22 de maio de 2013

A Casa - viii

Peder Severin Kroyer, Summer Evening at Skagen, 1892


UMA ESMERADA DESEDUCAÇÃO - O PRÉMIO
O meu avô e a minha avó eram tão diferentes quanto um homem e uma mulher podem ser pelas definições da natureza e das circunstâncias. Onde um era baixo, a outra era alta. Se ele era moreno, ela loira. Olhos líquidos de pretos e verdes de musgo.
E no resto. O pai deste meu avô, o meu bisavô Manuel, aquele que tinha um pato de estimação que ia com ele para todo o lado, era um homem pequeno, seco e compacto, o cabelo era uma escova branca e rija, e de uma voz baixa e mansa cuja autoridade se fazia ouvir por todos os lados, na pontualidade, na distância do respeito e em mais que tudo no silêncio em volta. Tinha de ser assim, foi ele quem recusou o que a vida lhe deu de herança, nada, para inventar uma vida para os filhos que havia de ter. Queria-os sólidos para garantir que aguentariam caso, como nas casas dos três porquinhos, o lobo soprasse forte. Queria-os, sem liberdades, para a engenharia, coisa segura.
Porém, o seu filho mais novo, o meu tio António, tenor e doente de nascença, encheu-lhe a casa de música e do raio daquela inexplicável doçura de quem ama e vê a beleza toda pelas frestas do quotidiano por saber que cedo vai perdê-la. O meu avô era igual no desalinho da carreira, apaixonado pelo desenho e pela pintura, e adorava o seu irmão António – digo assim porque era assim que ele dizia, o meu irmão António, a vida inteira ao lado dele esta mancha luminosa e a religião da Deutsche Grammophon para o invocar pelo lado de dentro de outras vozes, talvez mediúnicas.
Ora, o meu bisavô não podia dar-se ao luxo de educar estetas e, ao meu avô, fechou-lhe as portas das Belas Artes. O meu avô desde esse dia não riscou um traço. E tinha uma grande implicância com o amadorismo e a criatividadezinha.
Uma vez, há muito tempo, era pequenina, ainda existia a 4ª classe, ganhei um prémio. Naquela altura chamava-se fazer redacções. Num máximo de 25 linhas tinha de contar-se uma história. A Irmã mandou-me fazer o texto, todavia deu-me indicações precisas: não quero cá os temas que costuma escrever, ouviu? Trate de fazer um conto como os de encantar, fadas, percebeu? E que ninguém morra, muito menos afogado, ninguém adoeça, nem fantasmas, nem criadas, nem a Nossa Senhora, nem panelas de pressão, e não quero lá a vida de gente crescida.
Segui quase todas as instruções - da morte é que ninguém escapa: fiz a redacção e ganhei o prémio. A coisa foi para jornal.
E o meu avô disse-me: fico muito contente que tenha ganho o prémio para o seu colégio. Mas teria muito mais orgulho em si se o tivesse perdido.