1 de junho de 2013

Herberto Helder - só por causa de Manuel António Pina

OS LIVROS
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo "eu"entre nós e nós?
Manuel António Pina,  in Como se Desenha uma Casa, A&A, 2011

OS  LIVROS
Hoje, quando acordei, o meu pensamento foi para Manuel António Pina. E não foi um bom pensamento. Ficava-me bem dizer que foi por causa de um verso dele, de uma linha. Mas ele e eu não precisamos disso entre nós. Explico.
Não conheci Manuel António Pina. Fui conhecendo, poema a poema, crónica a crónica. Faz-me muito feliz ter com quem ir pensando coisas que também penso, e as outras, aquelas que sem a pessoa estar presente na nossa vida nunca nos passariam pela cabeça. Tenho muita sorte. Tenho bons poetas ao meu lado, andam, vaidosões, armados em versos pela casa toda.
Não seria melhor se estivéssemos juntos, na esplanada, a tomar café. Pelo contrário. Haveria todo aquele incómodo cheio do ruído que embrulha o pensamento, o corpo,  e mesmo a vida para além do cinco sentidos. O relógio, as diferenças irreconciliáveis e, de certeza, as picuinhices enervantes que só têm beleza quando se ama de carne e osso, quando se ama assim de cama e fogão.
Só me aborreci com o Manuel António Pina uma vez. Há bondade nele - ora isso dificulta até o mau génio de uma pessoa como eu. Foi quando ele morreu. Porque me lembrei da história do almoço para as trezentas pessoas que compram livros de poesia em Portugal. Ele tinha escrito isso numa crónica. E nesse dia, de irritada que fiquei, só me apetecia atirar-lhe à cara a traição daquela reunião que não se fez e à qual não iria. Para quê? Fazer o quê? O que é que se diz a alguém de quem se gosta tanto de ler e ter à disposição egoísta na estante:  leio sempre o que escreve, gosto muito, obrigada. E depois fica-se ali num constrangimento de 2 de Paus por não haver nada a acrescentar. Tudo quanto é importante não tem palavras quando lhe falta o quotidiano do convívio, o conforto do abraço. E a conversa de circunstância está aquém demais até para os tímidos.
Hoje, quando acordei, o meu pensamento foi para o Manuel António Pina. Com quem então trezentos?! E ele nada. E o livro do outro, cinco mil exemplares, foi-se ao ar. Nicles. E ele nada. É melhor mudar o almoço para um pavilhão para enfiar os 4700 que faltam. E ele nada. Uma paciência de santo.
Sei que ele já me perdoou por ter um humor terrível, daqueles que pega e não larga, e insiste, tão chata quando algo importante me foge e não entendo, não quero - que nervos!
Sei. Tenho Servidões na mão.