26 de julho de 2013

Calem-se duma vez por todas

Quando era pequena, se alguém tinha cancro, era alguém. Alguém é muito longe quando se é pequeno. Alguém é um estranho contado, não é de carne e osso. Então, o cancro era muito longe como uma raridade. Outras coisas terríveis eram mais próximas: a guerra civil espanhola acabada há que anos era ali ao lado e cheia de mortos, tantos quantos os de Miguel Strogoff em banda desenhada, fome pela rua, tudo em farrapos de imaginação infantil, famílias partidas ao meio como a que haveria de trazer a minha tia até ao meu tio - mal eles sabiam que fora precisa uma sangria para se encontrarem. Ouvia tudo daquele desfile de horrores porque as crianças não têm ouvidos quando estão a brincar.
A minha tia, mesmo depois de tantos anos portugueses, não diz telefone, diz teléfono, e chama-me Djani. Ainda hoje, mais de noventa anos de idade e cheia de raça. Até durante os anos negros da guerra do Ultramar onde lhe estava o filho, cheios de promessas e mantilhas e velas para uma eternidade de santos iluminados, viveu sempre com gana, uma vontade cheia de detalhes como os bordados sobre seda que fazia,  um caminho de procissões de altos capuzes e romarias ao Rocío, sevilhanas quando chegavam as primas com o Verão.
E houve a minha outra tia que veio mudar tudo. Não sei se ela era uma fera. Mas lembro-me de pensar que sim, um dragão vindo do frio. Falava seco e sibilava atrás da voz de faca. Apavorava as criadas. E a mim. Tinha medo só de a ver deitada naquela cama morrente, uma touca de folhos do fundo do tempo, o quarto debaixo de uma luz como a das pinturas antes de saber dizer chiaroscuro, ela toda encarquilhada, a fumar de boquilha o resto do cancro nos pulmões. Uma vez escutei a minha avó sem ela saber. Falava com o médico da minha tia, um amigo, em voz baixa, a alguma distância do quarto moribundo. E dizia: até perto do fim a minha irmã é má. Não sei o que ela tinha feito dessa vez, não ouvi tudo, tinha estado presa na cadeira ao lado, a ver aqueles dedos nodosos e compridos de bruxa ameaçadora na sua dança de fumo. Lembro de pensar: a aranha e a mosca, não consigo sair daqui se não me vierem salvar.
Dantes havia o mal e pessoas más. Essas pessoas até podiam fazer coisas bem feitas, mas eram más. Nascia-se assim. Sem psicologismos. Filhos do mesmo pai, da mesma mãe, da mesma educação formal e informal. O mal existia quando era pequena. Era natural. Dois ou três filhos podiam ser certinhos. Um ter o vício do jogo, outro ser mau. Era assim. Lembro-me de ouvir. Os não sei quantos são muito bons, o problema é que de vez em quando um mata-se. Ou mata a mulher - não se pode casar com eles, é de repente, dá-lhes uma veneta. Na minha família era a jogatina que de vez em quando vinha ao cima e quase sempre bem regada. Era assim. A tia má fora um mistério mau.
Muita coisa mudou. Ninguém é mau e não há vícios, só doenças. Até o cancro está em todo o lado: respeitando o determinismo da própria biologia, espalhou-se. Toda a gente tem, pelo menos, um familiar, um amigo com cancro. Não sou excepção.
Não tenho mil amigas. Da infância, meia dúzia atravessou o passado para chegar ao presente. Cada uma com a sua vida, as suas novas e velhas relações, profissões, geografias. Tive sorte, até fiz duas amigas de infância depois de adulta. Não nos vemos muito porque não vejo ninguém muito. Não as amo menos por isso.
Uma delas, creio que a mais forte, a que se fez com mais força à vida que à partida não lhe deu nada e a fez buscar tudo, cuidar de todos, metê-los debaixo da asa que não teve, morreu de cancro no pâncreas. Num instante. Foi há tantos anos e no entanto continua a ser, tanto a vida dela quanto a morte continuam a ser. Outra querida amiga tem cancro, sobrevive-lhe todos os dias desde a hora em que lho diagnosticaram com inaceitáveis requintes de fim de cena: The End. Não há cá the end para ela, graças a Deus.
Li, e ouvi, e reli e já não posso ouvir mais: é um herói, sobreviveu ao cancro. Calem-se. Calem-se. Não posso mesmo ouvir mais. Os heróis, na vida como na guerra, estão dos dois lados do campo de batalha. Há heróis mortos e heróis vivos. Não são heróis porque têm cancro. Nem porque morreram nem porque sobreviveram. Mas pela dignidade com que vivem e com que morreram.