24 de maio de 2013

A físico-química da Sorte

Gosto de cozinhar. E de fazer doces, mesmo bolos logo que não levem farinha. Faço coisas com farinha, claro: pão disto ou daquilo, mas quase sempre de azeitonas, mesmo bôlas, lindas e altas como só no norte, tartes doces ou salgadas, agora lá bolos com farinha é que não - é uma incompatibilidade. Em contrapartida tudo quanto seja de ovos, açúcar, amêndoa, até quando penso que os desgracei, saiem bem. E compotas. Arroz doce. Mousses. Nougat. Praliné não faço senão comia-o todo apesar de não gostar de quase chocolate nenhum. Há um que me dá volta ao juízo. Felizmente está em São Tomé e em pouquíssimos sítios mais. É uma perdição. Xô.
Isto porquê? Estava aqui a pensar que a Sorte deve ser a consciência da proporção equilibrada do positivo com o negativo. Quer ver?
Comprei um açúcar moreno tão bom que eu que não gosto de açúcar que se sinta, até o experimentei na ponta do dedo. Delicioso. Foi uma daquelas coisas: bateu-me nos olhos, comprei-o, provei-o e sabia exactamente como imaginara. As papilas gustativas da menina língua têm imaginação - é natural, pois se têm memória...
E comprei umas mangas tão más que eram impossíveis de comer. Bandidas! Raramente uma manga me engana, conheço-as de gingeira. A fruta que me engana é a ordinária da melancia e o sonso do melão, logo a mim, que gosto tanto deles que faço o figurino completo: aperto, cheiro, ouço, e depois, zás, pepinos. Isto é mentira - já foi verdade. Desde há dois anos para cá perdi a vergonha: quando vejo alguém a rondar melões e melancias com aquele ar de, conheço-te, estampado na cara, aproximo-me e digo: gosto tanto mas só tenho dedo para pepinos, escolhia-me um? Olhe, sou um génio com pêssegos, se quiser, é um gosto. Obviamente, tudo isto é quando vou ao supermercado, porque quando vou ao meu mercado secreto até as melancias estalam de doces nas traseiras do carro.
Eis a Sorte: excelente açúcar, papilas gustativas atentas, péssimas mangas. Resultado: um chutney de manga perfeito. Quer provar?