10 de novembro de 2013

Sou tua

TERRA DE NINGUÉM EU TE PERTENÇO
Moisés logo à nascença estava condenado
estamos todos: quem és quem serás
porque és judeu ou nasceste na avenida de roma
ou nas colmeias de odivelas ou numa catacumba
qualquer do lado errado ou certo do rio
e morrerás se não for hoje amanhã será
Moisés logo à nascença foi salvo
fomos todos: devolvidos por milagre
à esperança das nossas mães
E como Moisés levamos quarenta anos a crescer
degrau a degrau estranhos numa terra estranha
no palácio do poder até que o instinto nos levanta
a mão e para não morrer o nosso sangue matamos
e assim mesmo a nossa própria carne nos nega
Não se pode viver e ser inocente descobrimos
isso e o nome da solidão em quarenta anos de deserto
A toda a nossa descendência filhos e obra insistimos em chamá-los
Gershom: estranho numa terra estranha
promessa de canaã cidadania de leite e mel
Ou só a repetição do verdadeiro nome do pai

ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:/ eu te pertenço, de Jorge de Sena in A Portugal