14 de outubro de 2013

Fanny e Francisco: a calamidade moderna


CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - iv
O TRIUNFO DO SUINICULTOR
Quem diz que não há alta cultura e baixa cultura, mente. Tanto quanto mente quem diz que não há uma sociedade de classes, hierarquizada, a despeito da maior ou menor mobilidade social. Sim, há uma classe alta e há uma classe baixa. Entre umas e outras há, ou melhor, na gradação de umas a outras passamos pela cultura popular e pelas diferentes paisagens da classe média. Ora, interessante é verificar como a cultura serve às classes não apenas através da sua produção e dos seus símbolos mas, e essencialmente, para o entendimento de quem somos, do mundo que estamos a criar. Antes, porém, impõe-se uma perguntazinha de nada: afinal, o que raio é a cultura?
O cânone oferece-nos muitas e sofisticadas definições adequadas à área de estudo a que pertencem e bastante sujeitas ao ar do tempo, ao clima político. Vamos simplificar. Boa?
E se usarmos um conceito mais atemporal e económico que nos sirva para falar de há montes de anos atrás e do tempo dos nossos bisavós e de hoje? Parece-lhe bem? A mim também.
A cultura é a expressão da arte. Nenhum santo caiu do altar, pois não? E assim podemos ter cultura literária, musical, plástica… assim podemos entrar pela porta do ballet clássico e ao sair do teatro dar de caras com a mais elevada arte urbana grafitada ou dançada em plena rua, sustentada apenas nos suportes estéticos e técnicos que nos reflectem no que manifestamos e aspiramos a manifestar. São critérios tão válidos quanto quaisquer outros, ou não?
Claro, há aquela questão… nos dias críticos que correm vale a pena perder cinco minutos com isto? Sim, vale. É com isto que se fazem dias menos entroikados. É aqui que enriquecemos porque aprendemos juntos quem somos, quem queremos ser a despeito do que nos dizem que queremos ser. E quem podemos ser. Se acreditou naquela mentira que lhe contaram: uma só pessoa não consegue fazer a diferença, desacredite. Basta uma pessoa para fazer a diferença.
Isto para chegar onde? Olhe, ao ecrã. De televisão. Ou melhor à reality tv. Ao reality show. Porquê? Porque é considerado cultura de massas, ração para porcos, sendo que os porcos são o público e quem engorda é o suinicultor.  E se de facto é assim, como, porquê?
A verdade é que, quase sempre, o suinicultor, aquele que cria/cultiva porcos, no caso, aquele que faz cultura para porcos, teve não só acesso à educação como, e através dela, ao gosto. Sim, não podemos fingir que gostos não se discutem. E o interesse do suinicultor, não é o porco. Nem o entretenimento do porco. É quanto rende um porco. Repare, acesso à educação e ao gosto não é um livre passe para o acesso à moral. A moral funciona restritamente: primeiro a nossa família. Depois as famílias como a nossa, depois as outras e ao fundo do fim arrumam-se os mais diferentes de todos os nossos valores. Aquilo das minorias e tal. Não tenha ilusões por muito que conheça felizes excepções. Este é o nosso modo de funcionamento. Animal. Por isso a civilização é o fundamento da moral, e nada, nunca, será tanto do nosso interesse como o desenvolvimento moral, logo, da civilização. Mas para isso, meus ricos filhos, temos de olhar e ver. Mesmo a reality tv.
Quando a televisão nos apresenta um reality show está a seduzir o voyeur em nós. E este voyeur sempre existiu. Sempre existirá. Espreitamos. Nas páginas dos jornais do tempos dos nossos avós havia a coluna social que era religiosamente seguida, quem casou, onde, com quem, as fotografias que faziam moda, quem morreu e onde foi a enterrar. Agora as revistas ditas cor-de-rosa, com mais latitude, isto é, da riqueza mais pequena ou miséria dourada ao puro miserabilismo, conforme o público a que se destinam, ocuparam e expandiram essa página. Na literatura sempre se publicou correspondência íntima – e até correspondência para ser publicada. Há um subgénero que lhe é dedicado. Na pintura sempre se fizeram retratos até que se chegou ao retrato de rua em meia hora: escondemo-nos e mostramo-nos. Espreitamos. Somos espreitados.
Voltemos ao reality show que é a coluna social em três dimensões mais a intimidade de dois impressa em pixels. Qual é a grande diferença entre a publicação da Historia Calamitatum, o texto confessional do século xii onde Abelardo conta as suas desventuras mais as cartas de Heloísa, texto que se lê avidamente, e o não-romance entre a Fanny do último Big Brother Vip com o musculado Francisco? Há em ambos paixão, escândalo social, intriga. A diferença é qualitativa. Só qualitativa. E isso é tudo. Se desnatar, portanto, se retirar toda a riqueza à Historia Calamitatum, e se olhar para as semelhanças que tem com a relação entre Fanny e Francisco, o que lhe sobra é um amor que após uma série de peripécias deixou de ser correspondido. Porém, ler um, não é o mesmo que assistir a outro. Mas quem leu um, sabe conceber as circunstâncias onde se dê outro. Porquê?
Quem cria porcos sabe construir chiqueiros.