13 de dezembro de 2013

Carta ao meu Amor

Monstro!
Estava a olhar para as minhas lindas unhas, fresquinhas da manicure de véspera, encarnadas rebrilhantes no preto do teclado, e a pensar toda contente que nunca as tive mais bonitas quando me ocorreu: ó… não posso mostrá-las ao meu Amor. Sua fera!, era em si que as devia usar num arranhãozinho bem marcado só para o lembrar de que não estar presente em momentos importantíssimos como este, dói: chama-se distância emocional. Patetão ausente.
Pois fique sabendo: não gosto de si. Porquê? Porque passou muito tempo desde que o verniz secou ontem. Já não quero que se manifeste como os espíritos de quando era pequena: está aí algum espírito que se queira manifestar? Fazia isto pela casa toda, em cada divisão, enquanto andei debaixo do spell de um filme de medos a preto e branco que vi com o meu avô. Uma coisa terribilis. A mesa saltava e batia com força no chão. Pelo sim pelo não, não desse algum móvel velho da nossa velha casa em estalar com mais entusiasmo do que o habitual, perguntava. Seráfica por fora cheiinha de medo por dentro. Depois houve aquela vez quando a minha avó teve uma visita de cerimónia. Pus-me de olhos de espreitar o além, sem piscar. Direita como um fuso. Mas antes de ficar tesa como uma tábua, tal como a senhora do filme inspirei e… cheira-me a rosas, alguém morreu nesta sala. Depois os faróis dos olhos nos máximos e está aí algum espírito que se queira manifestar. Os adultos são muito impressionáveis. A minha avó, azarucho do caneco, não era. Zás, castigo daqueles a sério. Ai, se calhar é por isso que não se dignou a aparecer. Ainda estou de castigo. Pois se estiver para se manifestar agora, não se manifeste, sou muito capaz de lhe fazer mal e sem recorrer ao outro mundo, não tenho só unhas, tenho caninos draculinos e odeio-o!
Por outro lado, também não gostaria que tivesse para aí um desgosto com esta Dear John letter - onde quer que esse aí seja, é decerto suficientemente mau só por não ser aqui, ao meu lado. Bem feita! E espero haja cobras aí. Enormes. Daquelas que comem pessoas inteiras. E piranhas no rio e tubarões no mar. Muito fumo de escapes. Cheiro de fábrica de papel e curtumes. E uma mulher feia e má que lhe dê umas chicotadas no lombinho – é melhor não que é capaz de gostar… um homem feio e mau. Fun! Enfim, não tenha tristezas. A verdade é que fez bem em não ter vindo: sou unlivable.
Não é que seja anti-social, gosto das pessoas. Muito. Tenho é pouca paciência para as aturar e prefiro estar em casa, ou onde quero estar, a fazer o que gosto, consigo, até a fazer o que devo, pasme-se.
E depois há a convivência no mesmíssimo espaço. Não é fácil, pensa o quê? Uma pessoa não é livre para fazer yoga na sala quando tem um marido esparramado no sofá a ver a bola – só vejo o Benfica, o resto é bola, detesto. E tomo conta da televisão. Adoro televisão desde que era miúda e lá em casa ninguém queria saber da maravilhosa televisão. A cores e tudo. Só desgostos. Ingratos. Se não fosse o meu avô a fazer-me uma vontadinha havia de ter sido a última criatura da minha geração a ter televisão a cores. 
Imagine lá o que seria a sua intelectualidade a querer ver uma mariquice qualquer na tv e eu com o NYCB Workout no ecrã, aplicada nos abdominals, legs and darts no tapete. Também preciso da televisão para ver as minhas séries que não me passou essa loucura em episódios quando acabou o Espaço 1999. E os mesmos filmes repetidos. Já os sei cor como os Maias. Nenhum homem vê o My Fair Lady e Gigi. É verdade que também sei de cor o Padrinho I e II. E ninguém aguenta o Wong Kar Wai, redux, de empreitada – tenho estações de melancolia oriental, que quer que faça, aquilo assenta-me bem no silêncio de quando o gato me come a língua. Vejo desenhos animados.
Mais. Aposto que não anda de bicicleta. Porquê? Nunca vi numa bicicleta um homem que me apetecesse dar-lhe uma guinada e comê-lo de beijos. Ou, horror dos horrores alérgicos, é uma cat person. Atchim. Eu e os gatos não nos damos bem. Que comichão nos olhos. Eles gostam de mim e eu também gosto de mim. E a garganta? É que não se respira. E o Cão não suporta gatinis. É mais pequeno do que alguns deles. Xô gato, vai bye bye, vai.
Não sei fazer rotundas nem preencher impressos, não me governo em repartições. Não tenho medo do escuro e o ruído dá-me nervos de exterminador implacável. Tenho uma, como direi, ligeira mania das arrumações. Durmo no meio da cama.
Isto é tudo para seu bem. Sabe o que é pior do que isto? Viver com um escritor - no caso, escritora. Raça de egoístas. E ainda pior, viver com um escritor que seja poeta. Só se pensa em escrever. Ler. Escrever. Escrever melhor. Aprender a escrever. Corrigir o que se escreveu. Jogar tudo fora e começar do zero, sem erros, como se fosse possível nascer outra vez numa folha branca. E a necessidade de gastar horas inúteis, parecem segundos, escapam-se, a pensar na morte da bezerra, para só Deus saberá o quê. É uma obsessão. Todavia mau mesmo mau é nos períodos em que a obsessão passa: quando acaba de se escrever não interessa o quê, um poema ou um livro, um texto qualquer. Naquele momento em que não há o que dizer, não há o que fazer porque não se consegue ser: fica-se vazio como o Frankenstein à espera do coração, do cérebro, da tempestade que ligue tudo e dê sentido ao corpo, quero dizer, à vida. Ninguém quer casar com o Frankenstein.
E há a estética de fugir. O meu sonho de casa em estilo maison é a biblioteca da Bela e do Monstro, basta acrescentar-lhe uma cama, uma mesa de jantar, um ginasiozinho, tudo em um, e, desde que as portas abram para um jardim, mesmo micro, vá, um pátio com uma árvore e um bebedouro para pássaros… meu mundo bom. Vê como faz bem em estar missing in action? Quem é sua amiga?
Não gostaria, no entanto, que julgasse que sou volúvel, ou uma intransigente do piorio: se me pedir perdão, mil vezes perdão, por não se ter fascinado a ponto de surgir como uma aparição com a minha mais que perfeita manicure, não se fala mais disto.
Um beijo da sua, um tudo nadinha ambivalente, mulher. Ex-mulher. O que Deus quiser.
EV