4 de janeiro de 2013

É assim



AS LÁGRIMAS DE EROS
O grande amor tem mil rostos e até brinca connosco e mostra-nos a língua como os miúdos  - nha nha nha. Lembrei-me disto por pura falta de tempo. Explico.

Como todas as pessoas que escrevem muito depressa, tenho, depois, muito o que corrigir, e isso é tão devagar. E porque quero tanto escrever bem, há capítulos que se ensaiam inteiros, horas e horas medidas em caracteres só para me mostrarem que não é aquela a verdade que tinham para dizer. É filha da puta! esta autonomia da página. Letras em linhas de lixo suficientes para dar a volta ao planeta, imagino.

Lembrei, então, não onde li, nem há quanto tempo, mas era, porra, um acto de amor com aquela coisa devocional que sempre o amor traz. E daquele carácter admirativo sem o qual também é difícil conceber um amor assim. Lobo Antunes corrigia, refazia parágrafos inteiros, minuciosos, a Cardoso Pires – que terra é esta onde se esquece a cada dia a limpidez da frase de Cardoso Pires – e vice-versa, para depois ficar tudo na mesma, ou quase como antes da correcção. Ou não.

Não se nota, bem sei, porém preciso de pouquíssima aprovação para o que escrevo – talvez porque já não escreva com expectativas, um leitor ou mil, é-me igual. O que me falta é aquela correcção para escrever melhor, para conseguir dizer aquilo que quero e como. Quem me corrija dessa forma, há-de acreditar que me vou às palavras para viver.

Vistas bem as coisas, se calhar preciso do que toda a gente precisa. Do amor que nos ame porque nos vê com olhos de Superman e nos faz existir completamente. E esse amor pode, deve, mesmo com violência irromper pela frase dentro e desfazê-la para a refazer, só por infinda ternura. Há intimidade, a mais íntima, entre o amor e a violência de freio tenro, terno. Mundo em comum.

É o tempo a correr que nos empurra para uma grande solidão, mesmo acompanhada: dizer o quê fora da linguagem dos bichos? Posso abraçar o meu sobrinho, e virá-lo de cabeça para baixo, sorrir-lhe logo ele entra na sala, ou levá-lo à escola. Tudo amor de bicho.

O outro, o da comunhão, o do mundo em comum, estamos aqui, tu e eu, um num outro, um para o outro, comunhão episódica, apaixonada, sei lá, lixe-se, agora, hoje, tenho-a com um Bataille em fim de si mesmo, enquanto escreve para mim as Lágrimas de Eros.