20 de julho de 2013

Prega-lhe um par de bofetadas!

Anda aí uma vaga que, não sendo de calor, assim mesmo derrete o juízo do mulherio. É o feminismo da “Irmandade Nós, as Boas”. As boas, para além de serem umas cobras do caneco tão constritoras quanto as suas homónimas, não sou eu quem o diz, é a enciclopédia, são as nutridoras, as cuidadoras primordiais das outras mulheres todas que empurram para a condição de filhas - o que nem num convento se aguenta. Pois se num convento há uma “madre”, portanto uma “mãe”, uma só, note-se, nem por isso, quando chega a hora da verdade, deixam de ser, cada uma das irmãs, as freiras, em pé de igualdade, a esposa de Cristo. Explico tudo.
Num tempo que não se sabe quando foi, desconfio porém que nunca, a estrutura dominante terá sido o matriarcado, na qual o poder em vez de se representar vertical se representaria horizontal, ou circular, assim tipo baile de roda mas para gente crescida. Mal comparado uma linha de montagem de afectos, redes de suporte e, imagina já a minha impaciência, uma fartura de mãos dadas, abraços consoladores a torto e a direito, conversas infindas. Deus me livre.
É tirar daí o sentido, filhas – ai não quer ser minha filha?, vê… pois eu também não quero ser a sua filha, madre superior. Esse mundo a ter acontecido, correu tão mal que ninguém sabe, ninguém viu, pois nada produziu que se visse para além desta mito-feminologia.
O que tenho contra ele? Tendo em conta que não existiu, bem, nada. Contudo chateia-me a falsa preposição, não por ser falsa, já que isso poderia qualificar-se como um acto da imaginação criativa, mas por ser o oposto: o acto de uma racionalização destrutiva. Para além de reduzir o homem a muito menos de metade da equação, o que é, vá, desagradável para quem gosta de encontrar no outro um par, um igual na plena posse das suas diferenças, digamos que me maçam duas ou três cositas mais além desta.
A mulher não é, nem nunca foi esta gatinha sem unhas, a Hello Kitty que querem fazer dela, sem boquinha sequer para falar porque está protegida pelas gatarronas.
Não sei quem, não recordo, apontava no outro dia o espectáculo degradante para a mulher, e existente apenas como consequência da fantasia masculina, das lutas de mulheres – acho que era na lama e a propósito do Big Brother.
As mulheres solidarizam-se sempre que é necessário. E competem sem dó sempre que lhes parece adequado aos seus objectivos. Melhor. Até fervem em pouca água – talvez agora se note menos porque anda tudo a toque da pílula e as hormonas estão na jaula. É um facto. Da natureza e da civilização. Dou-lhe um exemplo.
Durante séculos as mulheres, pasme-se, desafiaram-se em duelo. Os duelos femininos eram tão ou mais comuns do que os duelos masculinos. E, convenhamos, muitos nem eram por questões de honra e sim por dá cá aquela palha, quer dizer, não havia lá a nossa pílula, era a tal da fervura. O que não era tão frequente então, e agora já vai sendo apesar de se usarem outras armas de corte, eram os duelos entre homem e mulher.
A excepção não foi Julie D´Aubigny que passou à história como La Maupin por causa do romance de Théophile Gautier muito livremente baseado na sua vida. Por muito que esta mulher nascida no século xvii tenha chamado sobre si a atenção não apenas por se ter tornado uma espadachim de aventura em aventura, somando escândalos e vitórias em desafios de espada, mas também pela sua extrema beleza e a da sua voz, já que era cantora lírica. A excepção não foi a condessa de Polignac bater-se num duelo de pistolas com a Marquesa de Nesle por causa dos favores do duque de Richelieu – e lá se foi um bocadinho da orelha da Marquesa com o chumbo, ui…
Os ferimentos muito graves e mortes ocorriam em dobro nos duelos femininos. As regras eram mais… chamemos-lhe fluídas: lâminas envenenadas, um despropósito de tiros, enfim. E podia ser por causa de um vestido, um olhar de soslaio, mesmo um comentário feito no salão da anfitriã que caísse mal – não havia pastilhas Rennie. Em Inglaterra ou em Itália. Em qualquer lugar. É preciso não esquecer que Catarina da Rússia já andava à estalada, perdão, já espadeirava quando não tinha mais do que catorze anos.
Até Heródoto contou das lutas à paulada entre raparigas. Ora Heródoto não viveu ontem nem no século xvii.
O mundo mudou e as suas circunstâncias. Não andamos de pau na mão. Já não usamos punhais, espadas e pistolas à cinta. E está certo. Somos muito mais do que esta fêmea que nos habita e põe as garras de fora. Mas minhas queridas, é preciso não exagerar na manicure.