A literatura não pode ser ensinada. Ensinar seja o que for é apresentar um instrumental adequado e explicar a maneira de uma pessoa tirar proveito dele. Daí resulta que se ensina a escrever estudos sobre literatura, e estudos sobre os estudos de literatura, indefinidamente; ou ainda se ensina a ensinar literatura.
Jorge de Sena in O REINO DA ESTUPIDEZ
O REINO DA ESTUPIDEZ
- ATÉ COM RIMAS BEBÉS -
v
PARA SER FELIZ
- ATÉ COM RIMAS BEBÉS -
v
PARA SER FELIZ
Os intelectuais não gostam de felicidade,
de gente feliz, tal substantivo não querem,
eles, tão adverbialmente contra o adjectivo,
à substantiva vida, dizem-lhe não. Porquê?
Porque engoliram o dicionário de sinónimos,
subiu-lhes o palavreado à cabeça e regurgitam
litterasputas: lá, felicidade é ventura, sorte, êxito
e êxtase.
Ora, não se pode ser um intelectual de êxito
montado na ventura -
na desventura ainda se vai ao êxtase.
Apesar de ventura ser um tudo nada passé,
proibido francesismo, galo do cismo do caraças,
não há abat-jours com neurónio, só quebra luzes,
mas se for a filha do Ventura
pós-modernamente montada, logo, coisa de nada, marcha.
Sendo feliz, estou, portanto, lixada,
da selecção gramatical à semântica contextual
hão-de faltar-me, pelo menos, a sombria consciência
social, o bom gosto e o café relacional: queres onde,
na tua revista ou no meu jornal?
Felicidade é coisa de bicho. Tem prazer. Sofre a dor.
Arrumam-se livros de tédio nas horas sem remédio.
Ri-se, chora-se. Cala-se tanto.
Come-se muito silêncio à frente da solidão para ser feliz:
felicidade é texto imprevisto, frase perfeita. Vida. Cliché de
meu amor, diz, minha querida.
de gente feliz, tal substantivo não querem,
eles, tão adverbialmente contra o adjectivo,
à substantiva vida, dizem-lhe não. Porquê?
Porque engoliram o dicionário de sinónimos,
subiu-lhes o palavreado à cabeça e regurgitam
litterasputas: lá, felicidade é ventura, sorte, êxito
e êxtase.
Ora, não se pode ser um intelectual de êxito
montado na ventura -
na desventura ainda se vai ao êxtase.
Apesar de ventura ser um tudo nada passé,
proibido francesismo, galo do cismo do caraças,
não há abat-jours com neurónio, só quebra luzes,
mas se for a filha do Ventura
pós-modernamente montada, logo, coisa de nada, marcha.
Sendo feliz, estou, portanto, lixada,
da selecção gramatical à semântica contextual
hão-de faltar-me, pelo menos, a sombria consciência
social, o bom gosto e o café relacional: queres onde,
na tua revista ou no meu jornal?
Felicidade é coisa de bicho. Tem prazer. Sofre a dor.
Arrumam-se livros de tédio nas horas sem remédio.
Ri-se, chora-se. Cala-se tanto.
Come-se muito silêncio à frente da solidão para ser feliz:
felicidade é texto imprevisto, frase perfeita. Vida. Cliché de
meu amor, diz, minha querida.