3 de novembro de 2013

Se te portas mal, vai haver terror, se te portas mal, tu vais sentir dor, vou ter de te dar e vais ter de levar pancadinhas de amor...

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - vi
AMO VOCÊS, MEU POVO
Liliane Marise é mais do que um fenómeno. Liliane Marise é também um facto. Um facto sustentado em Jeff Koons. Em Jeff Koons e no das caveiras, do bling e do formol, em Damien Hirst. Mesmo em Joana Vasconcelos. Liliane Marise é um facto fenomenal que nos sentimos autorizados a aplaudir por causa deles – para vaiar pedimos autorização a outros, ou pensa que caiu de uma nuvem, etéreo e sem passado? O problema é que só podemos aplaudir em bloco, assim como a esquerda a despeito das facadas, perdão, das diferenças internas: não se pode louvar um sem, quer se queira ou não queira, de alguma forma, louvar o outro. Ou vaiar. Contra mim falo que tenho uma implicância do piorio com senhor formol, acho uma piada maluca à Joana Vasconcelos, e entendo muito bem o Jeff Koons. Isto vem a propósito de quê? Olhe, da falta que me faz uma mala. Chique.

Não é apenas Liliane Marise quem quer uma mala chique como viu lá na boutique. Nem é só ela nem são só as meninas de bem que andam na Feira de Carcavelos - o próprio Marc Jacobs considerou a loucura das imitações, no caso com a Louis Vuitton que havia revolucionado, uma homenagem, afinal criara objectos de desejo e amplificara o desejo. E a marca. Quem quer a mala chique somos nós. Todos. Mesmo os que dizemos, mala, não, filha, que não vai de viagem, que maçada, o que quer é uma carteira.
O objecto de desejo não varia assim tanto. Porque aspiramos todos, mais coisa menos coisa, ao mesmo, queremos todos, mais coisa menos coisa, o mesmo. E queremos o quê? O que nos dá poder para ser e ter. Não interessa se é um cargo público, uma empresa ou uma biblioteca, ou um guru. Quer um bom exemplo?
A coluna de Henrique Raposo, ontem, no Expresso. Sócrates quis uma mala chique. Fez mal? Não, fez bem. Uma carteira em condições, uma vuittonzinha, mesmo pequenina, a papillonzinha, passa de mãe para filha em perfeito estado de conservação ainda que tenha muito uso. Porquê? São boas. Boa pele. Trabalho bem feito, artesanal. E a estética ainda que vá de modas é suficientemente inteligente para ancorar o futuro numa base conservadora, logo, vai de modas mas não passa de moda, inventa moda. Sócrates queria uma mala chique. As tias de Cascais tinham a mala e não lha queriam dar. Ele gritou-lhes, não há melhor a quem fique! Contudo, há que compreender as tias: quem é que no seu juízo perfeito dá o que quer para si? Então que fez Sócrates? Foi à feira com a Liliane Marise. E quem nunca foi que jogue a primeira mala. Vá, carteira.
Queremos todos o melhor, todavia, criar, fazer, construir valor, exige trabalho e desenvolvimento moral. Quando chega a altura da verdade, tenha ou não tenha alça como nem parece que é falsa, lá vamos à Feira de Carcavelos: dar emprego a um estranho competente? Qualquer estranho é preterido por qualquer conhecido que pertença à mesma paisagem social, desconhecido que pertença, ou, em último caso, promova essa paisagem.
Este não é um mal português por muito que em Portugal e em Itália assuma as proporções que o índice de corrupção ilustra. Este é um mal visível nas grandes empresas europeias que se portam como as casas reais europeias - e como a máfia. O modelo é familiar e de alianças familiares. Mesmo no norte europeu, limpo e luterano, de igrejas minimalistas das paredes à prática económico-religiosa, é familiar. Só não é corrupta. Dir-me-á que não, as casas reais aprenderam o negócio com o Mónaco e viraram-se para a plebe que as salvará da guilhotina e que, como o movimento é reproduzido de cima para baixo tal como da loja para a feira, estamos salvos. Não estamos.
Basta uma gota de tinta na água: o que se passa na política, acontece nas empresas, dá-se da cultura aos media, e na vida social. Não estamos a gostar dos resultados, pois não? Azarucho, se te portas mal, vai haver terror, se te portas mal, tu vais sentir dor, vou ter de te dar e vais ter levar pancadinhas de amor. 

Ai...