29 de outubro de 2013

Não faz meu coração fronteira com o teu?

NÃO FAZ MEU CORAÇÃO FRONTEIRA COM O TEU?
O meu amor veio ter comigo num sonho.
É daí que o conheço. Não faz mal.
Também profetas, poetas,
filósofos, e até mesmo Deus que fala
pela voz das ervas e as arde são verbo de sonhos
e cria-se o mundo. A lâmpada de Edison
o que é se não for um sonho?
O meu amor só vem ter comigo enquanto sonho.
Não faz mal. Nunca me disse uma palavra,
mas dá-me a mão.
Ele que durante o dia fecha os olhos para não me ver
esta noite beijou-me  a boca três vezes -
o teu sangue não pára de dar cor às minha faces.
O meu amor vem ter comigo no meu sono:
quando adormece, volta para casa.
Não faz meu coração fronteira com o teu e O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces, são versos do poema Reconciliação, das Baladas Hebraicas, de Else Lasker-Schüler, traduzidas para o português por João Barrento e publicadas pela A&A.

27 de outubro de 2013

A poesia do movimento

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - v
SERVIÇO PÚBLICO
Fokine, numa carta de 1904 dirigida aos directores do Mariinsky, escreveu: a dança tem com o gesto a relação que a poesia tem com a prosa. A dança é a poesia do movimento. E ele queria que esse movimento partisse a uniformidade sintáctica que o sujeitava, despisse o fato de mimo, e fosse único e adequado, sempre reinventado ao que pretendia expressar e parte integrante da música e da realidade encenada. Em cada peça. E o resto faz parte da história da dança. Está a leste? Não vem mal ao mundo, isto não é um código secreto.
Comer, cantar, dançar em conjunto é da nossa natureza. Basta ver que ainda hoje, transculturalmente, celebramos assim os momentos que sinalizam passagens na nossa vida e nos nossos calendários religioso ou laico. E também é deste modo, em pequenina escala, que se reúnem família, amantes, amigos. E é em conjunto que nos despedimos da vida dos que amamos. Precisamos de pertencer. A algo. Ser de alguém.
Esta não é uma característica apenas humana. Ou apenas dos mamíferos. Os pássaros fazem-no e nascem de um ovo.
Claro que não vou dar-lhe uma seca. Já basta o habitual preconceito com o ballet. Ou comentário do costume diante da dança contemporânea: aquela macacada também eu fazia. Não quero acrescentar a isso. Prefiro falar-lhe daquela poesia através de Pina Bausch. Ou melhor. Uma coisa ainda mais pequenina. O filme Pina, de Wim Wenders, que a RTP num acto de verdadeiro serviço público passou na segunda-feira passada - começou quase à uma da manhã... pronto, vá, é cedo que começa o dia. Merci RTP.
Que tem a alemã Pina a ver com o russo Fokine? Tem Kurt Jooss. Da mesma forma que Fokine, Jooss, mestre de Pina Bausch e co-fundador da Escola Folkwag, em Essen, escola de teatro, música e dança onde ela estudou, entendia que a dança não era uma disciplina, mas, olhe, uma interdisciplina – não se choque, às vezes digo coisas destas para simplificar, porque me lembro do tio Einstein. Não foi ele que afirmou que qualquer pessoa muito inteligente pode tornar uma ideia complexa, mas só uma pessoa verdadeiramente inteligente a sabe simplificar? Bem vê, não sou modesta, todavia não é por mal, é porque a beleza não deve estar fechada a sete chaves e ser privilégio de alguns. Adiante.
Jooss não tinha a formação técnica de Fokine, não era um bailarino com essa força. E não teria a cultura musical e artística de Fokine. Para além disso, mais de uma geração os separava e todo um passado de diferenças.
Fokine veio da Rússia Imperial para a Revolução Russa e depois de encontrar Diaghilev e deslumbrar Paris com os Ballets Russes, levantou o novo paradigma da dança clássica do século xx que reverberou nas artes. Ainda hoje o ouro e o marfim que nos sobram são dessa rota do pensamento. Não nos esqueçamos que Fokine colaborou na criação da cultura americana: que bailarinos lá havia? Nenhuns. Mas havia coristas. Em Nova Iorque foi a para a Broadway e de lá contaminou o cinema que haveria de o mandar pastar. Ou de onde é que pensava que tinham vindo as meninas em pontas e penas nas Ziegfeld Follies? E porque não havia bailarinos teve de criar o American Ballet – escola incluída. E as pessoas iam ver. Chegaram a ser afastadas pela polícia aos milhares. Histeria e notícia de jornal qual Justin Biber. Queriam ver. Está-nos na massa do sangue, a dança, nem que seja um baile de cadeira, na assistência.
Vê como o menino, a Rosa, tem aqui nesta peça e só nela, todo o movimento de braços feito de redondas pétalas para uma corola que se abre num sonho? Já agradeceu ao tio Fokine? Não digo sempre que os homens são umas flores?
O outro, Jooss, vinte e um anos mais novo, logo com menos regras para quebrar, estava em trânsito também, porém entre diferentes impérios: do Austro-Húngaro para o Terceiro Reich. É natural, portanto, que a dança numa Europa central sucessivamente pulverizada e por isso dominada pelo expressionismo, se tenha divorciado pelo litigioso do ballet clássico. Então que fez Jooss? Situou-se em palco e ocupou-o inteiramente: entre a expressão dramática e o texto trazidos do teatro, a música, a concepção de movimento corporal e de movimento no espaço de Laban e a memória residual do ballet clássico mostrou-nos as nossas próprias entranhas. Quando rimos e quando choramos e quando somos indiferentes. E o efeito do mundo em nós.
Aos 02:43 começa A Mesa Verde, de Kurt Jooss. PUM!
Mal comparado: se Fokine tivesse feito o ballet dos peixes, ó escamas de prata, a barbatana rápida, a espinha flexível, o escuro frio do fundo do mar, o cristal da espuma no som das ondas, e o fio de luz, a plena luz no salto à superfície, isto é, o palco, aquário, seria a interpretação ilustrada pela dança daquele pedaço de mar e o seu lugar no mar todo. Se Jooss tivesse feito o ballet dos peixes, mostrava-os vivos e a serem amanhados e comidos. Ups. Os senhores doutores do ballet não vão gostar disto.
Diabo de deriva…
Pina não excluiu as sobras da herança malquerida da dança clássica. Escolheu dela as partes que quis como as crianças fazem quando pedem no café uma torrada e preferem a parte do meio e trocam connosco os cantos por mais pedacinhos do meio. E fez coisas belas e terríveis, em simultâneo, enquanto nos expunha, não as entranhas, mas o coração.
O filme de Wim Wenders é uma homenagem. São depoimentos dos bailarinos intercalados com excertos das peças de dança que Pina Bausch coreografou. Em cena no palco e em cena na vida, quero dizer, na rua, em Wuppertal onde viveu e trabalhou. De uma circularidade clássica, começa como acaba, com a Marcha das Estações, quatro movimentos tão simples para as representar, gestos tão fáceis numa sequência tão bebé que a fazemos juntos do sofá da sala. Mas entre o princípio e o fim espreitamos. E vemo-nos.
Como todas as homenagens sentidas é exagerada, acrítica, comovente. É fatia do meio da torradinha. É tudo o que uma homenagem deve ser. É uma declaração de amor. É serviço público.

26 de outubro de 2013

Somos, não somos?

Thich Quang Duc por Mal­colm Browne

No outro dia, no Jornal de Negócios vinha uma entrevista ao nosso Bidarra e uma recensão ao seu livro Rolando Teixo. Mais coisa menos coisa. Cliquei para ler e zás, sai-me uma moralidade de bolinho da sorte, porém azarucho, algo do género: o jornalismo de qualidade paga-se lailailailai, portanto, se quiser ler... tudo em termos polidos, mas estava lá o dedinho indicador espetado.
É verdade. O bom jornalismo paga-se. E o mau jornalismo também. E o assim-assim. Acho bem, todos têm despesas. Pagar é o verbo. De igual forma, encontram-se textos muito bons, razoáveis e abaixo dos mínimos gratuitamente e mesmo na fila do desemprego e com as mesmas despesas.
É dos bons e escreve de graça? É fiel e o seu marido põe-lhe os cornos? É jovem, tem tudo para fazer e vontade e está preparado e ficou irremediavelmente doente? Isto para dizer o quê?
A despeito da ordem, há o caos. E é preciso aceitar ambos para não nos passarmos dos carretos. A questão não é de merecimento, de justiça - também Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela. O mundo não é a preto ou branco. Nem nós. Somos a mão esquerda e a mão direita. A alegria e a tristeza. Somos o bem e o mal. Para sermos, somos ambos, sempre. Por isso, a questão é: diante do caos, favorecer a ordem. Fazer civilização. E o resto, o que nos cabe, olhe, é o imponderável. Quer ver?
Quando durante a guerra do Vietname tranquilos monges budistas se imolavam pelo fogo, a ocidente tal era tido por um acto de desespero, fanatismo. No mesmo ocidente que há quase dois mil anos ajoelhava diante da cruz onde Cristo se deixou sacrificar ignorava-se o elemento comum e super-evidente entre o acto desses monges e o de Cristo: ninguém se estava a suicidar apesar da percepção do suicídio. Oferecer a vida é uma expressão extremada de um imenso amor para configurar uma língua para todas as línguas numa Babel. Uma língua inequívoca e usando o mais sagrado dos valores como alfabeto. A perplexidade, ficarmos pasmados, interrompe-nos o pensamento, pára-nos a acção, permite que nos interroguemos depois. E não podemos dessensibilizarmo-nos ou tornamo-nos predadores dos filhos dos outros.
Há na imolação pelo fogo, na cruz lenta e cheia de violências a encarnação de um sofrimento intolerável. Aceitá-lo voluntariamente é dizer muito alto, tão alto que se faz uma religião, tão alto que as fotografias dos monges correram o mundo: estamos a sofrer pelo sofrimento dos que sofrem e este é o meu amor para estancar essa dor, para que a reconciliação se faça; sou impotente, dou a minha vida, quem tem o poder, faça a reconciliação. Cristo fez o mesmo. Entregou-nos o seu corpo que ainda tomamos, carne e sangue no memorial eucarístico para revogar a velha lei, para proclamar: amai-vos como eu vos amo. É amor à dimensão da cruz, sacrificial. Este eu morro para que tu vivas, para que te reconheçam a existência e o sofrimento nesta hora do indivíduo parece-nos uma aberração. Sabemos que não é. Os pais dariam se pudessem a vida pelos filhos que a necessitam.
Voltemos à imprensa. Na Visão desta semana há bons e maus textos – aliás, a Visão está organizada como o cosmos: caos e ordem. Escreve-se rotativamente, ana-ni-ana-não ficas tu e eu não, então há sempre gente que escreve bem ao lado de gente que escreve francamente mal. Poderia ser a melhor revista de língua portuguesa com pouco esforço, juntando muitos bons todas as semanas e o mais que lhe falta – mas para quê excelências? Enfim, há bons e maus textos, o que não há são textos grátis. Comprei-a, portanto. Porquê?
Porque José Gil escreveu Patologia de um País. E é um belo texto para o retrato justo de um país construído a partir do OE para 2014. Merece ser pago. O problema é que também merece ser lido por quem não o pode pagar. E a questão nele levantada, usando todavia um nível de discurso dinâmico, é simples, é nem mais nem menos do que a questão do sofrimento de um país devastado, não pela guerra, todavia ameaçado pela miséria e pela atomização, e pela falta de capacidade para lhes responder com lucidez, competência, ou pelo menos esperança.
Portugal sofre.
Não diga que o sofrimento é dos trinta e dois mil homens e mulheres que este ano tentaram entrar na Europa vindos do Norte de África, da Síria e perto ou longe, correndo risco de vida no Mediterrâneo onde agora os olhos estão postos. Nem que sofrimento é nos países emergentes onde as contradições espelham a natureza bestial de que também somos feitos.
Não é a essa besta que também somos que precisamos de dar voz. E como bem nota José Gil, ela, agora, debaixo destas condições que dia a dia se agudizam está de braço dado connosco: muitas pessoas lutam para se conservar, para não endoidecer ou desatar aos tiros sobre a multidão (…) A passagem ao acto deve circular fantasmaticamente em inúmeras cabeças, com o self meio esburacado e estilhaçado.
A realidade está a ser substituída pelo absurdo. O caos ganha terreno.
É à compaixão, ou se preferir porque nos é mais fácil, ao amor que precisamos de dar voz. Sem fogo. Sem cruz.
Quando um amor nos magoa, porque se ama mais a si mesmo, porque tem medo de não ser amado na sua fraqueza ou porque não tem meios para nos amar melhor, faz-nos sofrer. E sofre também. Apetece tratá-lo de igual modo para que entenda na carne onde nenhuma explicação é precisa. Ou pelo menos castigá-lo, expulsá-lo do quarto. Ou fecharmo-nos no quarto para sofrermos sozinhos. Contudo a separação nada repara. E o silêncio, patogénico ou não, não aproxima dois amantes.
A responsabilidade, sim. Responsabilidade não é o peso da culpa. É o passo adiante que que diz estou aqui para nós.
Este foi o governo que escolhemos para nos representar, por actos ou por omissões.
E ainda que a realidade esteja a ser substituída pelo absurdo, não estamos sós. Tu tens-me a mim. E eu a ti. Temos de nos fazer presentes um no outro, uns nos outros onde somos competentes. É o amor que nos salva do sofrimento e nos devolve à alegria, e é o amor que constrói uma comunidade. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, não é apenas uma oração. É um modo de vida: fazer hoje. Se fizermos hoje, amanhã não nos faltará.
O governo, a economia, ou a imprensa, a arquitectura, o diabo a quatro, a forma como amamos, as artes, são valores de bandeira, quero dizer, são os símbolos da comunidade que construímos, das relações que estabelecemos. De quem somos. Não me digam que não somos mais do que isto.

Bonjour Mundo!

lailailai
this is what we do everyday lailailai
this section is just about warming up lailai
the more often you practice this exercises the easier lailailai
ready
start by breathing

17 de outubro de 2013

Shhh... é segredo!

Vá a correr à livraria! Ou não sabe que os segredos são como as cerejas?...

14 de outubro de 2013

Fanny e Francisco: a calamidade moderna


CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - iv
O TRIUNFO DO SUINICULTOR
Quem diz que não há alta cultura e baixa cultura, mente. Tanto quanto mente quem diz que não há uma sociedade de classes, hierarquizada, a despeito da maior ou menor mobilidade social. Sim, há uma classe alta e há uma classe baixa. Entre umas e outras há, ou melhor, na gradação de umas a outras passamos pela cultura popular e pelas diferentes paisagens da classe média. Ora, interessante é verificar como a cultura serve às classes não apenas através da sua produção e dos seus símbolos mas, e essencialmente, para o entendimento de quem somos, do mundo que estamos a criar. Antes, porém, impõe-se uma perguntazinha de nada: afinal, o que raio é a cultura?
O cânone oferece-nos muitas e sofisticadas definições adequadas à área de estudo a que pertencem e bastante sujeitas ao ar do tempo, ao clima político. Vamos simplificar. Boa?
E se usarmos um conceito mais atemporal e económico que nos sirva para falar de há montes de anos atrás e do tempo dos nossos bisavós e de hoje? Parece-lhe bem? A mim também.
A cultura é a expressão da arte. Nenhum santo caiu do altar, pois não? E assim podemos ter cultura literária, musical, plástica… assim podemos entrar pela porta do ballet clássico e ao sair do teatro dar de caras com a mais elevada arte urbana grafitada ou dançada em plena rua, sustentada apenas nos suportes estéticos e técnicos que nos reflectem no que manifestamos e aspiramos a manifestar. São critérios tão válidos quanto quaisquer outros, ou não?
Claro, há aquela questão… nos dias críticos que correm vale a pena perder cinco minutos com isto? Sim, vale. É com isto que se fazem dias menos entroikados. É aqui que enriquecemos porque aprendemos juntos quem somos, quem queremos ser a despeito do que nos dizem que queremos ser. E quem podemos ser. Se acreditou naquela mentira que lhe contaram: uma só pessoa não consegue fazer a diferença, desacredite. Basta uma pessoa para fazer a diferença.
Isto para chegar onde? Olhe, ao ecrã. De televisão. Ou melhor à reality tv. Ao reality show. Porquê? Porque é considerado cultura de massas, ração para porcos, sendo que os porcos são o público e quem engorda é o suinicultor.  E se de facto é assim, como, porquê?
A verdade é que, quase sempre, o suinicultor, aquele que cria/cultiva porcos, no caso, aquele que faz cultura para porcos, teve não só acesso à educação como, e através dela, ao gosto. Sim, não podemos fingir que gostos não se discutem. E o interesse do suinicultor, não é o porco. Nem o entretenimento do porco. É quanto rende um porco. Repare, acesso à educação e ao gosto não é um livre passe para o acesso à moral. A moral funciona restritamente: primeiro a nossa família. Depois as famílias como a nossa, depois as outras e ao fundo do fim arrumam-se os mais diferentes de todos os nossos valores. Aquilo das minorias e tal. Não tenha ilusões por muito que conheça felizes excepções. Este é o nosso modo de funcionamento. Animal. Por isso a civilização é o fundamento da moral, e nada, nunca, será tanto do nosso interesse como o desenvolvimento moral, logo, da civilização. Mas para isso, meus ricos filhos, temos de olhar e ver. Mesmo a reality tv.
Quando a televisão nos apresenta um reality show está a seduzir o voyeur em nós. E este voyeur sempre existiu. Sempre existirá. Espreitamos. Nas páginas dos jornais do tempos dos nossos avós havia a coluna social que era religiosamente seguida, quem casou, onde, com quem, as fotografias que faziam moda, quem morreu e onde foi a enterrar. Agora as revistas ditas cor-de-rosa, com mais latitude, isto é, da riqueza mais pequena ou miséria dourada ao puro miserabilismo, conforme o público a que se destinam, ocuparam e expandiram essa página. Na literatura sempre se publicou correspondência íntima – e até correspondência para ser publicada. Há um subgénero que lhe é dedicado. Na pintura sempre se fizeram retratos até que se chegou ao retrato de rua em meia hora: escondemo-nos e mostramo-nos. Espreitamos. Somos espreitados.
Voltemos ao reality show que é a coluna social em três dimensões mais a intimidade de dois impressa em pixels. Qual é a grande diferença entre a publicação da Historia Calamitatum, o texto confessional do século xii onde Abelardo conta as suas desventuras mais as cartas de Heloísa, texto que se lê avidamente, e o não-romance entre a Fanny do último Big Brother Vip com o musculado Francisco? Há em ambos paixão, escândalo social, intriga. A diferença é qualitativa. Só qualitativa. E isso é tudo. Se desnatar, portanto, se retirar toda a riqueza à Historia Calamitatum, e se olhar para as semelhanças que tem com a relação entre Fanny e Francisco, o que lhe sobra é um amor que após uma série de peripécias deixou de ser correspondido. Porém, ler um, não é o mesmo que assistir a outro. Mas quem leu um, sabe conceber as circunstâncias onde se dê outro. Porquê?
Quem cria porcos sabe construir chiqueiros.

Bonjour Mundo!

adijo adijo keridano kero la vida me l'amargates tu
lailailai
tu madre kuando te pario y te kito al mundokorason eja no te dio para amar segundokorason eja no te dio para amar segundoadijo adijo keridano kero la vida me l'amargates tulailailaiva bushka te otra amoraharva otras puertasaspera otra ardor ke para mi sos muerta
lailailai
adijo adijo kerida lailailai


12 de outubro de 2013

04. POESIA? TAMBÉM EU QUERIA...

POESIA? TAMBÉM EU QUERIA...
REDONDO FOCINHO
i
CÃO FLOR
Toda a flor tem quatro patas
tem tem tem
e o meu Cão também
Toda a flor tem ao centro um redondo focinho
e em volta pétalas de pêlo branquinho
Toda a flor tem quatro patas
tem tem tem
e o meu Cão também
ii
UNIVERSO CÃO
Tu és o Cão
Tu és o mar
Tu és o céu
Que me leva a passear
O mar é meu
É meu o céu
De trela mas é meu
O universo inteirinho
Redondo no teu focinho

Bonjour Mundo!

this bridge lailailai
if you just cross 
you can´t get lost
and this bridge
lailailai


11 de outubro de 2013

Faz miau ou levas tau-tau...

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - iii
MILEY, MIAU E BABY PORNO
A diferença entre arte e pornografia é a que vai de O Amante de Lady Chatterley a Garganta Funda. Simplifiquemos: a diferença entre saborear um belo vinho tinto ou beber três shots de um líquido fluorescente para ficar marado.
Pensemos numa personagem. Em Breakfast at Tiffany´s, a linda Holly Golightly vivia, de facto, com leveza ou era prostituta? Holly é ambígua. É uma boa menina que dorme com quem quer, quando quer. E no entanto é uma acompanhante que é preciso presentear. Espere lá, presentear daquela forma é ou não é pagamento? Bem, depende: se ela for a sua própria carreira é investimento no serviço pretendido e a necessária retribuição pelo mesmo. Enfim, o que gostava de reforçar é a ambiguidade de Holly que Capote concebeu irrepreensivelmente: não está no centro nem na margem. Está no lugar que fica entre uma coisa e outra, no lugar onde num mundo mais estratificado a oriente e ocidente se arrumariam gueixas e cortesãs. Mas esse mundo já não existia então. E no mundo que existia o que havia? As esposas, as amantes, as prostitutas. E a nova mulher: as hollys.
As hollys de hoje, meio século passado desde a original, já não são ambíguas: são o estado natural da mulher antes de ter qualquer outro estado e entre estados. Sim, não se ofenda na sua honrazinha lá porque não recebe uma pulseira de diamantes.
Os homens não oferecem pulseiras de diamantes, rosas, nem fazem convites para jantar ou para ir ao cinema, nem coisa alguma a mulher alguma, nem à santa da mãe deles: afirmam: estou aqui e quero que me queiras - seja com os diamantes, as rosas, o restaurante ou o filme. Mal comparado é como a minha cadela, de quando era pequenina, fazia. De manhã, muito cedo, deixava no lado de fora da porta da cozinha fechada a prova da sua força, do seu sucesso, da sua dedicação: tanto podia ser um rato como um gato. Mortos e bem mortos com um mínimo de estrago: troféus quase perfeitos de mímica vitalidade. E ficava ali, até que a minha avó chegasse. Ai de quem tocasse no presente. E depois de ouvir, linda cadela, abanava o rabo e ia à vida dela: o dia estava ganho: a sua posição garantida, casa, cama, comida.
Isto para chegar onde? Conto tudo. Mas antes um quase nadinha.
A pop, a cultura pop e nela a música pop, não é alta cultura, o patamar pré-erudição, a grande arte. Não chega a ser O Amante de Lady Chatterley. Não chega a ser um bom vinho tinto. Porém, não é de certeza absoluta A Garganta Funda. Os três shots. A pop é a Holly em 1961. O lugar ambíguo e a ponte de ligação onde o trânsito entre religião/arte/civilização e violência/pornografia/natureza se faz visível - sim, visível, porque existir, existe sempre, contudo, a partir de um elevado nível de competência, sofisticação, as dobradiças nem se percebem.
Agora, sim, conto tudo.
Miley Cyrus nos MTV Awards, e todo o ruído que se produziu em volta da sua actuação vestida de despida em latex cor de nu e a encenar uma resposta simétrica ao videoclip de Robin Thicke, quando lhe diz estás domesticado, vou libertar-te, vá, com uns tau-taus, repete precisamente o que ele diz às meninas vestidas de nuas do videoclip dele, entre outras delicadezas. E fá-lo de língua à solta e cornichos de diabo, a tentar abanar o rabo branco e extra-small com o ritmo afro-latino. Nem com todo este aparato há uma vírgula de dominação da mulher sobre o homem. E isto é trigo miúdo comparado com que verdadeiramente interessa - e lamento muito decepcionar de uma só vez a ortodoxia feminista e multiculturalista e cristã e tal e o que mais venha.
A questão não é a encenação da prostituta. Não há ali nenhuma prostituta, nem cortesã. Nem uma Hollyzinha para amostra. Nem a questão são os MTV Awards e o que neles se passou. A questão é a banalização levada a palco e ao YouTube de milhões de um fenómeno contemporâneo. Qual?
Basta ver o videoclip de Miley Cyrus, Wrecking Ball ou We Can´t Stop, e o de Robin Thicke, Blurred Lines, da mesma realizadora, Diane Martel, para perceber o quão previsível o espectáculo seria e qual é o caminho da mega-pop-urbana, americana, branca e de raiz anglo-saxónica, e a da sua prima branca de neve europeia e protestante.
Não há cultura pop, há o esvaziamento da cultura pop - um fenómeno normal quando não há cultura erótica. Não é eroticamente credível porque as referências são as da pornografia. Não é pornografia. Todavia é. Ora, quem quer deixar de ser conotada com a Disney, não deve fazer baby-porno.


Bonjour Mundo!

lailailai
lai lai lai
lailailai lailai lailai
lai lai lai lai lai lai lai lai
 

9 de outubro de 2013

Cozido à portuguesa, meus ricos filhos, não é cultura portuguesa

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - ii
A Ana Malhoa é a Miley Cyrus
Comentei: gostava de escrever sobre a Miley Cyrus. Aquela questão nos MTV Awards. Disseram-me: não vale a pena, não se passou cá, as pessoas não se interessam por causa da distância, sentem que não lhes diz respeito. Eles logo escreverão. É outro mundo, outra língua - e nós não temos estrelas globais na cultura pop, urbana. A erudição é um nicho, não entra nesta conversa. E tu escreves em português.
Tudo quanto me foi dito é verdade e sensato. E é mentira insensata. E quanto ao português, é a minha língua. Não quero escrever noutra - o que não falta são tradutores de primeira água se alguém em vez de ler os clássicos que deveria, fizer gosto em ler o que escrevo.
Porque é insensatez e mentira? Porque não há cultura portuguesa. Tenha calma. Explico-me. Nunca houve - se houvesse só nós a entendíamos pela sua especificidade. A nossa maior qualidade é essa, a da plasticidade integradora, seja ela navegante, imigrante ou mulata, a nossa vocação é o outro, o mais além é sempre melhor mesmo quando não. Todo o nosso provincianismo tem raiz cosmopolita. Hei-de voltar a isto.
Aponto apenas dois dos nossos grandes e mais conhecidos nomes da dita cultura portuguesa que sabiam não haver uma cultura portuguesa e agiram dentro desse conhecimento: Eça e Pessoa. Na mais alta pintura contemporânea passa-se o mesmo: Lucien Freud e Paula Rego falam a mesma língua. E não é a do cenário inglês ou português em que o pensamento, respectivamente, se lhes formou e a despeito da nacionalidade de Lucien Freud esmagar a visibilidade de Paula Rego apenas e só por nascimento.
Não há cultura portuguesa. Há a cultura ocidental, onde nos situamos, fortemente permeada pelo oriente de séculos e cujos traços ora foram integrados ora combatidos conforme os interesses comerciais. É preciso olhar para a cultura e vê-la como ela é na sua face perene tanto quanto nas linhas de rosto mais sujeitas aos efeitos do tempo.
A cultura pop é o jornal do dia. As notícias de hoje, o nada de amanhã. Lixo. Mas nesse fio contínuo das horas impressas está a história das ideias, dos costumes, da política. E também, aproximando muito o olhar, ao microscópio de uma notícia, pode estar um romance: Capote sabia isto. Ou afastando tanto quanto possível o olhar do minuto que agora passa, e impondo a maior distância para uma visão global, podem estar mil contos a reflectir a humanidade: Borges sabia isto.
Creio que temos estrelas no firmamento. Portuguesas de pai e mãe e não são nossas. Na cultura urbana, na literatura, na pintura. São ocidentais. Não temos a indústria musical norte americana, de facto, ou então a Miley Cyrus seria a Ana Malhoa cuja história, salvaguardando entre outras diferenças de maior peso, geracional e de costumes, tem pontos de contacto significativos.
Fundamental é como tratamos este tecido cultural comum. Pobremente. Tratamo-lo pobremente. Demonstro.
Se o autor/pintor/músico é estrangeiro, espera-se pela crítica do respectivo país de origem para depois espelhar à náusea os conteúdos produzidos. Se é português, para existir na crítica, tem de fazer parte de um círculo mágico, social ou maçónico ou jantante, tanto faz, em que A projecta B que projecta A. Ou isso, ou ir para fora para ser de dentro como qualquer estrangeiro na sempre actual tradição estrangeirada.
Se está a pensar: então porque não escreve sobre algo ou alguém, a partir das suas próprias referências? Alguém nosso em sentido restrito ou aberto? Bem, tenho-o feito. Mais recentemente sobre Alexandre Farto aqui, por exemplo. E sobre outros e outras questões também.
Tenho muito mais para dizer. Se quiser ouvir, vá passando pelas páginas onde escrevo. Sabe, pode parecer insignificante, mas arrependo-me mesmo de não ter escrito sobre a Miley Cyrus.

Bonjour Mundo!

lailailai
la prima vez ke te vidi
de tuz ojos me 'namori
d'akel momento te ami
fin a la tomba te amare.
aserkate mi kerida
salvadora de mi vida
descubrite i avlame
sekretos de la tu vida