15 de junho de 2013

Contos de uma página só - i

Todas as memórias são o rasto das lágrimas
2046,  
Wong Kar Wai
A FILHA DE JOHN WAYNE
Caminhavam de mãos dadas. Ele nem sabia o que fazer dos dedos, via-se nos dentes de cavalo novo a alegria igual à dos dedos, tudo irrequieto, a anatomia palpitante, o andar elástico. Poderia dizer-se que a felicidade era para sempre: também o mundo era um cavalo jovem, via-se na noite sem mácula de aragem. Mais tarde, céus de verão assim, só pintados nas igrejas decoradas mesmo rente ao terramoto que varrera tudo menos aquelas abóbadas de cenário popular.
Uma vez, em pleno velório, ela pusera-se a pensar nisto enquanto choravam em redor do morto. E ela como se nada fosse de olhos pregados no papel de lustro azul a tentar ler a data por retocar havia séculos: 1768. Lá te aguentaste nas canetas, disse às tábuas pintadas acima. Era uma cabra insensível. Morressem, morressem, logo que o corpo frio não fosse seu em nada, engolia e aguentava-se nas canetas também. A inocência que se fodesse, não trazia nada de bom a ninguém: só espalhava o seu cheiro a carne doce a cada passo, e o perigo no encalço. Não havia raça mais nojenta do que o homem. Se não houvesse a luz do dia e gente em volta eram animais e, ali mesmo, em plena rua, lhe rasgariam a carne depois da roupa. Compreensão? Compaixão? Isso é coisa de fracos ou de bêbados. Um homem só entende duas línguas: a da dor e a do prazer e só uma o prende: a que fala com ele, bífida.
O que falta à educação é a sinceridade. Tudo é bons modos e escola de cortesia para tratar com hienas. O sofrimento, ao contrário, é uma escola que não esquece e prepara bem. Só depois disso se pode ser feliz, quando se vê a morte e se lhe diz: foge senão mato-te. Vivemos porque deixam. Esta é a verdade.
Fosse como fosse, agora ele era uma hiena como outra qualquer, dia a dia, misterioso e genético, encolhera, ganhara pêlo, pusera no chão as patas dianteiras onde antes tivera braços, e as mãos que apertavam de júbilo as dela. A juventude é muito muscular, os tendões têm vigor para amparar o impacto do salto de um homem acabado de nascer homem: quando ama pela segunda vez, é com a fúria da primeira: volta-lhe a fome das entranhas com que agarrou e sugou o leite à mãe. Só que àquela mulher pode comê-la toda de tanta liberdade. Consegue agarrar o sol e lento, cheio dele, retorna à terra, dá-lhe a mão, porque ela é divina, e por ela mata e morre - se não fosse divina, esquartejava-a como uma vaca. É tudo sangue em ramos de rosas e elas, cegas, só vêm as flores, metem dó. Compreensão? Compaixão? Pode dar-se-lhes um pontapé como a um fraco ou um bêbado.
O facto é que, ao fim de tanto tempo, estavam os dois na cidade. Era domingo e o rio ao fundo. O Terreiro do Paço desolado de calor abria tais brechas na terra seca que a calçada estalava. Não se suportava a claridade e as pessoas passeantes enfiam-se arcadas adentro e desapareciam na sombra das pedras largas.
Deus explicou tudo e mesmo a literatura, a matemática. A simetria dos olhos, das pernas, dos pés mostrou-o também: um par não são dois. São dois iguais, um à direita, o outro à esquerda. Um par é o dia e noite. Perseguem-se porque são um. Como dois inimigos ou velhos amantes já no fio do ódio.
Ninguém viu aquela hiena enorme sair da água, arreganhada subir as escadinhas do cais. Vinha potente, alfa da sua rua, húmida. Ninguém viu porque de dentro das colunas frescas tinham os olhos na mulher de preto, parada no centro ardente do terreiro, de preto e saltos altos. Com as mesmas mãos de antes, com a mesma vontade, segurava agora uma arma. Quieta a espreitar a margem. Só se juntaram para ouvir o estertor da besta nas suas últimas palavras. Quando ela, sem dó nem arrependimento, lhe perguntou:
- O que vieste fazer?
- Vim morrer. E tu?
- Vim matar-te.