10 de maio de 2013

O meu amor


Um perfect date. Aposto que o amor está a pensar: ah, pois é...
De vez em quando lá vem a pergunta: porque é que não tens namorado? E zás. Há verdades que só se podem dizer a estranhos. Gostava tanto de gostar de namorar. Mas para isso tinha de gostar do namorado como gosto do meu amor. Ah, então tem um amor... Claro que tenho. Cresci a pensar nele. Mesmo antes de aprender a escrever já sabia muito bem que havia um amor meu ainda que não soubesse quem ele era. Mas estava desejando de o conhecer pois mal o visse... és tu. A felicidade é como o algodão do reclame: não engana.
De vez em quando lá vem a pergunta: não te cansas de estar sozinha? Eu? Ando acompanhada. Quando vou ao supermercado ponho rímel nas pestanas - não vá dar-se o caso do amor aparecer do nada. Já treinei o meu olhar, aprendi num filme: fito-o, de repente, sorrio um segundo até ao fundo, e depois finjo que nem o vi. Ele, coitado, há-de ficar fulminado, ali. Só não o vi todo estatelado porque ele não faz compras onde faço.

Já sabia, diz o amor, estou bem lixado... - ó, pois está, coitado.
De vez em quando lá vem a pergunta: queres jantar comigo? Não. Para quê? Aborrece-me de morte o jantar do pavão, fico má, apetece-me arrancar-lhe as penas e vendê-las ao Carnaval do Rio. O meu amor não iria convidar-me para esse jantar que só de pensar me faz engordar. Há-de levar a comer porcarias daquelas que enjoam tanto que se acaba a rir, a dizer, juro que nunca mais: cachorros de rua, sobremesa de algodão doce, sumol. Ai quem me dera que fosse manhã. E que lhe caísse uma nódoa de mostarda na camisa branca para lha apontar e fazer pouco dele.
De vez em quando lá vem a pergunta: não estás farta de esperar? Podia mentir e queixar-me muito. Mas a verdade é não. O meu coração é mais firme do que qualquer chão. O meu amor é meu. Decerto um dia saberá. Quando souber, vem. E eu não quero mais ninguém.