27 de setembro de 2013

Meio-Dia

MEIO-DIA
Uma atrás da outra, hoje
vi as ondas mudarem-se
do verão para o outono
e as nuvens descerem
para um extremo branco de chumbo
e soube que era verdade:
não encontrei o mar à minha frente
não fui  rio nem água nem sede
nem as palavras ditas liquesceram
onde o sol lhes bebesse a frescura
Nunca houve caminho de volta em qualquer regresso
em nenhum passo vive o futuro
Há esta solidão a pique, clara como o meio-dia
para iluminar o coração no escuro

19 de setembro de 2013

Os ciganos são porcos: não tomam banho

Em dois dias seguidos, ontem e hoje, duas pessoas de quem gosto muitíssimo, e mais, respeito, quero-as perto, me disseram: não podes escrever sobre cultura no sítio x, ninguém quer que se escreva tal, ninguém quer ler; não no sítio y. Têm razão. Só um bocadinho, no entanto. Talvez não queiram que se escreva. Azarucho. Mais perdemos todos. Eu quero escrever e há quem queira ler.
CULTURA: A CIDADE PROIBIDA -i
Não têm pão? Comam brioches...
Quero falar-lhe de um lugar proibido, da palavra mágica que fecha portas, o avesso do abracadabra, a matéria com que construímos exílios de pensamento e sociais, guetos económicos, solidões morais, afectivas. Quero falar-lhe – fuja enquanto é tempo – de cultura: a nova cidade proibida.
Os ciganos são porcos, cheiram mal, não tomam banho. Isto é fácil de pensar. Menos fácil de dizer numa altura em se tratam na pontinha dos dedos delicados as etnias multiculturais e lailailais. Lixem-se. Importante é referir que não tomam banho quando não têm água canalizada, casa de banho, e que quando as têm são tão limpos ou tão sujos quanto qualquer outra pessoa com maior ou menor gosto pela água. Não é uma questão cultural, é social.
Os pobres não têm mau gosto: não têm é dinheiro para ter bom gosto. Ah, mas e os novos ricos e os seus arabescos dourados? Os velhos ricos tiveram o rococó e a decadência de um bordado de um saiote custar o mesmo do que uma pequena quinta, ou não tiveram? O que um novo rico precisa é de tempo. Até os ingleses, gente amante das castas mais do que os indianos, afirmam sem pejo: são precisos duzentos anos para fazer um lord. E convenhamos, um novo rico é bem mais veloz do que isso numa república como a nossa: cem aninhos de pulso chegam para levantar egrégios avós aos píncaros do poder económico e político – claro que me refiro a relações privilegiadas e ambíguas com a classe política, não ao presidente da junta ou ao deputado, muito menos ao pequeno e médio empresário que sustenta a economia sem qualquer patrocínio desviante. E convenhamos, vivemos dias de novos pobres, por favor, venham os novos  ricos sem vínculo com o estado – a fila é onde?
O povo não abomina a cultura, não evita entrar na cidade proibida. E prova disso é o sempre apreço pelo pão e circo, o turismo barato de excursão de autocarro, a fidelidade ao Correio da Manhã, ao Tony Carreira, aos programas da tarde de domingo, à festa de camarão congelado e africano. Porque são prazer e consolação na língua comum, a preço acessível, num dia a dia de dinheiro contado para chegar ao fim do mês. Não se pode retirar o entretenimento popular a quem não sabe o que significa erudito nem pratos de degustação. Deve-se, no entanto, introduzir a erudição nesse quotidiano. E não se queixe de que a imprensa é um lixo e a televisão outro. Acaso o vizinho do lado decide o seu jornal diário ou semanal ou tem poder sobre o seu comando de televisão? Não gosta? Não compre. Garanto-lhe que a quebra de vendas não precisa de tradução ainda que precise, e muito, de interpretação.
É verdade que uma mulher de classe média não lê latim nem grego a menos que seja professora de latim e grego. Lê Margarida Rebelo Pinto a quem pretensos intelectuais ou pretendentes a qualquer protagonismo invectivam por uma razão de mistério. Ela faz bem feito aquilo que num país normal se chama Chick Lit. Acaso um livro dela torna inviável a leitura de Roth? Não. São públicos distintos. A questão é a crítica portuguesa trocar os b pelos v.
Poderia continuar, porém vou resumir. Escrever sobre cultura no Jornal de Letras é bom. Mas não chega, é o mesmo que escrever sobre livros na Ler, ou assassinatos no Jornal do Crime – ainda existe? É um circuito de vídeo fechado. O que nos tirou do chão, das quatro patas, foi olhar para cima, e não se olha para cima se não houver o que ver. Portanto, não digam que não se pode dizer a cultura, pop ou moderna ou erudita na imprensa, nos media, quaisquer que eles sejam porque as pessoas não querem: não saber, não é sinónimo de não querer, nem de não querer saber.
Logo que a linguagem seja desempoeirada e a língua não se enrole em teias de aranha qualquer besta descobre que tem em si uma luz sublime. E gosta.

2 de setembro de 2013

Bonjour Mundo leitor!


A Tempestade

A TEMPESTADE
Tenho andado a estudar a espessura das noites
a largura dos dias, a duração do tempo, a biologia do céu:
há uma via láctea inteira no mais escuro dos corpos
milhões de células brilham para iluminar o nada
onde a matéria se suspende se a espreitarmos
amorosamente perto para logo descobrimos:
o longe é mentira
Porque a vida é fisicamente interseccionista
- um poema de Álvaro de Campos tem mais realidade do que nossa separação
Não colecciono estes pedaços de informação
construo um barco que navegue a falsa distância
e me leve de volta a casa onde me esperas
onde sempre fui, de onde nunca saí
A chuva que oblíqua me molha
evapora-se do manto de Próspero
e do suspiro que oscila na expiração de Miranda
inspiração de Ferdinando

Carta ao meu Amor


Homem Mau,
Muito gostava de saber por onde anda e a fazer o quê - o com quem dispenso nem seja por uma questão de bom gosto. Já lhe passou pela cabeça que um marido faz muita falta em casa? Imagina o que aconteceu na sua estúpida ausência? Sim, tem a mania que vida dura para sempre e não se digna a aparecer… Fie-se. Qualquer dia chateio-me e digo sim em vez de dizer não e depois quero ver como é que se governa sem mim. Há limites para a santidade. Patetão. Estou tão chateada consigo que até a minha voz interior, esta que agora lhe escreve, subiu para, vá, um sopranozinho. Ai! Que nervos.
Sabe que por sua tão grande culpa me arrisco a encarnar num verme com duas cabeças? Pois devia ou querem lá ver que também não sabe que escrevo aqui, diante deste ecrã grande e cheio de um computador lá dentro que o faz pesado? Isto não é um portátil, seu ingrato, é um all in one. Não é para andar com ele a reboque pela casa. E podia estar tranquila a trabalhar? Não. Porquê? Porque o menino anda aí na boa vai ela!
Vi uma coisinha a mexer, na parede, rente ao tecto. Ponho os óculos – ainda não lhe tinha dito que sou míope? Um horror. Não vejo nada ao longe, deve ser por isso que nunca o encontrei. Já ao perto… E zás. Era uma osga bebé. Racionalmente não tenho medo. Mas parte de mim é irrazão. Quer ver?
Onde há uma osga bebé há uma enorme mãe osga e vai surgir a qualquer instante. E vão cair-me em cima. Uma osga enorme e dezenas de osgas pequeninas. A qualquer instante. E não consigo levar o computador daqui. Vou comprar outro portátil. Vai-te embora osga, please. Vai-te embora, vai, xô. Oh meu Deus, vai crescer às escondidas. A minha casa é um ninho de osgas. Nesta altura estou em pleno Amazonas na barriga de um crocodilo pré-histórico que, aposto, é o pai de todas as osgas, num mundo onde há uma fartura de serpentes e baratas enormes e voadoras.
O delírio reptilário-serpentário dura um segundo. Matei a osga. É verdade. Uma osga bebé. Eu, que nem carne como. Por sua tão grande culpa, homem mau! Torci a esfregona e acertei no super-crocodilo de dez metros que se contorceu no chão debaixo dos meus olhos incrédulos. Tão pequenina. Porque não estava aqui para a espantar a osga e evitar esta mortandade? E o meu karma? E os remorsos? Só desgostos.
Espero que ache o sofá confortável.
Um beijo da sua linda mulher
EV
(Bem sei, bem sei, trato o raio do Amor na terceira pessoa. Mas fazer o quê? Não me vou pôr de tu cá, tu lá, com um desconhecido. Para mais o excesso de intimidade estraga o quotidiano.)