21 de agosto de 2013

Rosto, pescoço, mamas, e outros lugares sujeitos à lei da gravidade

A autora adverte: o uso deste post pode causar danos irreversíveis.
Norah Ephron, sim, aquela que escreveu When Harry met Sally, tem este bestseller, entre outros. O título, I feel bad about my neck, há que convir, fala connosco. Quem diz que gosta de envelhecer ou está a mentir ou está doente.
Envelhecer dói. Na vaidade tanto como nas articulações. Mesmo que estejamos cada vez mais novos, porque estamos, com a ajuda da medicina, do ginásio, dos ácidos gordos, das vitaminas, de uma boa alimentação, da cosmética, nem por isso paramos o tempo ou somos imunes à gravidade. Isto não significa que envelhecer não seja o preço do privilégio que é a vida. O privilégio da idade, tendemos a esquecê-lo. Estamos vivos. E não envelhecemos também para aprender a nossa mortalidade, o impossível e nem por isso menos inevitável adeus?
O corpo e o rosto duram muito tempo. E se bem amados duram em bom estado. O envelhecimento faz-se mais lento a cada dia que passa. Não duramos apenas mais, duramos melhor. Se olharmos para uma mulher de cinquenta anos, de agora, é fácil encontrarmo-nos com a descrição que Eça, nos Maias, faz da Cohen: Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se às vezes Raquel, e as opiniões discordavam. Taveira achava-a “deliciosa!” — e dizia-o rilhando o dente: ao marquês não deixava de parecer apetitosa, para uma vez, aquela carnezinha faisandée de mulher de trinta anos. Repito. O corpo e o rosto duram muito tempo. E se bem amados duram em bom estado. Bem amados não é sinónimo de bem cortados: uma mulher de quarenta anos não deve parecer que tem vinte. Nem uma de sessenta ter um rosto de trinta. Muito menos a lisura esticada por ali acima, ou preenchida de espanto de botox e outras discrepâncias que fazem da figura humana uma montagem desarmoniosa de várias épocas: uns lábios grossíssimos do ano 2000, bóias de náufragos, e umas mãos de quem nasceu em 1940 a coabitar na mesma pessoa. E não, um homem não ama mais, nem quer mais a uma mulher jovem ou bela como uma estrela de cinema - se assim fosse nem as mulheres jovens nem as mulheres belas como estrelas de cinema, ou as próprias cinematográficas estrelas seriam jamais traídas, ou deixadas, ou estariam sós.
É verdade que o contorno do rosto perde a tensão e ficamos todos um bocadinho pendidos, com focinho de boxer. É verdade que a zoomorfia não acaba ali: o pescoço que fazia Norah Ephron andar de gola alta ou lenço, diabo, fica com uma barbela que lembra o touro - mas o touro é um animal nobre, uma besta de beleza e força. E é verdade, as maminhas não apontam para o céu, porém não é grave, a vocação delas não é astronómica.
Nestes dias em que persistentemente nos informam que não há fronteira entre uma intervenção cosmética e uma intervenção cirúrgica, em que insistem na substituição do valor pessoal pelo valor da imagem, pior, na manipulação perversa da auto-imagem ao ponto de nos parece natural, higiénico, a remoção ácida de rugas, o lifting, os implantes nas maçãs do rosto, no peito, queria dizer: tenho 45 anos e sinto-me bem com o meu pescoço.