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ANA VIDIGAL – vi – SÃO PAULO 2013 - LE JOUR EN FEU: la mer allée avec le soleil
LE JOUR EN FEU DE ANA VIDIGAL
Estes trabalhos são três pinturas, técnica mista sobre telas grandes de nos encher o olho, a mais pequena de um metro e trinta por um metro e trinta, a maior de um metro e noventa por um metro e oitenta; e um desenho, técnica mista sobre papel, de menores dimensões – 81x60x10. Em todos o material de eleição da pintora: a recolecção perfeitamente organizada de revistas e gravuras, dos lavores femininos à banda desenhada, para, através da desconstrução das mesmas, e da sua reconstrução numa lógica pessoalíssima, nos dizer do dia de hoje com a informação de ontem. É mais ampla a visão que, assim, no presente actualiza o passado, não para o reviver, mas para lembrar de onde viemos, quem somos e quem podemos ser. E Ana Vidigal fá-lo recorrendo ao corta e cola, camada sobre camada, uma técnica de atenção laboriosa no atelier que formiga no contínuo da própria casa que habita.

- Fotografia de Jorge Catarino - montagem do stand na SP- Arte 2013
Mas estes trabalhos de Ana Vidigal pedem, por uma vez, outro modo para os contar que não o discursivo. São celebratórios num tempo em que o céu é de chumbo porque nos devolvem o gasoso volátil, tão leve, do amor. Inebriam. Envolvem-nos o pensamento num ritmo e raciocínio líricos. Estamos apaixonados.
Se Ana Vidigal fosse poeta e estes trabalhos, pintura e desenho, fossem poemas, diríamos: estamos diante de velhos vocábulos e com eles se inventa a frescura da frase.
Antigos, conhecidos, usados, familiares como o roupão, as pantufas e as olheiras matinais, e utilitários como a neurose do relógio e as próteses telemóvel, óculos, pc, estamos diante de velhos vocábulos, e todos como se nunca antes: é o amor. O amor é sempre como se nunca antes. Mesmo quando foi papel outrora como agora, cola ontem como hoje. Porque o papel e a cola são os velhos vocábulos da pintura de Ana Vidigal. Porque a frescura da frase está na harmonia da selecção que fez deles folha a folha desta e daquela revistas, na cirurgia do corte, na espessura da linha, na palavra que irrompe aqui e ali se esconde, na cola que junta e recria a opacidade e a transparência. O amor, o velho amor, em cada vez que se lembra de amar, é sempre ao primeiro amor, é sempre a primeira vez.
É assim que, agora pelo avesso, quem nos acha é o Brasil: acabadinhos de nascer do entretecido da nossa própria história pessoal, resguardados no nosso primeiro canto por um biombo de verniz translúcido.

- Ana Vidigal, 2013, BEIJOCA, técnica mista sobre tela, 130 x 130cm
Disse nos acha, disse. A nós. Porque é natural a apropriação da arte. A arte é nossa. O artista é nosso. Somos nós ali na pintura de Ana Vidigal: em Fevereiro, o mês mais curto, ao som miudinho do xequerê, cabaça oca envolta em contas, no passo dançado que o Berimbau marca, ai, suspiramos um Suspirinho, azul porque sobe ao céu, malandro numa Beijoca, chuac, junto com o nosso ai. Ai tão bom!

- Ana Vidigal, 2013, SUSPIRINHO, técnica mista sobre tela, 146 x 114
Que pintura é esta onde da velha história Ana Vidigal faz como se nunca antes, faz outra vez a primeira vez? Como?
Tira a tira. Fio a fio. Houve, há, uma relação íntima entre a pintura e a tapeçaria. A primeira era passada para cartões que custavam fortunas, coisa para bolsas reais, e depois, fio a fio, em minúcias repetitivas, obsessivas no tac-tac de teares de mil horas, crescia até da pintura se fazer um corpo maleável, pesado e tangível.

- Fotografia de Ana Vidigal, 2012, atelier
Há uma tecedeira aqui: coincide com a pintora tanto quanto a pintura coincide com a tapeçaria: mil fios para nascer. Hoje como se nunca antes. É o amor. Corre luminoso por entre os dedos, tac tac, uma tira de cada vez, mil, cola vezes mil, é o amor. Nascemos.

- Ana Vidigal, 2013, FEVEREIRO, o mês mais curto (xequerê), técnica mista sobre papel, 190 x 180
Assistimos ao nosso próprio nascimento quando nos vemos no olhar de quem nos ama, e feitos dessa matéria vamos à vida como somos: amor. Somos os mesmos mas somos outros: as nossas virtudes florescem das páginas desfeitas e refeitas. Na linha do x-acto todas as cores em botão se abrem, e as nossas falhas coladas redimem-se pela aceitação: porque nos recebem inteiros, bem e mal, inteira bebemos a vida, néctar e veneno para um elixir de paixão, borbulhante tal champagne, e somos mais, somos melhores, gostamo-nos mais, fazemos melhor. E isto tudo sendo os mesmos vocábulos de sempre.
Abre-se aqui um aparente parêntesis a propósito desta associação livre de dois objectos de valor lançados para dentro de dois objectos de valor. Os dois objectos de valor são dois corpos que transcendem a própria individualidade para ser comunidade. E os outros dois objectos de valor neles lançados são os traços colectivos da identidade e dela na arte. Colocados um diante do outro como espelhos de nós, social e individualmente. É um pensamento denso, este que me ocorreu, mas tenha paciência, explico-o.
O rei foi a encarnação do povo – o rei, o tal lá de cima, o de bolsa cheia para fazer da pintura tapeçaria.
Ele foi a encarnação do povo como o trabalho do artista é, para além de tudo o resto, a continuação e a exploração dos traços comuns da nossa identidade e de como eles criam a nossa história e a interpelam.
Estes traços que nos constituem, e esta dinâmica, estão lá depositados porque os depositamos? Ou porque foi o artista, no caso a pintora que os levou para dentro de si e os lançou na tela? A carne é mística quando é o nós levantado do eu, isto é, quando o objecto artístico nos representa, re-presenta, nos faz presentes – não é diferente do que acontece na comunhão católica, bem vê… o que se comunga, partilha, é o corpo místico de Cristo, são, portanto, as propriedades cristãs que se repartem entre a igreja.
Talvez também por isto, por estarmos de alguma forma presentes, projectivamente presentes, sejam tão extremadas as relações afectivas com os artistas e os seus trabalhos e, por vezes, uma montanha russa. Isto é mais explícito com as estrelas de cinema: passam de amadas a escória num fôlego. Quando não nos revemos, pior quando vemos algo que estranhamos, um anti-corpo, sentimo-nos traídos. Porém somos traídos com a mesma verdade que um bebé quando a mãe o deixa para beber um copo de água e ele se pensa abandonado. Ó raça! a desta nossa carne de desejo uno com o que amamos, a despeito da separação que usamos para ser e sobreviver e ser sobrevividos.
Fecha-se aqui o parêntesis que de facto não se fez.

- Fotografia de Jorge Catarino, Baginsky- Ana Vidigal, SP- Arte 2013
Ana Vidigal trouxe o amor a São Paulo. Que amor?
Amor há só um. Porém, quando é taça cheia, derrama-se sobre a vida, céu, luz, café, a música no ouvido, o beijo do amante, o riso, o livro, uma linha de voo e um verso, derrama-se sobre a vida que a cada dia mais é um dia a menos. É sôfrego o amor que anda assim a contar as batidas do coração, e é contido pelas paredes do tempo – ou do eu temporal, mais exactamente.

- Ana Vidigal, 2013, BERIMBAU III, técnica mista sobre papel, 81 x 60 x 10
O contínuo do trabalho de Ana Vidigal, a ininterrupção desse trabalho, a contenção com que se delimita e não se contamina nas suas três vertentes, a pintura, o desenho, o trabalho paralelo, são amantes da vida e conscientes do tempo. E quanto mais conscientes do tempo, mais amantes da vida realimentando o motor do trabalho.
O tempo externo é o sino que convoca ao entusiasmo das horas todas até ao inevitável silêncio da voz, ou à quietude eterna da mão. Morremos.
Ana Vidigal pinta e desenha desta forma. Qual? Na ciência do relógio, a olhar o tempo nos olhos. Aqui visível como jamais esse entusiasmo que se auto-sustenta. Entusiasmo, palavra que, etimologicamente, nos coloca en theos, em Deus, portanto, no equilíbrio entre a possessão pela pintura e na possessão da pintura.
Não há arte fora do entusiasmo, é ele quem dá a disciplina da repetição que ela exige, é ele que oferece a resistência à frustração quando a mão não consegue realizar a visão que a cabeça guarda e ficando aquém insiste em ser além, ir além. Vai.
É o entusiasmo que religa a arte à criação original, porque é o entusiasmo que faz do filho o pai; da criatura o criador; e do objecto artístico o memorial da criação. Mil horas. Dia após dia numa rotina onde coabitam o artesão e o artista.
É o entusiasmo, rosto criativo do amor, quem leva o artista ao trabalho e lhe dá o fio para atravessar o labirinto até à saída para outro começo.
E o rosto criativo do amor é a face que temos exposta, hoje, em São Paulo. Não, espelho meu, hoje não há quem seja mais bela do que eu.
*Le jour en feu, do poema L´ETERNITÉ, de Arthur Rimbaud