19 de setembro de 2013

Os ciganos são porcos: não tomam banho

Em dois dias seguidos, ontem e hoje, duas pessoas de quem gosto muitíssimo, e mais, respeito, quero-as perto, me disseram: não podes escrever sobre cultura no sítio x, ninguém quer que se escreva tal, ninguém quer ler; não no sítio y. Têm razão. Só um bocadinho, no entanto. Talvez não queiram que se escreva. Azarucho. Mais perdemos todos. Eu quero escrever e há quem queira ler.
CULTURA: A CIDADE PROIBIDA -i
Não têm pão? Comam brioches...
Quero falar-lhe de um lugar proibido, da palavra mágica que fecha portas, o avesso do abracadabra, a matéria com que construímos exílios de pensamento e sociais, guetos económicos, solidões morais, afectivas. Quero falar-lhe – fuja enquanto é tempo – de cultura: a nova cidade proibida.
Os ciganos são porcos, cheiram mal, não tomam banho. Isto é fácil de pensar. Menos fácil de dizer numa altura em se tratam na pontinha dos dedos delicados as etnias multiculturais e lailailais. Lixem-se. Importante é referir que não tomam banho quando não têm água canalizada, casa de banho, e que quando as têm são tão limpos ou tão sujos quanto qualquer outra pessoa com maior ou menor gosto pela água. Não é uma questão cultural, é social.
Os pobres não têm mau gosto: não têm é dinheiro para ter bom gosto. Ah, mas e os novos ricos e os seus arabescos dourados? Os velhos ricos tiveram o rococó e a decadência de um bordado de um saiote custar o mesmo do que uma pequena quinta, ou não tiveram? O que um novo rico precisa é de tempo. Até os ingleses, gente amante das castas mais do que os indianos, afirmam sem pejo: são precisos duzentos anos para fazer um lord. E convenhamos, um novo rico é bem mais veloz do que isso numa república como a nossa: cem aninhos de pulso chegam para levantar egrégios avós aos píncaros do poder económico e político – claro que me refiro a relações privilegiadas e ambíguas com a classe política, não ao presidente da junta ou ao deputado, muito menos ao pequeno e médio empresário que sustenta a economia sem qualquer patrocínio desviante. E convenhamos, vivemos dias de novos pobres, por favor, venham os novos  ricos sem vínculo com o estado – a fila é onde?
O povo não abomina a cultura, não evita entrar na cidade proibida. E prova disso é o sempre apreço pelo pão e circo, o turismo barato de excursão de autocarro, a fidelidade ao Correio da Manhã, ao Tony Carreira, aos programas da tarde de domingo, à festa de camarão congelado e africano. Porque são prazer e consolação na língua comum, a preço acessível, num dia a dia de dinheiro contado para chegar ao fim do mês. Não se pode retirar o entretenimento popular a quem não sabe o que significa erudito nem pratos de degustação. Deve-se, no entanto, introduzir a erudição nesse quotidiano. E não se queixe de que a imprensa é um lixo e a televisão outro. Acaso o vizinho do lado decide o seu jornal diário ou semanal ou tem poder sobre o seu comando de televisão? Não gosta? Não compre. Garanto-lhe que a quebra de vendas não precisa de tradução ainda que precise, e muito, de interpretação.
É verdade que uma mulher de classe média não lê latim nem grego a menos que seja professora de latim e grego. Lê Margarida Rebelo Pinto a quem pretensos intelectuais ou pretendentes a qualquer protagonismo invectivam por uma razão de mistério. Ela faz bem feito aquilo que num país normal se chama Chick Lit. Acaso um livro dela torna inviável a leitura de Roth? Não. São públicos distintos. A questão é a crítica portuguesa trocar os b pelos v.
Poderia continuar, porém vou resumir. Escrever sobre cultura no Jornal de Letras é bom. Mas não chega, é o mesmo que escrever sobre livros na Ler, ou assassinatos no Jornal do Crime – ainda existe? É um circuito de vídeo fechado. O que nos tirou do chão, das quatro patas, foi olhar para cima, e não se olha para cima se não houver o que ver. Portanto, não digam que não se pode dizer a cultura, pop ou moderna ou erudita na imprensa, nos media, quaisquer que eles sejam porque as pessoas não querem: não saber, não é sinónimo de não querer, nem de não querer saber.
Logo que a linguagem seja desempoeirada e a língua não se enrole em teias de aranha qualquer besta descobre que tem em si uma luz sublime. E gosta.