27 de julho de 2013

Bonjour Mundo!

É muito playful este bocadinho de Manon, pois é? Quanto mais tem de ir embora mais quer ficar. A felicidade é egoísta como um bebé.

26 de julho de 2013

Calem-se duma vez por todas

Quando era pequena, se alguém tinha cancro, era alguém. Alguém é muito longe quando se é pequeno. Alguém é um estranho contado, não é de carne e osso. Então, o cancro era muito longe como uma raridade. Outras coisas terríveis eram mais próximas: a guerra civil espanhola acabada há que anos era ali ao lado e cheia de mortos, tantos quantos os de Miguel Strogoff em banda desenhada, fome pela rua, tudo em farrapos de imaginação infantil, famílias partidas ao meio como a que haveria de trazer a minha tia até ao meu tio - mal eles sabiam que fora precisa uma sangria para se encontrarem. Ouvia tudo daquele desfile de horrores porque as crianças não têm ouvidos quando estão a brincar.
A minha tia, mesmo depois de tantos anos portugueses, não diz telefone, diz teléfono, e chama-me Djani. Ainda hoje, mais de noventa anos de idade e cheia de raça. Até durante os anos negros da guerra do Ultramar onde lhe estava o filho, cheios de promessas e mantilhas e velas para uma eternidade de santos iluminados, viveu sempre com gana, uma vontade cheia de detalhes como os bordados sobre seda que fazia,  um caminho de procissões de altos capuzes e romarias ao Rocío, sevilhanas quando chegavam as primas com o Verão.
E houve a minha outra tia que veio mudar tudo. Não sei se ela era uma fera. Mas lembro-me de pensar que sim, um dragão vindo do frio. Falava seco e sibilava atrás da voz de faca. Apavorava as criadas. E a mim. Tinha medo só de a ver deitada naquela cama morrente, uma touca de folhos do fundo do tempo, o quarto debaixo de uma luz como a das pinturas antes de saber dizer chiaroscuro, ela toda encarquilhada, a fumar de boquilha o resto do cancro nos pulmões. Uma vez escutei a minha avó sem ela saber. Falava com o médico da minha tia, um amigo, em voz baixa, a alguma distância do quarto moribundo. E dizia: até perto do fim a minha irmã é má. Não sei o que ela tinha feito dessa vez, não ouvi tudo, tinha estado presa na cadeira ao lado, a ver aqueles dedos nodosos e compridos de bruxa ameaçadora na sua dança de fumo. Lembro de pensar: a aranha e a mosca, não consigo sair daqui se não me vierem salvar.
Dantes havia o mal e pessoas más. Essas pessoas até podiam fazer coisas bem feitas, mas eram más. Nascia-se assim. Sem psicologismos. Filhos do mesmo pai, da mesma mãe, da mesma educação formal e informal. O mal existia quando era pequena. Era natural. Dois ou três filhos podiam ser certinhos. Um ter o vício do jogo, outro ser mau. Era assim. Lembro-me de ouvir. Os não sei quantos são muito bons, o problema é que de vez em quando um mata-se. Ou mata a mulher - não se pode casar com eles, é de repente, dá-lhes uma veneta. Na minha família era a jogatina que de vez em quando vinha ao cima e quase sempre bem regada. Era assim. A tia má fora um mistério mau.
Muita coisa mudou. Ninguém é mau e não há vícios, só doenças. Até o cancro está em todo o lado: respeitando o determinismo da própria biologia, espalhou-se. Toda a gente tem, pelo menos, um familiar, um amigo com cancro. Não sou excepção.
Não tenho mil amigas. Da infância, meia dúzia atravessou o passado para chegar ao presente. Cada uma com a sua vida, as suas novas e velhas relações, profissões, geografias. Tive sorte, até fiz duas amigas de infância depois de adulta. Não nos vemos muito porque não vejo ninguém muito. Não as amo menos por isso.
Uma delas, creio que a mais forte, a que se fez com mais força à vida que à partida não lhe deu nada e a fez buscar tudo, cuidar de todos, metê-los debaixo da asa que não teve, morreu de cancro no pâncreas. Num instante. Foi há tantos anos e no entanto continua a ser, tanto a vida dela quanto a morte continuam a ser. Outra querida amiga tem cancro, sobrevive-lhe todos os dias desde a hora em que lho diagnosticaram com inaceitáveis requintes de fim de cena: The End. Não há cá the end para ela, graças a Deus.
Li, e ouvi, e reli e já não posso ouvir mais: é um herói, sobreviveu ao cancro. Calem-se. Calem-se. Não posso mesmo ouvir mais. Os heróis, na vida como na guerra, estão dos dois lados do campo de batalha. Há heróis mortos e heróis vivos. Não são heróis porque têm cancro. Nem porque morreram nem porque sobreviveram. Mas pela dignidade com que vivem e com que morreram.

22 de julho de 2013

Bonjour Correio da Manhã, perdão, Mundo!

A conversa com Leonardo Ralha está todinha...
Para quem não leu ontem em papel - e para quem leu. Sim, para quem leu. Porquê? Não digo. Descubra.

20 de julho de 2013

Prega-lhe um par de bofetadas!

Anda aí uma vaga que, não sendo de calor, assim mesmo derrete o juízo do mulherio. É o feminismo da “Irmandade Nós, as Boas”. As boas, para além de serem umas cobras do caneco tão constritoras quanto as suas homónimas, não sou eu quem o diz, é a enciclopédia, são as nutridoras, as cuidadoras primordiais das outras mulheres todas que empurram para a condição de filhas - o que nem num convento se aguenta. Pois se num convento há uma “madre”, portanto uma “mãe”, uma só, note-se, nem por isso, quando chega a hora da verdade, deixam de ser, cada uma das irmãs, as freiras, em pé de igualdade, a esposa de Cristo. Explico tudo.
Num tempo que não se sabe quando foi, desconfio porém que nunca, a estrutura dominante terá sido o matriarcado, na qual o poder em vez de se representar vertical se representaria horizontal, ou circular, assim tipo baile de roda mas para gente crescida. Mal comparado uma linha de montagem de afectos, redes de suporte e, imagina já a minha impaciência, uma fartura de mãos dadas, abraços consoladores a torto e a direito, conversas infindas. Deus me livre.
É tirar daí o sentido, filhas – ai não quer ser minha filha?, vê… pois eu também não quero ser a sua filha, madre superior. Esse mundo a ter acontecido, correu tão mal que ninguém sabe, ninguém viu, pois nada produziu que se visse para além desta mito-feminologia.
O que tenho contra ele? Tendo em conta que não existiu, bem, nada. Contudo chateia-me a falsa preposição, não por ser falsa, já que isso poderia qualificar-se como um acto da imaginação criativa, mas por ser o oposto: o acto de uma racionalização destrutiva. Para além de reduzir o homem a muito menos de metade da equação, o que é, vá, desagradável para quem gosta de encontrar no outro um par, um igual na plena posse das suas diferenças, digamos que me maçam duas ou três cositas mais além desta.
A mulher não é, nem nunca foi esta gatinha sem unhas, a Hello Kitty que querem fazer dela, sem boquinha sequer para falar porque está protegida pelas gatarronas.
Não sei quem, não recordo, apontava no outro dia o espectáculo degradante para a mulher, e existente apenas como consequência da fantasia masculina, das lutas de mulheres – acho que era na lama e a propósito do Big Brother.
As mulheres solidarizam-se sempre que é necessário. E competem sem dó sempre que lhes parece adequado aos seus objectivos. Melhor. Até fervem em pouca água – talvez agora se note menos porque anda tudo a toque da pílula e as hormonas estão na jaula. É um facto. Da natureza e da civilização. Dou-lhe um exemplo.
Durante séculos as mulheres, pasme-se, desafiaram-se em duelo. Os duelos femininos eram tão ou mais comuns do que os duelos masculinos. E, convenhamos, muitos nem eram por questões de honra e sim por dá cá aquela palha, quer dizer, não havia lá a nossa pílula, era a tal da fervura. O que não era tão frequente então, e agora já vai sendo apesar de se usarem outras armas de corte, eram os duelos entre homem e mulher.
A excepção não foi Julie D´Aubigny que passou à história como La Maupin por causa do romance de Théophile Gautier muito livremente baseado na sua vida. Por muito que esta mulher nascida no século xvii tenha chamado sobre si a atenção não apenas por se ter tornado uma espadachim de aventura em aventura, somando escândalos e vitórias em desafios de espada, mas também pela sua extrema beleza e a da sua voz, já que era cantora lírica. A excepção não foi a condessa de Polignac bater-se num duelo de pistolas com a Marquesa de Nesle por causa dos favores do duque de Richelieu – e lá se foi um bocadinho da orelha da Marquesa com o chumbo, ui…
Os ferimentos muito graves e mortes ocorriam em dobro nos duelos femininos. As regras eram mais… chamemos-lhe fluídas: lâminas envenenadas, um despropósito de tiros, enfim. E podia ser por causa de um vestido, um olhar de soslaio, mesmo um comentário feito no salão da anfitriã que caísse mal – não havia pastilhas Rennie. Em Inglaterra ou em Itália. Em qualquer lugar. É preciso não esquecer que Catarina da Rússia já andava à estalada, perdão, já espadeirava quando não tinha mais do que catorze anos.
Até Heródoto contou das lutas à paulada entre raparigas. Ora Heródoto não viveu ontem nem no século xvii.
O mundo mudou e as suas circunstâncias. Não andamos de pau na mão. Já não usamos punhais, espadas e pistolas à cinta. E está certo. Somos muito mais do que esta fêmea que nos habita e põe as garras de fora. Mas minhas queridas, é preciso não exagerar na manicure.

14 de julho de 2013

Mínimas - viii

Há aquelas coisas que se ouvem acidentalmente: a actriz y e a apresentadora z são umas privilegiadas porque são pagas para andarem num carro da marca não sei quantas -  já não bastava o usufruto de um topo de gama... E para aparecerem no sítio x e representarem os produtos tal e tal, de jóias a sapatos e sabe Deus que mais. 
Privilégio não é ser pago. Privilégio é poder pagar.

11 de julho de 2013

Bonjour Mundo!

lailai
you can look but you can't touch it
if you touch it I'ma start some drama
you don't want no drama
no no drama no no no no drama
so don't pull on my hand boy
you ain't my man boy
i'm just tryn'a dance boy
lailai


Era capaz de jurar que li isto num livro... É no meu! Leu? Fun!

10 de julho de 2013

Bonjour Mundo!


CAMAS_capa_FINAL
5ª feira, dia 11, está nas livrarias de Portugal

k-line_camas
A partir de dia 11, esta 5ª feira, numa livraria próxima de si.

9 de julho de 2013

J´accuse!

Estas meninas e estes rapazes são da equipa Guerra & Paz, editores, pois claro, que o Manuel S. Fonseca criou. Eles e eu fizemos um lindo livro. Quer ver? Só um bocadinho... a capa,  o índice, quer? Não mostro! Só amanhã.
Américo Araújo, Tânia Raposo, Manuel Fonseca, Vânia Custódio e Ilídio Vasco

Bonjour Mundo!

Está quase... E estar no quase é estar num lugar bom.

8 de julho de 2013

ART ME UP - XI

ART ME UP
MANUEL SAN PAYO - i
TOCAMO-NOS TODOS COMO AS ÁRVORES NO INTERIOR DA TERRA
MSP - DG
Há aquilo que todos sabemos: Manuel San Payo é artista plástico. É professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Fez mil exposições colectivas e individuais. E há aquilo que nem todos sabem ainda que ele o tenha escrito numa página dos seus Diários Gráficos:
O desenho aproxima as pessoas. A rapariga que eu esbocei sorriu para mim. Saiu na Avenida. Acho que sabia perfeitamente o que eu estava a fazer. Foi como se me conhecesse há uns tempos.
Como disse Herberto Helder na refeitura de Húmus de Raul Brandão: Tocamo-nos todos como as árvores no interior da terra.
MSP - DG iv
Do mesmo modo que um escritor é, antes do mais, aquele que ouve, um artista plástico é, antes do mais, aquele que observa. A sua atenção acorda-nos para o que está diante de nós e não vemos: o seu olhar emoldura, por um lado, e compõe e ilumina, por outro, para nos oferecer uma realidade, também ela, depois de vista, património nosso.
Porque a chave é aquela e não outra: a arte aproxima as pessoas, não apenas pelo seu denominador comum, o acto criativo, mas pela génese desse acto: o amor. A religação entre criador e criatura. Não há arte sem desejo de união. Não há essa vontade se não existir a consciência da separação. Foi um corte. Umbilical. É uma ferida.
MSP - DG ii
Há alguém que observa. A mão desenha. O observado faz-se uma concretização e já é essa nova concretude que se contempla. Toda a expressão artística se radica no erotismo por muito que a sua união com o objecto seja, pasme-se, mística. Nenhuma ferida naquele exacto instante, nenhuma separação: é à inteireza que é devolvido o criador, a criatura e quem os contempla.
MSP - vi
Poderemos ver aquilo que não somos? Creio que não e é por isso que a nossa visão nos determina, nos acresce ou nos reduz. Mas se nos mostrarem, sim, vemos. Este é um recurso imemorial, mesmo a Bíblia o inscreveu.
MSP - F
A exploração diarística e plástica de Manuel San-Payo não é uma exploração do horizonte pessoal da atenção? Nascem flores, crescem rostos, germinam as ruas e a maturação dos edifícios, explodem na direcção do retorno à semente, ao seu criador. Toda a expressão artística é seminal. Não será por isso que em diferentes tradições religiosas a representação do Início está centrada na representação do falo e o cosmos na ejaculação?
MSP - IP
A tela, a página, na verdade, o espaço, ou se preferir o silêncio, não estão em branco ainda que neles se abra na sua maior dimensão a liberdade: as fronteiras são as que o próprio artista delimita através da sua consciência da vida, pois não há outras fronteiras - são a circunscrição do seu mundo.
MSP - vii
Há uma voz. Ou um traço, a luz que rasga, o sopro. Como? Que mundo é esse? O mundo inescapável da infância visto com os olhos do adulto, os dias da inescapável realidade vistos com os olhos da criança que nunca deixou de estar presente. Como em Bunny & Bear no tempo em que a crueldade e a inocência coabitam pacificamente e o sangue tinge a vida.
B&B
Os doze anos de Manuel San-Payo não são aspiracionais, só na canção evocativa, são o fruto desta impossível coincidência temporal. E no entanto, ela existe e fora dela, nada existe que não seja sonho.

Toda a realidade é interpretativa, e nós somos o sujeito que a intervenciona. Manuel San Payo vem lembrar-nos disto.

3 de julho de 2013

A História do Cão que Comeu um Picasso




Não sou só eu e o Cão. Nem foi só Camilo Pessanha e Arminho. Ou Jo-Fi e Freud. Frida Kahlo e os xoloitzcuintli lailailailai. Ou só Audrey Hepburn com os lindos yorkies Mr Famous e Assam. E se pelo meio houve veados, falcões, cabras e até pombas, pois tive uma lebre. Não sou só eu e o Cão. Nem eles apenas. Há outros. E este é o meu preferido - estou em boa companhia.

2 de julho de 2013

Bonjour Mundo!

let there be you
let there be me
let there be oysters
under the sea
let there be wind
an occasional rain
lailailailai
sparkling champagne
let there be birds
to sing in the trees
someone to bless me
whenever I sneeze
let there be cuckoos
a lark and a dove
but first of all please
Let there be love
lailailai
sparkling champagne
lailailai
let there be love
let there be love
let there be love

1 de julho de 2013

Bonjour Mundo!

well
you make me wanna shout
look my hands jumpin'
look my heart's thumpin'
throw my head back
come on now
lailai don't forget to say you will
don't forget to shout
yeah yeah yeah yeah yeah
lailailai