinhas em corredor de comboio. E camas a estrear.
O meu avô fazia-me algumas vontades, achava graça ao meu deslumbramento de índio com vidros e contas. A minha avó nenhuma vontade nem nenhuma graça que dizia alto e bom som que eu tinha uma estética de cabaret, um desassossego de folhos, plumas e lantejoulas.
Ora, no aniversário o meu avô perguntava-me o que queria de presente – porque sabia que os meus desejos oscilavam entre o desportivo radical e o estapafúrdio e se ele não estivesse por mim, azarucho, estava sozinha. O desejo de aniversário era sagrado. Podiam ser uns patins antes da hora. Um baloiço no meio da parte coberta do quintal, em pleno alpendre, para voar alto em dias de chuva. Ou naquele único ano megalómano, zás, uma mobília de quarto. Ou melhor uma cama. Menos, uma cabeceira apenas - porque a cama e o colchão que a acompanhavam na fotografia eram redondos e de casal. Disso não gostei, achei que ia ficar tonta porque sempre enjoei e ver redondo era sentir-me a andar à roda.
A cabeceira era uma linda concha em formato de vieira gigante, cor de marfim patinado com uns filetes dourados, fininhos, fininhos, envelhecidos a craquelée e inclinava-se suavemente: toda a parte superior nem tocava a parede. Seria uma coisa hollywoodesca se na altura conhecesse a palavra. E faziam à medida. E podia aplicar-se a uma base a direito que não desse tonturas, sim senhor, de solteiro, com certeza, entrega e montagem, sem atrasos, somos gente de confiança. Tudo em segredo telefónico e depois, entre nós, silêncio de conspiração. De vez em quando está quase? Está quase. É hoje. Não é hoje. A seguir, estratégia.
Quando a minha avó chegou a casa já a concha tinha sido entregue e estava montada, e o quarto arrumado sem vestígios de qualquer intervenção. Ó aparição marinha e maravilhosa, imensa como o mar de onde surgia. Aparecera, pronto. Estava ali. Existia. Que sorte, que sorte ter as paredes em azul e que sorte ainda maior, desta vez, viver numa casa velha de tectos muito altos.
Pensei que ia ser fuzilada pela metralhadora escondida no preto ao centro dos olhos da minha avó. Mas escapei ilesa - as balas foram todas noutra direcção.
- Tudo o que esta criança precisa é de uma cama de casa de meninas.
- Cama de casa de meninas, não, isto é história da arte, é Botticelli, é o nascimento de Vénus.
- Não se enterre que vai dar tudo ao mesmo.

Espelho

Há quem atravesse desertos para saber quem é. Suba montanhas, desça ao fundo da noite. Não é preciso. É-se o que se faz. É-se o amor que se tem. Basta olhar e ver. 

10 de janeiro de 2014

Deus quis

DEU-ME ESTA VOZ A MIM
Ontem li duas ou três páginas da militância poética
de Ruy Belo, em Cristina Campo predestinação.
E o grande mistério de Herberto Helder.
E do dia-a-dia levantado em verso
por Manuel António Pina.
E do fogo de Camões a correr o ouro frio
para dentro de Pessoa. Fui ver mais. A descarnação de Larkin
e o esgar e a paixão em forma de O´Neill. Até Joyce
e o seu desgosto igual ao meu diante da partida
dos barcos de imigrantes à míngua de país. Aviões.
Tudo escorreito. O pensamento limpo nas
páginas, livros coração de gente.
Fui lavar-me neles. Ver que não estava doida.
E isto porque fiquei com a cagança
do que antes tido lido agarrada aos dedos.
Pessoas grandes da literatura.
Homens.
Quero dizer, pessoas de bem, pensava. E em algum sítio
hão-de ser, na parte mais bestial,
lá pelas entranhas hão-de ser, no esqueleto,
não conheço um fémur com vícios
nem se foi fracturado, pode arrepiar-se depois,
mas isso é a sabedoria meterológica do osso.
Não são. Ilusionistas. Porque escreve, como,
por quem, para quem. Fiquei cheia de vergonha.
Ao que faz, respondo, escrevo,
pois se sou escritora e poeta escrevo, que havia
de fazer, carpintaria?, não sou é cá ilusionista.
Isto de intangibilidades,
espectros, grupetas, merdas de cemitério
ultra-romântico ou o reverso, uma escola de brancuras
de meias japonesas dentro da domesticidade lisboeta,
ser clean, minimalista, ser um atrofio de bonsai.
Gente não é bonecos articulados.
Coração de gente não se escreve em pinoquiotês.
Que vergonha. O que faz? Que vergonha.
Aqui afirmo:
escrevo sem qualquer influência, sem qualquer pertença tribal,
Deus é o Verbo, eu estou no Verbo, recolho as palavras,
a vida basta-me, escrevo.
Não sou ilusionista, não ponho enfeites na língua,
não me cabem nas frases, só na árvore de Natal,
e não sou actriz, não sou de palco, não dou show,
sou de mesa e cadeira,
portanto, sento o rabo na cadeira diante da mesa,
olho para a folha a olhar para mim e escrevo.
A vida basta-me. Quando o cão era novo e respirava
sem dificuldade, dormia de barriga para cima,
as patas flectidas, parte do branco dos olhos a ver-se,
uma lindeza mediúnica, ressonava grosso, todo do sono,
e aquilo dava-me uma paz tal que nenhum restolho de asas de anjo
me fez alguma vez falta.
A vida basta-me.
A tua voz a deslizar no caracol do ouvido, de manhã, basta-me,
a abrir uma janela à luz e ao trânsito no meio escuro dos lençóis quentes,
um búzio para a eternidade
a tua voz no dia aberto a beijos
que a melhor coisa do mundo é estar nu com quem se ama.
Passou. Que pena.
Tudo quanto passou me basta.
Quem passou basta-me. Os meus mortos são meus,
a minha infância é minha, hoje é meu, todo o povoamento da existência
que tive e me tiveram, pessoas, lugares, imaginações,
livros e horas, é meu.
Ter sonhado esta noite que ao lado do mercado velho
havia um matadouro desactivado basta-me,
e contíguo a este,
onde antes tinham vivido funcionários de cutelo na mão,
um edifício setecentista estava a ser recuperado,
e o homem tão brioso do seu restauro mostrava-me
a talha do travessão de uma cadeira e quando me aproximava
explodia de luz porque entrava num imenso mural
de Rafaello pelo manto da Madonna e ao voltar,
pela mesma seda por onde entrara,
dourada na talha do travessão da cadeira,
saía maravilhada daquele ofício de restaurador,
e com as casas pequenas ao lado do matadouro
onde a arte estava viva dentro das coisas,
ali rente à memória do sacrifício animal, nosso alimento,
mas seguia adiante porque era o meu caminho
seguir adiante subindo aquela larga rua
despreocupada de não ter casa. Não ter casa basta-me.
Sonhar enquanto durmo basta-me.
Começar o dia neste poema bastou para a minha taça transbordar,
para agradecer tanto por mais uma noite e mais um sonho,
por mais um dia e mais um poema,
pela taça a derramar a bondade do bem
e a bondade do mal
- Deus quer dar-me e eu aceito -
Escrevo porque é o meu dharma, diz Buda,
porque é a semente que Deus plantou no meu coração,
diz a Bíblia e sendo católica e meditativa,
escrevo porque digo faça-se a Tua vontade que é igual à minha.
Deu-me esta voz a mim, de Amália Rodrigues, em Foi Deus
my cup runneth over, in Psalm 23, KJV

9 de janeiro de 2014

Assim nasceu a estrela do mar


ESTRELA DALVA
Agora que pensava nisso, via: a culpa era toda sua. Lembrava-se das palavras enojadas da irmã: tens uma sentimentalidade de sopeira. Aquilo era um desconchavo. Irritou-se. Já não há sopeiras, Teresa, ou queres dizer a terrina da sopa? Quero dizer que és uma parva. 

Madalena era muito pequenina quando fora para o Brasil. Nem sabia o que era Portugal quando voltou a Portugal. Recordava-se da viagem de regresso, um desgosto em forma de avião barulhento e de choro a motor, e o pai mas ninguém cala essa miúda? A mãe, desabituadíssima das exigências práticas da maternidade desde a alimentação ao consolo, dizia baixinho e séria porte-se como uma senhora, ouviu, porte-se como uma senhora, mas diante da inoperacionalidade do pedido desesperava, porque é que não é como a sua irmã? Quero a Dalva, quero a Dalva. Cale-se lá com isso, que horror.

Dalva era a babá das meninas. No Brasil do fim de 74 vivia-se o remanso do Portugal salarazista e criadagem era coisa que não faltava - em português contemporâneo, pessoal, assistentes, staff.

Quando aterraram na Baía aquilo ainda era muito Jorge Amado. Por ironia, a casa para onde foram viver era quase idêntica à casa de Cuba onde raramente punham os pés, de momento convenientemente ocupada pelo povo unido jamais será vencido, e o gado a morrer de fome no pasto, os cavalos a rebentarem de ossos que a união vencedora não se transforma em ração por obra e graça da foice e do martelo, e os montados entregues ao mato. Era uma casa branca e alta, debruada nas janelas a sangue de boi, portadas de sangue também, e com aquele rendado distintivo das telhas duplas e triplas de quem nasce mais protegido pelo céu - o que é um tecto se não for um céu particular sobre as cabeças, cheio das constelações antepassadas a determinar a astrologia? A cada um o seu presépio. É assim. E lá porque os pastores perderam a noção e se julgaram Reis Magos, mais cedo que tarde e por meia dúzia de ovelhas mais, tudo voltaria ao lugar. 

O pai e a mãe viviam em trânsito: Rio, São Paulo, Baía. O triângulo das barracudas. Elas ficavam, a Teresa já tinha aulas. Numas férias grandes, a Teresinha foi para o Rio onde a mãe passava mais tempo entre jantares e recepções, e acabou por lá ficar por artes de magia e de competência social. Ser adolescente no Rio era uma modernidade que o Portugal pós-revolucionário nas suas classes emergentes não compreenderia com facilidade, faltava-lhe a experiência de anos no sul de França e na costa italiana. No entanto, em Angola e Moçambique, pobres, ricos ou remediados, percebiam essa ideia de liberdade e de espaço sem dificuldade alguma, a frescura do bikini, fazer quatrocentos quilómetros como cá se fazia o passeio higiénico de domingo, canoas, barcos à vela, aviões, eram uma naturalidade como cá as linhas de comboio. A cabeça que se usa para pensar é igual em espaço por dentro ao espaço em volta dela: quanto maior, melhor.
A Baía era outra coisa. E aquele ano antes do regresso, perfeito. Sem razão aparente, sem a irmã por perto fora ficando na mesma como se nada fosse, e a rota de visitação familiar mantinha-se nos mínimos necessários aos negócios. Não queria sair do colégio nem Dalva, mistério intocado pela subalternidade, iria jamais para o Rio ou para onde quer que fosse. A verdade é que Margarida, a mãe das meninas, tinha um certo receio de Dalva, era aquele olhar calmo e reprovador que vira nos olhos da própria mãe, mas a mulher era de absoluta confiança, disso tinha a certeza, podia entregar-lhe as filhas no meio de leões. E a Madalena era tão, tão, enfim, tão não sabia dizer, qualquer coisa vagamente estranha, não parecia sua, e assustadora também, uma miniatura não é bem uma criança, pois não?, tinha os olhos daquele castanho muito escuro de poço, uma coisa de abismos a olhar para cima para uma pessoa. 
Madalena andava a reboque de Dalva para todo o lado. Gostava muito dela. Era recíproco. A Yayá de Dalva explicara os porquês, o presente, o passado e o futuro, magrinha, de turbante como os da mãe de ir à pisicina, aumentada por folhos de uma brancura que a faziam mais negra e rebrilhante, até no meio das rugas. Ai que mulher linda no seu assento como Deus no seu trono de poder e glória. 

Aquele terreiro fora fundado por mulheres. Princesas feitas escravas e levadas do seu reino selvagem e africano para outro reino. E, a bem dos factos, o palácio do rei desse novo reino não ficava longe do que elas levantaram. É natural, a realeza, tudo família, junta-se. Mas também se mata. Havia de ter sido por isso que a Grande Iya Nassô o levara para a Casa Branca do Engenho Velho. Dalva, filha de Xangô, Yayá também, filha de santo ainda no tempo da Mãe Senhora, Maria Bibiana do Espírito Santo, do Império Yoruba, de Oyo e Ketu, da nobre família Asipá, sabia tudo: sabia lavar, cozinhar, passar, rezar, sacrificar, dançar e espreitar para dentro do futuro, e sabia que lavar, passar, cozinhar, rezar, sacrificar, dançar e espreitar para dentro do futuro era alimentar o Axê que alimenta depois a todos. Que mundo bem feito.
Ora, isto viera ao cima por causa da sentimentalidade de sopeira. Cruzara a perna e de cotovelo apoiado no joelho e queixo apoiado na palma da mão, revia. Era verdade, reconhecia. Quer dizer, não revia, revia-se. Os acontecimentos a passarem na tela da memória por junto com os pensamentos, uma salgalhada a velocidades distintas e sem noção de cronologia. 

Há coisa de um par de anos, ao telefone, ele:
- Já cheguei. Estou em casa. Vou à reunião e depois volto. Isto está desolado. Pareço um zombi.

Ele dizia-lhe que se sentia um zombi numa casa desolada, vazia da mulher e dos miúdos, então de férias, como sempre, em São Martinho, de onde viera para uma reunião em Lisboa. Era, portanto, a amante de um zombi. Não ser casada com ele tinha grandes desvantagens, todavia as vantagens eram maiores. Nem todas as mulheres são feitas para o casamento. Mas estar com um zombi não. Se a ausência da mulher e dos filhos fazia dele um zombi, o que era ela? Nessa altura viera-lhe à ideia o Longe Daqui Mesmo, de António Bivar, onde é que tinha enfiado o livro?, aquele texto onde ele falava de outro, do da trapezista e de como a sua comuna de então, no caso a Betânia, lho colara à Estrela Dalva, e logo a seguir pensou na Dalva de Oliveira na voz da sua própria Dalva, estrela guia da manhã e da noite. Tanto tinha acontecido todos os dias enquanto era  pequena e não vivera nada disso de rebeldia e cabelos compridos, nem agora que pouco acontecia, eram outros tempos, viveria, continuava a ter medo de quase tudo, ah era isso, já não precisava do livro, eu queria ser trapezista. Minha paixão era o trapézio, me atirar lá do alto na certeza de que alguém segurava minhas mãos, não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo. Tinha medo de tudo quase, cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo, do que não ficava para sempre. 

Não sabia muita coisa mas alguma coisa sabia. A voz voltava a encher-lhe os ouvidos e tudo em redor. Feche os olhos, coisa pequena. Agora veja uma grande árvore. A árvore foi embora e no seu lugar está um lenço vermelho. O lenço se desfez e agora é o sol amarelo e dourado quem está. Pode abrir os olhos, menina, não vou lhe comer, não. Ria uma grande falta de dentes. O que descobriu? Posso ver o que quiser. Isso também. Mas não é o principal. O importante é reter que você não é seus pensamentos, é o que vê os pensamentos aparecerem e desaparecerem. E isso é ser quem? Isso é ser tudo. Uns chamam-lhe Deus, outros, nada. É Olorum. É o coração da terra quando ainda pulsa no Céu, antes das estrelas, antes do céu e da terra.
Depois daquilo do zombi houve mais outra aresta qualquer e ao fim, como sempre sucede com estes homens, ele seguiu o seu casamento, as suas férias em São Martinho, outra amante, e como sempre sucede com estes homens, quando ela arranjou um namorado a tempo inteiro, quis muito voltar para ela, e ela, como sempre sucede com estas mulheres, deixou o namorado e voltou para o trapézio em time-sharing.
A chatice, desta vez, é que partira a perna e bem durante as férias de toda gente, que era pouca. Da família sobrava-lhe a irmã, de férias, e ele, de férias. Não tinha sido nada de especial. Mas uns dias mais tarde, uma dor como se a carne fosse explodir. E pegou no telefone:
- Preciso de ti. Preciso mesmo de ti.
E ele uma oitava acima - ficou chocada. Não foi com a oitava acima. Foi o tom. Desconhecido:
- Eu não vou a Lisboa. Não estás a pensar que vou para aí, pois não?
Não estava. Nem tal lhe ocorrera. Só precisava dele de forma concreta e modo indefinido.
Ele amava-a. E ela a ele. Era uma loucura como há outras. Amavam-se de todas as maneiras – e em todos os lugares. Estavam outra vez na esplanada. Depois de mais outras férias, outra amante, nenhum namorado. Ele queria voltar.
- Tu sabes que também queres, Madalena. Não podemos jogar fora aquilo que temos.
Por muito que ela não fosse os seus pensamentos, tinha havido aquele dia, o do trombo na perna partida e engessada, a irmã no hospital, tens uma sentimentalidade de sopeira, danada das férias interrompidas, porém ele já se baloiçava, de cabeça para baixo, tão alto, os braços estendidos para a segurar, tu sabes que também queres, Madalena, e ela a olhá-lo, lá no alto, adorava-o, quando de repente, uma rebeldia de cabelos compridos a revolucionar-lhe o peito, a jurar-lhe que estava sozinha, ah era isso, de repente sozinha, os restos ao fim do texto, de repente apareceu uma luz lá no alto e todo mundo ficou olhando. A lona do circo tinha sumido e o que eu via era a estrela Dalva no céu aberto. Quando eu cansei de ficar olhando para o alto e fui olhar para as pessoas, só aí, eu vi que eu estava sozinha. 
Levantou-se sem uma palavra. Deu um passo. Dois. Três. Veio-lhe uma fúria de filha de Iansã que era, voltou-se para trás, e à distância disse-lhe alto e bom som:
- Zombi, sabes o que é um zombi? É um morto que pensa que está vivo.

Fado à sombra do rio

FADO
À SOMBRA DO RIO

Eu sei de um lugar
à sombra da curva do rio
à hora em que ninguém vem
Dentro desta água corre o mar
de além
e a voz que mundo tem
é aqui que a vem cantar
E é por isso que sei
mais de mil e um segredos
E o teu coração sei também e
os teus passos as tuas horas
quando ris e porque choras
Não te espero 
nunca virás
Não me esperes 
não posso
Entre nós está o rio:
é o do tempo que não foi nosso

7 de janeiro de 2014

Para o que nasce uma pessoa


SABE-SE LÁ
Dizer os sentimentos não se vêem é uma merda de primeira apanha. Se há coisa que se vê é o que se sente, a menos que se esteja a esconder propositadamente – e o que se esconde, se não for o que tem vergonha de se mostrar ou o que não se pode mostrar sem castigo?  Bem, em casos raros esconde-se o que se quer só para si, e para alguns escolhidos, aquilo a que se dá extremo valor. Ali Babá escondia, não só por ser tesouro, mas por ser roubado, isso sabia ele de pequenino. E muito bem.
Outra coisa não fez enquanto ganhava corpo. Escondia as nódoas negras e roxas e os vergões debaixo da roupa estratégica e de manga comprida, as sweat por baixo de t-shirts. Toda gente usava assim. Só que ele não variava o uso nem no Verão. Escondia a raiva e escondia a vontade de matar aquele filho da puta: aos cinco anos já comia pelos cornos abaixo à sexta-feira como os outros comiam peixe para não ofender o Senhor. Aleluia.
Enfiado e calado, de manga comprida, num sexto-andar da Cidade Nova, em Santo António dos Cavaleiros, um bloco colado a outro e a outro, em riscas horizontais de mau betão pré-fabricado e multiplicado ao infinito, uma ideia mal copiada das cidades-jardim inglesas à porta das cidades que serviam, um refugo relvado para os imigrantes da fome do Alentejo ou os retornados que lá iam refazendo a sua vida, legais e ilegais de Goa, Moçambique, de Angola, gente que saía de autocarro às seis e meia da manhã e chegava a casa depois das sete da noite, vinda de Lisboa. Os anos 80 elevaram o estatuto dos filhos destes pais. Saiu dali, Calçada de Carriche afora, uma nova classe de miúdos que acedeu ao ensino superior e se fizeram homens para nunca mais voltar.
Ele fazia parte deles, e desses números. Crescera ali entre os novos pobres misturado com as minorias étnicas que estavam em maioria e cuja etnicidade não descortinava. A mãe, sim. Tanto que apesar de ter a escola primária perto, lá em baixo, e a secundária em frente de casa, em contentores provisórios desde a revolução sem derramamento de sangue que aprendera nos manuais, à primária fizera-a na Escola Paroquial de Loures, um reduto religioso, esse sim, minoritário, em plena cidade de despojos soviéticos. E a seguir Colégio Moderno onde a mãe era auxiliar de educação - coisa que não o favorecia entre pares com o valor supremo da paridade. Foi aí que começou a descortinar. Não veio mal ao mundo. Sempre aprendera cedo a diferença que vai do discurso à realidade e é que não há diferença entre a sociedade dos homens e uma alcateia. A hierarquia é uma malha de ferro. Ou se a rompe ou é ela quem diz quem somos e para o que somos e para quem.
Aprendera também ali entre os seus pares colegiais a fazer-se invisível. Não há melhor maneira de se esconder do que parecer um entre muitos: nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem bom nem mau aluno. Mas tens a certeza de que ele era da nossa turma?, pensava que o filho da contínua era da outra. Tens a certeza? Perguntaria anos depois uma das colegas quando não havia quem não lhe soubesse o nome: neurologista, prémio Nobel da Medicina pela APDCP – Aplicação para Plasticidade e Desenvolvimento do Cortéx Pré-Frontal. Descobrira a chave que controlava a violência ainda antes desta se manifestar.
Enquanto pisava a carpete azul cerimonial no dia da entrega do prémio, pensava nos contras da APDCP. Um capital de revolta e de ódio, se bem gerido, se escapa à humilhação e submissão que traz dentro, se apontado a um alvo, é infalível. É uma máquina de criação. Que pena ser também uma máquina de destruição. E não saber a magia do pêndulo. Tinha na cabeça a letra do fado na voz de fazer as limpezas de sábado de manhã da mãe, a saltar versos: sabe-se lá quando a sorte é boa ou má, ninguém sabe quando nasce, pró que nasce uma pessoa.

A última vez que o pai lhe jogou a mão, deu consigo mesmo estendido de barriga para cima no chão de má cerâmica da cozinha onde há que anos os ladrilhos rachados esperavam substituição. Nem percebera. Ficaram-lhe as rachas dos ladrilhos metidas na memória. Ouviu a voz do filho em cima dos olhos que abria e fechava piscando de dor e incredulidade. Uma voz calma, pausada, um sopro de fogo nas pálpebras: faça as malas e saia. Se voltar, se alguma vez se aproximar da mãe, mato-o e nunca ninguém saberá, nem a mãe. Há-de cair de bêbado em qualquer lado, mas desta vez não se levantará, e quem há-de estranhar?
Ninguém põe em causa uma revelação. Uma revelação é uma coisa íntima. É o mundo a falar connosco numa linguagem profana a sua verdade sagrada. Ora, ele que toda a vida tivera a desconfiança, de antes do filho nascer, mesmo com a mulher cheia de grávida, mal bebia dois whiskys, a desconfiança, mais um copo, a certeza, a certezinha absoluta ah grande puta que me anda a dormir com o ex-namorado, põe-me os cornos e ando a criar o filho do outro, naquele momento percebeu que não, que ela não dormira com ninguém e que aquele era mesmo o filho dele. Filho, ainda disse antes do cotovelo na base do pescoço lhe cortar o ar e o pio, não me chame filho que eu não tenho pai, vá-se embora.
E ele foi. Mas quem saiu dali foi um trapo. Nem copos nem porrada. Do trabalho para o quarto alugado, do quarto alugado para o trabalho – tinha sorte, estava vivo e em liberdade. Não merecia. Sabia que não merecia. Se o arrependimento matasse como dizem as pessoas. Mas não mata, nem muda o passado, nem redime a ponta de um corno a quem teve de levar com o que teve antes do arrependimento mostrar a cara. O arrependimento é tal qual a revelação, íntimo, não serve a mais ninguém, não se pode ser o que se foi porque se repudia o que se foi, mais nada. Um dia, a ler a notícia dum homem que morrera dum camarão percebera. O arrependimento era uma alergia, hoje comes camarões e gostas, não acontece nada, ao outro dia comes camarões, fazes edema da glote, era este o nome do sucedido derivado do camarão, e vais desta para melhor. Era isso. Fixara tudo. O sistema imunológico moral volta-se contra o próprio dono: tu és o inimigo, cabrão. Agora passa sem camarões, trabalho, quarto, trabalho. Ou morres e fazes do teu filho um parricida como no filme daquele careca, o Yul Brynner, em vez de o veres na televisão, de abas de grilo e faixa a tiracolo a falar tão bem que parece que nunca lhe tocaram com um dedo.

5 de janeiro de 2014

Eusébio por Manuel S. Fonseca

Só se homenageia se se ama. Que linda homenagem. É um bocadinho nossa.

Eusébio da Silva Ferreira, meu Deus.

Meia- Noite

MEIA-NOITE NAVEGANTE
Esta coabitação de pássaros no mesmo ramo...
A luz a cair agarrada às folhas
e o vento a dar-lhes um reverso de sombra
O milagre da árvore saída da terra e ainda
enfiada no escuro mas dirigida toda para o céu
Segredos explodem maravilhas
páginas florestais de livros fechados abrem-se
no exacto momento em que um puríssimo
preto de Rothko é o mar onde a meia noite navega

2 de janeiro de 2014

Escrever

Se não houver rosas bastam-nos espinhos,
Se não tivermos luz bastam-nos chamas.
Umar-i Khayyam in Ruba´iyat
ESCREVER
Escreverei hoje, quinta-feira
e amanhã, sexta-feira
e sábado escreverei também
Escreverei todos os dias
e quando o silêncio me o impedir
escreverei silêncio sobre o silêncio
e ficarei quieta, de olhos fechados
até que a respiração do mundo
irrompa nos lábios
porque todo o milagre vem
por meio da palavra
e arranca do escuro
os astros pelos cabelos
e eu hei-de estar nessa explosão de luz