27 de outubro de 2013

A poesia do movimento

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - v
SERVIÇO PÚBLICO
Fokine, numa carta de 1904 dirigida aos directores do Mariinsky, escreveu: a dança tem com o gesto a relação que a poesia tem com a prosa. A dança é a poesia do movimento. E ele queria que esse movimento partisse a uniformidade sintáctica que o sujeitava, despisse o fato de mimo, e fosse único e adequado, sempre reinventado ao que pretendia expressar e parte integrante da música e da realidade encenada. Em cada peça. E o resto faz parte da história da dança. Está a leste? Não vem mal ao mundo, isto não é um código secreto.
Comer, cantar, dançar em conjunto é da nossa natureza. Basta ver que ainda hoje, transculturalmente, celebramos assim os momentos que sinalizam passagens na nossa vida e nos nossos calendários religioso ou laico. E também é deste modo, em pequenina escala, que se reúnem família, amantes, amigos. E é em conjunto que nos despedimos da vida dos que amamos. Precisamos de pertencer. A algo. Ser de alguém.
Esta não é uma característica apenas humana. Ou apenas dos mamíferos. Os pássaros fazem-no e nascem de um ovo.
Claro que não vou dar-lhe uma seca. Já basta o habitual preconceito com o ballet. Ou comentário do costume diante da dança contemporânea: aquela macacada também eu fazia. Não quero acrescentar a isso. Prefiro falar-lhe daquela poesia através de Pina Bausch. Ou melhor. Uma coisa ainda mais pequenina. O filme Pina, de Wim Wenders, que a RTP num acto de verdadeiro serviço público passou na segunda-feira passada - começou quase à uma da manhã... pronto, vá, é cedo que começa o dia. Merci RTP.
Que tem a alemã Pina a ver com o russo Fokine? Tem Kurt Jooss. Da mesma forma que Fokine, Jooss, mestre de Pina Bausch e co-fundador da Escola Folkwag, em Essen, escola de teatro, música e dança onde ela estudou, entendia que a dança não era uma disciplina, mas, olhe, uma interdisciplina – não se choque, às vezes digo coisas destas para simplificar, porque me lembro do tio Einstein. Não foi ele que afirmou que qualquer pessoa muito inteligente pode tornar uma ideia complexa, mas só uma pessoa verdadeiramente inteligente a sabe simplificar? Bem vê, não sou modesta, todavia não é por mal, é porque a beleza não deve estar fechada a sete chaves e ser privilégio de alguns. Adiante.
Jooss não tinha a formação técnica de Fokine, não era um bailarino com essa força. E não teria a cultura musical e artística de Fokine. Para além disso, mais de uma geração os separava e todo um passado de diferenças.
Fokine veio da Rússia Imperial para a Revolução Russa e depois de encontrar Diaghilev e deslumbrar Paris com os Ballets Russes, levantou o novo paradigma da dança clássica do século xx que reverberou nas artes. Ainda hoje o ouro e o marfim que nos sobram são dessa rota do pensamento. Não nos esqueçamos que Fokine colaborou na criação da cultura americana: que bailarinos lá havia? Nenhuns. Mas havia coristas. Em Nova Iorque foi a para a Broadway e de lá contaminou o cinema que haveria de o mandar pastar. Ou de onde é que pensava que tinham vindo as meninas em pontas e penas nas Ziegfeld Follies? E porque não havia bailarinos teve de criar o American Ballet – escola incluída. E as pessoas iam ver. Chegaram a ser afastadas pela polícia aos milhares. Histeria e notícia de jornal qual Justin Biber. Queriam ver. Está-nos na massa do sangue, a dança, nem que seja um baile de cadeira, na assistência.
Vê como o menino, a Rosa, tem aqui nesta peça e só nela, todo o movimento de braços feito de redondas pétalas para uma corola que se abre num sonho? Já agradeceu ao tio Fokine? Não digo sempre que os homens são umas flores?
O outro, Jooss, vinte e um anos mais novo, logo com menos regras para quebrar, estava em trânsito também, porém entre diferentes impérios: do Austro-Húngaro para o Terceiro Reich. É natural, portanto, que a dança numa Europa central sucessivamente pulverizada e por isso dominada pelo expressionismo, se tenha divorciado pelo litigioso do ballet clássico. Então que fez Jooss? Situou-se em palco e ocupou-o inteiramente: entre a expressão dramática e o texto trazidos do teatro, a música, a concepção de movimento corporal e de movimento no espaço de Laban e a memória residual do ballet clássico mostrou-nos as nossas próprias entranhas. Quando rimos e quando choramos e quando somos indiferentes. E o efeito do mundo em nós.
Aos 02:43 começa A Mesa Verde, de Kurt Jooss. PUM!
Mal comparado: se Fokine tivesse feito o ballet dos peixes, ó escamas de prata, a barbatana rápida, a espinha flexível, o escuro frio do fundo do mar, o cristal da espuma no som das ondas, e o fio de luz, a plena luz no salto à superfície, isto é, o palco, aquário, seria a interpretação ilustrada pela dança daquele pedaço de mar e o seu lugar no mar todo. Se Jooss tivesse feito o ballet dos peixes, mostrava-os vivos e a serem amanhados e comidos. Ups. Os senhores doutores do ballet não vão gostar disto.
Diabo de deriva…
Pina não excluiu as sobras da herança malquerida da dança clássica. Escolheu dela as partes que quis como as crianças fazem quando pedem no café uma torrada e preferem a parte do meio e trocam connosco os cantos por mais pedacinhos do meio. E fez coisas belas e terríveis, em simultâneo, enquanto nos expunha, não as entranhas, mas o coração.
O filme de Wim Wenders é uma homenagem. São depoimentos dos bailarinos intercalados com excertos das peças de dança que Pina Bausch coreografou. Em cena no palco e em cena na vida, quero dizer, na rua, em Wuppertal onde viveu e trabalhou. De uma circularidade clássica, começa como acaba, com a Marcha das Estações, quatro movimentos tão simples para as representar, gestos tão fáceis numa sequência tão bebé que a fazemos juntos do sofá da sala. Mas entre o princípio e o fim espreitamos. E vemo-nos.
Como todas as homenagens sentidas é exagerada, acrítica, comovente. É fatia do meio da torradinha. É tudo o que uma homenagem deve ser. É uma declaração de amor. É serviço público.