11 de outubro de 2013

Faz miau ou levas tau-tau...

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - iii
MILEY, MIAU E BABY PORNO
A diferença entre arte e pornografia é a que vai de O Amante de Lady Chatterley a Garganta Funda. Simplifiquemos: a diferença entre saborear um belo vinho tinto ou beber três shots de um líquido fluorescente para ficar marado.
Pensemos numa personagem. Em Breakfast at Tiffany´s, a linda Holly Golightly vivia, de facto, com leveza ou era prostituta? Holly é ambígua. É uma boa menina que dorme com quem quer, quando quer. E no entanto é uma acompanhante que é preciso presentear. Espere lá, presentear daquela forma é ou não é pagamento? Bem, depende: se ela for a sua própria carreira é investimento no serviço pretendido e a necessária retribuição pelo mesmo. Enfim, o que gostava de reforçar é a ambiguidade de Holly que Capote concebeu irrepreensivelmente: não está no centro nem na margem. Está no lugar que fica entre uma coisa e outra, no lugar onde num mundo mais estratificado a oriente e ocidente se arrumariam gueixas e cortesãs. Mas esse mundo já não existia então. E no mundo que existia o que havia? As esposas, as amantes, as prostitutas. E a nova mulher: as hollys.
As hollys de hoje, meio século passado desde a original, já não são ambíguas: são o estado natural da mulher antes de ter qualquer outro estado e entre estados. Sim, não se ofenda na sua honrazinha lá porque não recebe uma pulseira de diamantes.
Os homens não oferecem pulseiras de diamantes, rosas, nem fazem convites para jantar ou para ir ao cinema, nem coisa alguma a mulher alguma, nem à santa da mãe deles: afirmam: estou aqui e quero que me queiras - seja com os diamantes, as rosas, o restaurante ou o filme. Mal comparado é como a minha cadela, de quando era pequenina, fazia. De manhã, muito cedo, deixava no lado de fora da porta da cozinha fechada a prova da sua força, do seu sucesso, da sua dedicação: tanto podia ser um rato como um gato. Mortos e bem mortos com um mínimo de estrago: troféus quase perfeitos de mímica vitalidade. E ficava ali, até que a minha avó chegasse. Ai de quem tocasse no presente. E depois de ouvir, linda cadela, abanava o rabo e ia à vida dela: o dia estava ganho: a sua posição garantida, casa, cama, comida.
Isto para chegar onde? Conto tudo. Mas antes um quase nadinha.
A pop, a cultura pop e nela a música pop, não é alta cultura, o patamar pré-erudição, a grande arte. Não chega a ser O Amante de Lady Chatterley. Não chega a ser um bom vinho tinto. Porém, não é de certeza absoluta A Garganta Funda. Os três shots. A pop é a Holly em 1961. O lugar ambíguo e a ponte de ligação onde o trânsito entre religião/arte/civilização e violência/pornografia/natureza se faz visível - sim, visível, porque existir, existe sempre, contudo, a partir de um elevado nível de competência, sofisticação, as dobradiças nem se percebem.
Agora, sim, conto tudo.
Miley Cyrus nos MTV Awards, e todo o ruído que se produziu em volta da sua actuação vestida de despida em latex cor de nu e a encenar uma resposta simétrica ao videoclip de Robin Thicke, quando lhe diz estás domesticado, vou libertar-te, vá, com uns tau-taus, repete precisamente o que ele diz às meninas vestidas de nuas do videoclip dele, entre outras delicadezas. E fá-lo de língua à solta e cornichos de diabo, a tentar abanar o rabo branco e extra-small com o ritmo afro-latino. Nem com todo este aparato há uma vírgula de dominação da mulher sobre o homem. E isto é trigo miúdo comparado com que verdadeiramente interessa - e lamento muito decepcionar de uma só vez a ortodoxia feminista e multiculturalista e cristã e tal e o que mais venha.
A questão não é a encenação da prostituta. Não há ali nenhuma prostituta, nem cortesã. Nem uma Hollyzinha para amostra. Nem a questão são os MTV Awards e o que neles se passou. A questão é a banalização levada a palco e ao YouTube de milhões de um fenómeno contemporâneo. Qual?
Basta ver o videoclip de Miley Cyrus, Wrecking Ball ou We Can´t Stop, e o de Robin Thicke, Blurred Lines, da mesma realizadora, Diane Martel, para perceber o quão previsível o espectáculo seria e qual é o caminho da mega-pop-urbana, americana, branca e de raiz anglo-saxónica, e a da sua prima branca de neve europeia e protestante.
Não há cultura pop, há o esvaziamento da cultura pop - um fenómeno normal quando não há cultura erótica. Não é eroticamente credível porque as referências são as da pornografia. Não é pornografia. Todavia é. Ora, quem quer deixar de ser conotada com a Disney, não deve fazer baby-porno.