15 de abril de 2013

Bonjour Mundo!


BLISS
No outro dia estava a pensar uma grandessíssima verdade: muito melhor do que começar do princípio é recomeçar do ponto em que se está. É mais feliz porque nada do que somos vai fora e mais inteligente porque usamos os nossos erros como ferramentas para acertar.

9 de abril de 2013

Porque hoje é terça-feira

Para Ruy Belo, contigo

SOMOS DE LONGE E TEMOS DE VOLTAR
Uma casa, um lugar: o coração
o tempo onde, afinal, existíssemos
fora deste problema da habitação
É nómada a tua língua e a minha
dizemos palavras sem morada
desmontando a cada dia as tendas
e a poesia sem retorno e sem adeus
Não posso chegar nem a ti nem a Ele
nem deixar de caminhar para ti e até Ele
Vivo, amo e digo como quem reza
entre isto e a morte inscrevo o vazio da fé
nele levanto uma casa, um lugar: o coração

Bonjour Mundo!

oh sometimes i get a good feeling yeah

i get a feeling that i never never never never had before no no

and i just gotta tell you right now that i

that i believe i really do believe that lailailailai


6 de abril de 2013

Só gosto de ti


Laetitia Casta fotografada por Dominique Isserman
Laetitia Casta fotografada por Dominique Isserman
As revistas ditas femininas falam muito de sexo. Falam demais até porque é muita parra e pouca uva. Partem de uma perspectiva completamente estapafúrdia e do tipo, vá, pedagógico: como reavivar o desejo perdido; one night stand – uma experiência libertadora que pode reacender a chama que perdeu; como a relação extra conjugal pode apimentar o seu casamento; comunicação - a porta para uma nova vida sexual. E por aí vai de despropósito em despropósito a ensinar uma mulher a tratar um homem como se ele fosse uma mulher. E ela fosse um homem, de vez em quando. Está tudo doido?
Ouço mil conversas de mulheres sobre os homens e lailailai.
Atenção selectiva é o que interessa. E o que interessa é o que funciona. Sim, conheço mulheres bem amadas. São frescas. São giras. Estão de bem com a vida.
Laetitia Casta fotografada por Dominique Isserman
Laetitia Casta fotografada por Dominique Isserman
Acha que mariquices que só servem para encher páginas e vender publicidade funcionam? Não há vida sexual nenhuma que melhore porque encheu a casa de velas perfumadas a ponto de espirrar ou pegar fogo aos cortinados! Ou porque teve uma conversa sobre a relação – que seca do caneco. Ou porque dormiu com um palhaço que não conhece nem quer conhecer - ui que nojo! Isso lá interessa a alguém? Só se for uma estratégia para que o seu amor desapareça e não volte.
Quer a atenção do homem que ama? Não lhe compre um postal fofinho. Olhe, compre-lhe uma gravata ou outra coisa qualquer, tanto faz, e depois vista-se só com ela. Isso é um presente. Quando recebe um gosta que seja a seu gosto, numa caixinha, com laço, talvez flores? Pois um homem prefere que o laço esteja à volta do seu pescoço, da sua cintura, e a flor no seu cabelo. Ou onde lhe apetecer.
Laetitia Casta fotografada por Dominique Isserman
Laetitia Casta fotografada por Dominique Isserman
Os homens são bichezas simples no que diz respeito às mulheres: gostam de ser amados, gostam de sexo. Expressam o amor que sentem, pasme-se, sexualmente e, muito importante, fazendo coisinhas do tipo gato que finge que é um animal doméstico porque caçou um rato e o foi entregar a quem lhe deu comida. Falsos! São uns falsos! Gostam de mulheres que gostam de sexo com eles e deles. Gostam de brincar ao gato e ao rato, à vez. E de mandar e ser mandados. Não gostam de monogamia, detestam, contudo também não querem que joguem a mãozinha ao que é deles.
Portanto, se as meninas querem saber de roupa, sapatos e maquilhagem, e outras novidades de coisinhas boas, comprem lá as revistas do costume, todavia lixem-se na psico-pedagogica de alcova.
Querem, sei lá, que a atenção de um homem não se, como direi, disperse? Leiam o que eles lêem e prestem atenção aos bonecos: Playboy e afins – e não, não estou a falar da parte dos carros e das motas.
Já sei, já sei. Está a pensar que sou uma machista de quinta porque você, mulher superior, recusa-se a ser um objecto sexual e prefere que seja ele a mexer-se para lhe agradar. Pois, está muito bem, faça lá como lhe parecer adequado, mas sempre lhe digo: eles preocupam-se mais do que imagina, e por esse andar a minha querida ainda vai acabar a ler as quinhentas mil sombras de Grey, a sonhar com um tau-tau, e a comer batatas fritas. E chocolates. Na caminha. Enquanto ele ressona.

3 de abril de 2013

ART ME UP - x


ART ME UP
ANA VIDIGAL – vi – SÃO PAULO 2013 - LE JOUR EN FEU: la mer allée avec le soleil
LE JOUR EN FEU DE ANA VIDIGAL
A SP-Arte 2013, Feira Internacional de Arte de São Paulo, decorre de 4 a 7 de Abril e conta com a participação de galerias de diferentes países do mundo. A Galeria Baginski e os trabalhos de Ana Vidigal estão presentes.
Estes trabalhos são três pinturas, técnica mista sobre telas grandes de nos encher o olho, a mais pequena de um metro e trinta por um metro e trinta, a maior de um metro e noventa por um metro e oitenta; e um desenho, técnica mista sobre papel, de menores dimensões – 81x60x10. Em todos o material de eleição da pintora: a recolecção perfeitamente organizada de revistas e gravuras, dos lavores femininos à banda desenhada, para, através da desconstrução das mesmas, e da sua reconstrução numa lógica pessoalíssima, nos dizer do dia de hoje com a informação de ontem. É mais ampla a visão que, assim, no presente actualiza o passado, não para o reviver, mas para lembrar de onde viemos, quem somos e quem podemos ser. E Ana Vidigal fá-lo recorrendo ao corta e cola, camada sobre camada, uma técnica de atenção laboriosa no atelier que formiga no contínuo da própria casa que habita.
Fotografia de Jorge Catarino - montagem do stand na SP- Arte 2013
Fotografia de Jorge Catarino - montagem do stand na SP- Arte 2013
Mas estes trabalhos de Ana Vidigal pedem, por uma vez, outro modo para os contar que não o discursivo. São celebratórios num tempo em que o céu é de chumbo porque nos devolvem o gasoso volátil, tão leve, do amor. Inebriam. Envolvem-nos o pensamento num ritmo e raciocínio líricos. Estamos apaixonados.
Se Ana Vidigal fosse poeta e estes trabalhos, pintura e desenho, fossem poemas, diríamos: estamos diante de velhos vocábulos e com eles se inventa a frescura da frase.
Antigos, conhecidos, usados, familiares como o roupão, as pantufas e as olheiras matinais, e utilitários como a neurose do relógio e as próteses telemóvel, óculos, pc, estamos diante de velhos vocábulos, e todos como se nunca antes: é o amor. O amor é sempre como se nunca antes. Mesmo quando foi papel outrora como agora, cola ontem como hoje. Porque o papel e a cola são os velhos vocábulos da pintura de Ana Vidigal. Porque a frescura da frase está na harmonia da selecção que fez deles folha a folha desta e daquela revistas, na cirurgia do corte, na espessura da linha, na palavra que irrompe aqui e ali se esconde, na cola que junta e recria a opacidade e a transparência. O amor, o velho amor, em cada vez que se lembra de amar, é sempre ao primeiro amor, é sempre a primeira vez.
É assim que, agora pelo avesso, quem nos acha é o Brasil: acabadinhos de nascer do entretecido da nossa própria história pessoal, resguardados no nosso primeiro canto por um biombo de verniz translúcido.
BEIJOCA, técnica mista sobre tela, 130x130cm
Ana Vidigal, 2013, BEIJOCA, técnica mista sobre tela, 130 x 130cm
Disse nos acha, disse. A nós. Porque é natural a apropriação da arte. A arte é nossa. O artista é nosso. Somos nós ali na pintura de Ana Vidigal: em Fevereiro, o mês mais curto, ao som miudinho do xequerê, cabaça oca envolta em contas, no passo dançado que o Berimbau marca, ai, suspiramos um Suspirinho, azul porque sobe ao céu, malandro numa Beijoca, chuac, junto com o nosso ai. Ai tão bom!
Ana Vidigal, 2013, SUSPIRINHO, técnica mista sobre tela, 146 x 114
Ana Vidigal, 2013, SUSPIRINHO, técnica mista sobre tela, 146 x 114
Que pintura é esta onde da velha história Ana Vidigal faz como se nunca antes, faz outra vez a primeira vez? Como?
Tira a tira. Fio a fio. Houve, há, uma relação íntima entre a pintura e a tapeçaria. A primeira era passada para cartões que custavam fortunas, coisa para bolsas reais, e depois, fio a fio, em minúcias repetitivas, obsessivas no tac-tac de teares de mil horas, crescia até da pintura se fazer um corpo maleável, pesado e tangível.
Fotografia de Ana Vidigal, 2012, atelier
Fotografia de Ana Vidigal, 2012, atelier
Há uma tecedeira aqui: coincide com a pintora tanto quanto a pintura coincide com a tapeçaria: mil fios para nascer. Hoje como se nunca antes. É o amor. Corre luminoso por entre os dedos, tac tac, uma tira de cada vez, mil, cola vezes mil, é o amor. Nascemos.
Ana Vidigal, 2013, FEVEREIRO, o mês mais curto (xequerê), técnica mista sobre papel, 190 x 180
Ana Vidigal, 2013, FEVEREIRO, o mês mais curto (xequerê), técnica mista sobre papel, 190 x 180
Assistimos ao nosso próprio nascimento quando nos vemos no olhar de quem nos ama, e feitos dessa matéria vamos à vida como somos: amor. Somos os mesmos mas somos outros: as nossas virtudes florescem das páginas desfeitas e refeitas. Na linha do x-acto todas as cores em botão se abrem, e as nossas falhas coladas redimem-se pela aceitação: porque nos recebem inteiros, bem e mal, inteira bebemos a vida, néctar e veneno para um elixir de paixão, borbulhante tal champagne, e somos mais, somos melhores, gostamo-nos mais, fazemos melhor. E isto tudo sendo os mesmos vocábulos de sempre.
Abre-se aqui um aparente parêntesis a propósito desta associação livre de dois objectos de valor lançados para dentro de dois objectos de valor. Os dois objectos de valor são dois corpos que transcendem a própria individualidade para ser comunidade. E os outros dois objectos de valor neles lançados são os traços colectivos da identidade e dela na arte. Colocados um diante do outro como espelhos de nós, social e individualmente. É um pensamento denso, este que me ocorreu, mas tenha paciência, explico-o.
O rei foi a encarnação do povo – o rei, o tal lá de cima, o de bolsa cheia para fazer da pintura tapeçaria.
Ele foi a encarnação do povo como o trabalho do artista é, para além de tudo o resto, a continuação e a exploração dos traços comuns da nossa identidade e de como eles criam a nossa história e a interpelam.
Estes traços que nos constituem, e esta dinâmica, estão lá depositados porque os depositamos? Ou porque foi o artista, no caso a pintora que os levou para dentro de si e os lançou na tela? A carne é mística quando é o nós levantado do eu, isto é, quando o objecto artístico nos representa, re-presenta, nos faz presentes – não é diferente do que acontece na comunhão católica, bem vê… o que se comunga, partilha, é o corpo místico de Cristo, são, portanto, as propriedades cristãs que se repartem entre a igreja.
Talvez também por isto, por estarmos de alguma forma presentes, projectivamente presentes, sejam tão extremadas as relações afectivas com os artistas e os seus trabalhos e, por vezes, uma montanha russa. Isto é mais explícito com as estrelas de cinema: passam de amadas a escória num fôlego. Quando não nos revemos, pior quando vemos algo que estranhamos, um anti-corpo, sentimo-nos traídos. Porém somos traídos com a mesma verdade que um bebé quando a mãe o deixa para beber um copo de água e ele se pensa abandonado. Ó raça! a desta nossa carne de desejo uno com o que amamos, a despeito da separação que usamos para ser e sobreviver e ser sobrevividos.
Fecha-se aqui o parêntesis que de facto não se fez.
Fotografia de Jorge Catarino, Baginsky- Ana Vidigal, SP- Arte 2013
Fotografia de Jorge Catarino, Baginsky- Ana Vidigal, SP- Arte 2013
Ana Vidigal trouxe o amor a São Paulo. Que amor?
Amor há só um. Porém, quando é taça cheia, derrama-se sobre a vida, céu, luz, café, a música no ouvido, o beijo do amante, o riso, o livro, uma linha de voo e um verso, derrama-se sobre a vida que a cada dia mais é um dia a menos. É sôfrego o amor que anda assim a contar as batidas do coração, e é contido pelas paredes do tempo – ou do eu temporal, mais exactamente.
Ana Vidigal, 2013, BERIMBAU III, técnica mista sobre papel, 81 x 60 x 10
Ana Vidigal, 2013, BERIMBAU III, técnica mista sobre papel, 81 x 60 x 10
O contínuo do trabalho de Ana Vidigal, a ininterrupção desse trabalho, a contenção com que se delimita e não se contamina nas suas três vertentes, a pintura, o desenho, o trabalho paralelo, são amantes da vida e conscientes do tempo. E quanto mais conscientes do tempo, mais amantes da vida realimentando o motor do trabalho.
O tempo externo é o sino que convoca ao entusiasmo das horas todas até ao inevitável silêncio da voz, ou à quietude eterna da mão. Morremos.
Ana Vidigal pinta e desenha desta forma. Qual? Na ciência do relógio, a olhar o tempo nos olhos. Aqui visível como jamais esse entusiasmo que se auto-sustenta. Entusiasmo, palavra que, etimologicamente, nos coloca en theos, em Deus, portanto, no equilíbrio entre a possessão pela pintura e na possessão da pintura.
Não há arte fora do entusiasmo, é ele quem dá a disciplina da repetição que ela exige, é ele que oferece a resistência à frustração quando a mão não consegue realizar a visão que a cabeça guarda e ficando aquém insiste em ser além, ir além. Vai.
É o entusiasmo que religa a arte à criação original, porque é o entusiasmo que faz do filho o pai; da criatura o criador; e do objecto artístico o memorial da criação. Mil horas. Dia após dia numa rotina onde coabitam o artesão e o artista.
É o entusiasmo, rosto criativo do amor, quem leva o artista ao trabalho e lhe dá o fio para atravessar o labirinto até à saída para outro começo.
E o rosto criativo do amor é a face que temos exposta, hoje, em São Paulo. Não, espelho meu, hoje não há quem seja mais bela do que eu.
*Le jour en feu, do poema L´ETERNITÉ, de Arthur Rimbaud

A Casa - vi



EVITA
Gosto muito de tudo da casa. E de dar conta de tudo da casa, desde saber onde o tapete está puído até ao que está em falta na despensa. Sempre fui assim.
Havia um armário onde se guardava a melhor louça na casa da minha avó. Era muito pequenina e passava horas escondidas, tão cuidadosas, a tirar prato a prato e a pensar mesas perfeitas. Dava uso a tudo, até às peças já só decorativas. A tudo, não escapava nada. E decidia com que talheres. E decidia com que flores. Em que ocasião.
Sempre fui muito Evita: enfeitava-me com uns bons brincos, de preferência uma capinha de vison - sabia lá que não era uma capinha, para o meu tamanho de capuchinho vermelho era -, ensaiava o equilíbrio em cima da vertigem dos saltos altos e pronto, quer dizer, pronta.
Em preparos de grande dame, aos meus olhos, e de grande entroncho, aos olhos da minha avó, em vez de me pôr à conversa em chás de amigas, o que queria era, Evita, ir ver os lençóis estendidos de branquinho lá cima onde secavam, espreitar a ordem dos tanques e da máquina de lavar roupa, sentir o bafo quente do vapor do ferro de passar, entrar no movimento perpétuo da cozinha cheia de naturezas vivas: ervas, legumes, peixe ainda a morrer de tão fresco. E o fogão. Posso ajudar? Qual o quê. Podia era ser enxotada dali para fora. Não há respeito.
Mesmo vestida de crescida, prestes a sair com o marido, voltava para trás: não conseguia resistir à esfregona, à vassoura, à reorganização dos livros por alturas, até ser apanhada em flagrante nestas manobras. Pior. Mandava vir o que me parecia adequado ou fugia de casa para ir pessoalmente comprar e pedia que se pusesse na conta. Coisas prodigiosas e incompreendidas, e em quantidades generosas. Como não tinha autoridade dizia: a avó pediu que lhe dissesse que era para ir à retrosaria buscar fita de veludo da largura de um dedo, em verde escuro, se faz favor, mas é para já. A princípio tinha credibilidade. Depois inventaram um tem a certeza de que foi a avó de muito mau gosto. Deixar uma pessoa assim em xeque…
Nunca me passou pela cabeça que chegada a esta idade não tivesse o meu próprio armário de Ali- Babá da louça. A minha Evita interna e particular não se conforma de não ter a Flora Danica todinha como ela foi feita para a imperatriz Catarina ii da Rússia, mulher ingrata, pois nem esperou pelo serviço de jantar: fez a Frederico da Dinamarca a desfeita de morrer antes de receber o presente - parece mal.
Eu, claro, estou-me bem lixando para a Flora Danica, não tenho a porcelana, não tenho, vejo os bonecos na enciclopédia livres de pratos e travessas.
Mas, ó meu Deus, e aqueles lindos, lindos sinos de gelo espalhados estrategicamente, a espaço certo na minha mesa perfeita? Sim, aquele prato onde deveria estar um pedaço de gelo, tapado por um sino rendilhado por onde se escapasse o frio e a humidade e me refrescasse os convidados em condições? Bem sei, bem sei:
- ó filha, liga o ar condicionado.