29 de janeiro de 2013

ART ME UP - viii


ART ME UP
ANA VIDIGAL - vi - CARTAS DE AMOR (carta de Pilar del Rio) Edição Abraço
PELA METADE


Haverá um livro colectivo. Terá por título, Cartas de Amor. Será editado pela Abraço. Cada carta será iluminada por uma imagem. Haverá uma carta de amor escrita por Pilar del Rio. Essa carta será iluminada por Ana Vidigal.

Não li a carta. Não falei com Ana Vidigal. Sei o que vejo e como São Tomé, creio: faço a translação do objecto artístico que exige a rotação das perguntas – toda a subjectividade assenta na inclinação do eixo pessoal. Paciência. Objectivamente: o que é arte?

Vejo.

Envelopes.
As cartas de amor que são? Vida enfiada pelas linhas de escrita adentro. Palavras feitas de letras são código refeito por dois amantes e assim, mais do que de letras, um abc inaugural: sempre que dois se amam por escrito, é da tinta que nasce o Verbo. Vida.

A água que se quer dar a beber, vida, precisa de uma mão em concha. O que se quer dizer, a vida, corre, precisa de expressão que contenha e escrevo-te uma carta, continente da vida, mas depois de escrita já é conteúdo, e precisa de um continente, de uma mão em concha que a navegue até ao destino dos teus lábios, e ao fim lhes dê de beber. O envelope é a mão em concha até à sede.

E o envelope é a pele que veste o corpo da carta, lhe protege a intimidade, lhe esconde as entranhas. A essencial homeostase dos signos da carta dentro é o envelope que a regula fora: dobra-se para fechar melhor, guardar melhor, sou um segredo, volta-se, deixa-se abrir, sou o mundo, e sendo amor, somos o mundo em nós - vamo-nos, amor, ao mundo?

Faixas. Preto. Faixas pretas.

Faixas.
Tiras agrafadas, faixas, contêm cada envelope ou envelopes. Afinal, eles não vão a lado algum. A navegação já se fez. Chegaram ao destino ou nunca partiram que é outra forma de chegar porém ao outro lado do eu - ainda és tu mesma depois de mim? Ou és outra já?

Preto.
Preto é sem luz. E é de luto quando sinaliza que uma luz se apagou. Apagou-se. Morreu. Não interessa se continua na memória. Está morta. Ou na saudade. Está morta. Se continua nos filhos, na obra, no diabo a quatro. Está morta e é pó, presente em tudo como as estrelas iluminam na ilusão do tempo que nos chega aos olhos: mortas e iluminam-nos ainda. Nem por isso deixa a morte de ser um corpo que não se pode apertar, uma carne de ausência.

Faixas pretas.
Antes. Sobre a porta um panejamento preto. Os espelhos tapados, uma braçadeira preta nos homens, e a gravata preta, as mulheres de meias de fumo. Fumo. E os envelopes tinham uma tira preta fora a avisar do escuro dentro, a morte dentro. Hoje, metáfora da cor, hora jeuniste, hedónica, nenhum luto se atreve.

Não li. Não falei. Creio como São Tomé. Toda a subjectividade assenta na inclinação do eixo pessoal. Paciência.

Desde Inês de Castro nenhuma morta foi rainha, nenhum morto rei. Ou terão sido em cada vez que o amor disse: onde, ó morte, está a tua vitória?




Nota: onde, ó morte, está a tua vitória? - 1 Coríntios 15:55

Bonjour Mundo!

lailailai
wouldn`t it be loverly lailailai
aow so loverly sittin' abso-bloomin'-lutely still
i would never budge 'till spring
crept over me windowsill
someone's 'ead restin' on my knee
warm an' tender as 'e can be 'ho takes good care of me
aow wouldn't it be loverly
lailai


28 de janeiro de 2013

Goodness had nothing to do with it



REXONA? NÃO. DOVE, O DA POMBINHA.

O politicamente correcto tem, ao longo das políticas e do tempo, ocupado todas as posições do espectro do poder e feito tanto de bem quanto de mal. Foi politicamente correcto matar Lorca, e foi politicamente correcto, em Cuba, despejar os homossexuais num corredor de morte, ou fechar os olhos em visitas guiadas ao campo de concentração de Terezín batendo palminhas ao fim do espectáculo. Como se a cada acção não sucedesse sempre a reacção correspondente, como se o subjugado de hoje não viesse sempre a ser o poderoso de amanhã.

Apesar das maiores atrocidades contra as mulheres continuarem a dar-se sob a capa do multiculturalismo, é politicamente correcto ser multiculturalista. Defenda-se a liberdade da burca e o grito do muezzin, mas calem-se os sinos das igrejas porque tocam alto ao domingo quando uma pessoa quer dormir. Isto para chegar onde?

Há um feminismo que está a acabar com as mulheres tão depressa quanto qualquer machismo ou antípoda cultural de coca tapada da cabeça aos pés. No entanto, ninguém lhe toca: é politicamente correcto.

Debaixo das pedras surgem estudos femininos, narrativas do poder feminino, expressões do feminino que apresentam a mulher sagrada como uma vaca. Das universidades ao cinema, passando pela televisão e pela publicidade. Modelos, afinal, machistas, na sua infinita superioridade, modelos inalcançáveis e intangíveis. Não são a mulher, são a Mãe e mesmo a Virgem Maria. Ou, na melhor das hipóteses, uma besta sadia, o híbrido resultante do cruzamento da Barbie com o Action Man.

Uma mulher não é isto nem isto são modelos para uma mulher. O que daqui advém é o que vemos: adolescentes anorécticas cuja vida se joga entre a celebridade e a entrada em medicina. Ou mulheres adultas, porém eternas filhas de vontade débil que entrarão na velhice sem nunca terem conhecido a juventude, nem outro espelho senão o protésico em silicone, botox e ácidos de preenchimento. Crianças a vida inteira, incapazes do menor gesto de independência, desde a imagem de si mesmas, ao conhecimento da própria identidade.

O cinema e os estudos femininos estão de acordo. Exemplifico. Todos viram em Agora, filme espanhol desenhado tanto para o público norte americano quanto para o europeu, portanto em inglês, e com o apoio de uma grande distribuidora, a reformulação de Hipátia à imagem da Virgem Maria. Substituiu-se a sophrosyne pela castidade e o Espírito Santo pelo brilhantismo académico, os sessenta anos que teria quando morreu pelos menos de quarenta da bela Rachel Weisz. Dessexualizada e à sombra tutelar do pai, o sábio Theon que cumpre o lugar de Deus, nem se atreve a desejo que não seja celeste, científico, filosófico. O corpo é tão negado como em qualquer ascética, tão controlado como o de qualquer anoréctica, tão preservado como o vindo de qualquer mesa de cirurgia plástica.

E temos caixotes de Medeias que são o paradigma da não aceitação do lugar jurídico da mulher na sociedade grega, tidas como referente da mulher insubjugável pelo marido aquando da quebra do contrato de casamento, ou amoroso, desprezando o pormenor fundamental da origem de Medeia: não era completamente humana. O que é a lei para um semi-deus? Nós não. Nenhuma impunidade. Carne, osso, e ao fim pó, e nenhuma carruagem nos levará ao sol.

Haja um feminismo menos purista e sem medo do pecado original. Menos preocupado em fazer da mulher peça de Olimpo enquanto lhe faz da vida uma peça no inferno. As mulheres não têm de ser perfeitas. Nem moralmente superiores, nem cientificamente. Ou mais competentes ou trabalhadoras. Isso são investimentos pessoais muito para além do género sexual. Podem mesmo ser imperfeitíssimas. Não têm de ser modelares. Nem parecer ter vinte anos aos cinquenta. Nem sessenta aos quarenta. Não têm de exibir a inteligência e ocultar a beleza. Podem ser estúpidas. Feias. Burras e lindas. Ou um cocktail molotov de brains and beauty. Duma banalidade confrangedora. Isto não é um concurso a ver se se ganha aos homens.

Nem há que de ter medo da objectificação logo seja a mulher objecto de desejo, mais ou menos sublimado – sim, também isto é poder. O corpo não é só nosso quando afirmamos que é nosso ao serviço do aborto, ou da politicamente correcta interrupção voluntária da gravidez. É nosso no decote ou na gola alta, ou na saia justa ou na mini-saia, ou nas calças largas. Quem tem medo do poder do próprio sexo, não é dona de si. E se não é, está na mão dos outros.

O feminismo não tem de ser politicamente correcto. Mae West, actriz de vaudeville, de cinema, argumentista mil vezes censurada, inconveniente, com mais picante do que a malagueta, nascida no fim do século dezanove, faz mais pela condição feminina do que meia dúzia de Hipátias destas. E Inspira não à debilidade e sim à convicção.

Ser forte é fazer a vida. A própria vida. A verdadeira, não a da publicidade do desodorizante que aí corre: ser forte não é usar Rexona e pôr cara de má, cara de morta de fome, cara de infeliz ou de vou-me a ti, num cenário cinzento, exclusivamente feminino e solitário. Apetece logo comprar um desodorizante Dove e dizer: viva a pombinha.


Bonjour Mundo!

lailailailai
and don´t tell me what to say
lailailai
you don´t own me lailailai
Sim, já sei, é repetida - e mais será...

25 de janeiro de 2013

A CASA - v


VÃO VER
No mundo em que vivi em pequena havia não existências concretas como os fantasmas que andavam pela casa: ninguém os via, porém lá estavam eles. As luzes acendiam-se de repente às quatro da manhã. O chão estalava e os móveis rangiam. As más línguas podem dizer que não, não eram eles, eram os fios eléctricos e todas as adições entubadas, canalizadas, mais os acrescentos feitos a uma casa tão velha que se arrastava em mais de duzentos de anos de arranjos. Concedo: os móveis, talvez fosse reumático e dores nas articulações: as cadeiras, por vezes, não se aguentavam nas pernas.

O corredor, por exemplo, fora uma invenção já ninguém sabia de quando ou a mando de quem. Não havia corredor antes, havia salas de portas comunicantes – aliás, na parte que não foi mexida passava-se de uma sala para outra e isso não chateava ninguém. O eco a caminho da cozinha, esse era coisa novinha em folha, era de quando a minha mãe nasceu. Criara-se um escritório roubando à altura maluca do tecto  - os fantasmas eram voadores por alguma razão, agora, nos apartamentos, aposto, usam as perninhas. A pedra que forrava o chão era dura a estrear e a guarda das escadas modernaça e tal. Fazia eco e nós fazíamos uma gritaria até sermos enxotados pelo primeiro adulto passante.

Bonita era, no entanto, a saída que de lá nasceu directa para o telhado e os ninhos das minhas andorinhas de penas em azul hipnótico escuro.

O telhado era uma grande liberdade estendida ao sol de cabeça para baixo e pernas para cima, os líquenes nas telhas, os primos e a minha cadela, um bicho esguio de preto de uma atenção afilada, e eu, todos deitados ao solinho de inverno a fazer praia, grandes braçadas no céu e mergulhaços nas nuvens.

O telhado era proibido e a porta estava sempre fechada. Porque uma vez escapuli-me, subi até ao alto. Dizem que é impossível que lembre. Que era muito pequenina. E lembro, não o acontecimento, isso não, de facto, mas da sensação, o peito cheio de ar, feliz sem saber o que é isso de felicidade, da vista, de ir voar e de uma grande interrupção, um susto todo preto e mais nada. Segura por uma perna pararam-me o corpo já em voo.

Até aprender a ler fiz coisas que nem vale a pena contar para não passar por mentirosa. Depois deve ter ido tudo para dentro das páginas e amainou. E estou convencida de que não voltou porque o que se escapa vai de bicicleta, na yoga, vai sei lá onde… vai onde não vou, de certeza.

Não me devia lembrar porque lá em casa as crianças não tinham querer, não te lembras e pronto, nem o verbo querer havia para as crianças. Nunca disse que não fosse corrigida: quero. Tinha de dizer: gostava. Querer era uma não existência, era um fantasma e voava. Também não havia dinheiro - mesmo enquanto houve era fantasma: não se falava disso, não se dizia dinheiro nem quanto custa, era tão feio como depois no colégio perguntar se a Virgem Maria dormia com o São José. E de saúde estava-se sempre bem até ao dia do funeral. Morria-se, assim era a vida, e se fosse triste, sê-lo-ia no escuro privado do quarto de cada um, pois de outro modo seria uma falta de consideração pelo bem estar dos outros.

A minha avó comandava as tropas. Adiante do batalhão, claro, para que não houvesse desculpas. Eu andava-lhe na sombra - a caminho de Sevilha teve a minha mãe de voltar para trás: acho que a avó vai sentir muito a minha falta, não vai aguentar. É que não vai aguentar – não ia dar parte fraca. Se não lhe andava na sombra estava foragida na cozinha, no quintal. Ou mais longe. Fugas pelo portão das traseiras estendiam-se até à olaria, ao sapateiro, as pessoas entravam e diziam: vizinho sapateiro… todavia, vizinho ou não, nunca podiam as meias solas ser para o dia pretendido. Eram dois grandes amigos de conversas sem fim, e para a livraria das comunistas, e para a mercearia, minha caverna de ali babá particular. Adorava aquilo tudo, balcão, fregueses, o grão de bico cantava na medida de metal, era meio litro, se faz favor, a caixa de rifas da Regina de furar e sair uma bolinha cor de sorte, o livro onde se punha na conta, pode assentar, e ele assentava, letras e números em agudos bem apontados no livro, o entra e sai, conversas inéditas cheias de impronunciáveis como o nome de Deus, por exemplo: entrevadinha. Coitada. A telefonia pendurada por uma fita ao pé do bacalhau debitava canções que em menos dum fósforo aprendia de cor e cantava depois, rua da amargura, rua feia e escura, rua sem amor, desde que partiste, ela é rua triste, é rua de dor, até que a minha avó: que despropósito, cale-se.

O raio da circunferência era conhecido e a partir do centro, uma vez dado o alerta de desaparecimento, era fácil à minha avó estender o longo braço. Ou nem precisava. Só correu mal com o circo. Contudo, na feira do ano seguinte até os leões nas jaulas sabiam quem eu era e lá fui de roda batida. Como os cães vão à lenha, caçam os ratos para os donos e os deixam à entrada da porta da cozinha, assim era eu, um rato devolvido à porta. É destemida diziam. Não era. Nunca fui. Que pena. Nunca quis fugir. Precisava de ir à minha vida, sempre precisei. Às vezes rosnava um não há respeito pela liberdade de uma pessoa. Vão ver. Qual quê, quem via sei bem quem era: tu não és uma pessoa, és uma criança, quando é que entendes.

Nunca.

Não havia liberdade. Tudo como deve ser, afinal, se mesmo hoje, em cada vez que me estatelo no chão, acredito que voarei. Vão ver.

Bonjour Mundo!


24 de janeiro de 2013

GRANDES MISTÉRIOS DO UNIVERSO - ii


GRANDES MISTÉRIOS DO UNIVERSO: AS MULHERES
O mulherio anda a gastar fortunas em aulas de dança de varão, perdão, pole dancing,  para manter os maridos, namorados ou híbridos, supostamente felizes. Não se consegue encontrar um ginásio que não tenha lições da coisa, procurar um dvd de um qualquer workout se não nos salte o S Factor para as mãos. Ora, estou em crer que, se os tais dos maridos, namorados ou híbridos quisessem casar, namorar, ou que quer que seja, com strippers ou alternadeiras, tê-lo-iam feito: o lugar das fantasias é na fantasia. Um homem não pode ter fantasias? Isto não significa que não se brinque, de vez em quando, ao S Factor. No há que tratá-lo, no entanto, como se ele fosse o único factor ou a única fantasia. Além do que, para brincar, não é preciso amaranhar por um varão acima, nem explicar à sogra, aos miúdos e às visitas que se tem um poste plantado no meio da sala porque o appartement era um antigo quartel dos bombeiros.

Bonjour Mundo!


23 de janeiro de 2013

GRANDES MISTÉRIOS DO UNIVERSO - i

GRANDES MISTÉRIOS DO UNIVERSO: OS HOMENS
Os homens são uma vida inteira fiéis, apaixonados, mesmo arrebatados por... um clube de futebol. Nunca ouvi nenhum dizer: amo o Benfica mas tenho um caso com o Porto. E, filha, aquilo com o Sporting foi só sexo.

Bonjour Mundo!


22 de janeiro de 2013

Mínimas - vii

Transgender: de cada vez que dou banho ao Cão, descubro que tenho um gato. Assanhado.

Bonjour Mundo!


21 de janeiro de 2013

Nessa mesma vaga


NESSA MESMA VAGA, O TEU NOME E O MEU

O meu amor, o que sinto, o que tenho para amar, é irrazoável - se algum amor é feito de razão ainda que tenha ou não razões. E o meu amor é concreto porque não sei amar abstractamente. Desconfio mesmo, confesso, dos amores razoáveis, daqueles do ai, sim, sou muito amigo dele, mas... tendem à adversativa em vez de tenderem à lealdade.

Amo este país e desconfio do amor pela pátria, pelo povo, do amor pelo amor, pela literatura, pelo Tibete de hoje Haiti de amanhã. De todos os amores inter-permutáveis como os dos saltimbancos das relações amorosas: quando tudo vale o mesmo, nada vale a ponta de um corno. Desconfio. Produzem, de facto, a elevação dos decibéis aos píncaros do caracol do ouvido, porém, ardem depressa e não se importam de queimar.

Amo este céu. Este. O de um azulíssimo azul. Às vezes, no alto do Verão, azul ferino de branco.  O azul do outro céu em roxo tímido, o que cresce da terra e fica suspenso nos milhares de flores dos jacarandás amo também. Mesmo quando se faz azul pelo chão, azul pisado, azul sujo de milhares de flores caídas, e é um tapete encardido de abandono, amo-o, é em azul consolo: entre a luz e a luz, entre o céu em cima e o céu em baixo, cedemos: até a carne mais muscular do coração floresce do escuro e se faz luz também.

No outro dia, estava a regressar do hospital e noto a descer o passeio que eu subia uma mulher muito alta, magríssima, já vinha de longe a falar sozinha, via-lhe a boca inquieta ruminando pensamentos de olhos fixos lá dentro dela, e quando nos cruzamos ouço: preciso morrer.

E antes de ontem, na televisão, num jornal que nunca assisto, outra mulher, preferia nem a ter visto: às vezes choro, às vezes rezo. Há sofrimento na miséria, dor concreta, impermutável como a dor é.

Aflige-me. Aflige-me, dá cabo de mim a mulher do mercado, ao domingo, porque é velha e não tem dono, e a ronda pelas bancadas do peixe, o saco de plástico muito dobradinho, cheio de vincos, linhas finas de uso e arrumo como as rugas dela, usada e arrumada e velha, as moedas pretas todas contadas, e os passos? um esforço atrás do outro, a rondar o peixe, uma mulher estatística como os números, não tem valor individualmente. Abstracta.

Todavia, o corpo tão amado do amor: a linha da pálpebra, o timbre da voz, a infância agarrada à pele, a harmonia que sempre o equilíbrio tem. É o verso tirado de dentro do poema, o meu sol particular arrancado ao preto sideral e frio.

Talvez seja fácil este amor concreto porque é ao perto. Contadinho. Amor em moedas escuras. Mas não é esta a dimensão da vida. Ou é? A escala não é a humana, pois não?

Penso que enlouquecemos. Em algum ponto isso aconteceu e estamos meio doidos. É verdade que deixei de comprar Le Magazine Littéraire. Hoje comprei. Estava chateada e comprei-a. Entre páginas muito melhores, um artigo sobre blogs de crítica literária, bons e maus e porquês: porque a crítica estava ser paga pelo marketing e feita por quem nem lia os livros, ou só porque sim, quero dizer o que me apetece. Está bem. A questão não é o blog nem é o jornal ou a revista. Onde estão os críticos que deveriam levar o público à obra? Não é isso a crítica? Como se pode levar quem quer que seja a lugar que não se sabe onde fica? É preciso conhecer e não há conhecimento sem amor. É fácil chamar-lhe putaria cultural. Ou política ou empresarial, tanto faz. É paga à vista e antes da função. E então? Nem por isso deixam de ter contas ao fim do mês. Seja a da luz ou a de mil salários. São caçadores como o foram os seus antepassados. Matam para sobreviver. No entanto, em algum lugar adoecemos porque nos fizemos homens caçadores de homens.

Não sei o que fazer. Há um céu e é azul. Há o amor e és tu. A arte, o trabalho e a vida. Há uma mulher que precisa morrer, a que às vezes chora às vezes reza, outra que ronda o peixe. E há canibais e não sei o que fazer.

Alguém antes de mim não soube e mundo não fechou por causa disso. Mas vamos, mansamente, enlouquecendo. Foi ela, Cristina Campo quem disse: Dantes o poeta existia para nomear as coisas: como se fosse a primeira vez, diziam-nos em crianças, como se fosse o dia da Criação. Hoje em dia ele parece existir para se despedir delas, para as recordar aos homens, terna e dolorosamente, antes que sejam extintas. Para escrever os seus nomes na água: talvez nessa mesma vaga que daí a pouco as arrastará consigo.

Ontem, no Público

Clique na photo, svp

Bonjour Mundo!


18 de janeiro de 2013

Vá lá...



NÃO
- Não.
- Vá lá...
- Não. Ai! não me mordas, fera.
- Sim, vá lá, vai à cozinha! Não te armes em mauzão que te ponho de castigo.
- Queres que te descasque a maçã, corte em quartos, os quartos em fatias finíssimas...
- Sim, quase um carpacciozinho de maçã, mas não precisa o requeijão esfarelado com mel e nozes por cima, só a maçã está bem, apetece-ma assim, fresquinha.
- Queres a maçã descascadinha e, primeiro mordes-me, depois ameaças-me. Nunca ouviste falar em reforços positivos?
- Não me ouviste dizer que te castigava?

Bonjour Mundo!

Olé!

17 de janeiro de 2013

Ruby Slippers



FALTA UM BOCADINHO À LUA
Há cerca de um ano estava no México. À noite, o mar era preto, o céu era preto e nenhuma luz cortava a escuridão. A maior lua do mundo, vi-a lá. Era redonda, dourada e quase lhe tocava o queixo na água que, desde a areia até ele, abria a verdadeira yellow brick road. Pus-me da varanda a ver aquilo tudo, assim como quem está num navio pela primeira vez e descobre que, afinal, nunca esteve noutro lado. Se tivesse acreditado então que seria capaz de caminhar sobre tal marinha passadeira, teria ido sempre em frente à espera de que, ao fim, a lua abrisse a boca e me comesse.

Poucos dias depois daquela noite, de manhã, numa mercearia, encontro um dos melhores extractos de baunilha - reconheci a marca. Pego no frasco. No rótulo um sol azteca ilumina a flor em baixo. É ele, radioso, o sol que deu a luz à lua que antes tinha visto fulgente, ela, um animal de sombra - e lembro do verso de Else Lasker-Schüler, poeta que desenhava sóis e luas e mais nas folhas, o teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Hoje fiz doce de tomate. Juntei, como sempre lhe junto, duas casquinhas finas de limão, pau-de-canela e baunilha. A baunilha. A única coisa que trouxe da viagem onde usei sempre os sapatos de Dorothy, um frasco de baunilha. Quem poderia adivinhar que havia de chegar até à minha cozinha uma pontinha da lua para barrar o pão e eu a comia? Vê como está bom, Toto, prova.

06 POEMAS DO NOVO MUNDO



POEMAS DO NOVO MUNDO
Poema à Mulher Triste


Levanta-te
Levanta-te
Do fundo de ti ergue-te
e um arquipélago de milagres
erguer-se-á contigo
à tua esquerda e à tua direita
ilhas súbitas
E todas as coisas naturais
voltarão a jorrar de secretas fontes ocultas
voltarão:
a composição harmónica do riso
a melodia do sol nos cabelos
e a violência das estrelas
explodirá de novo entre a erva e o orvalho
atravessando o vento
e as duas línguas de fogo

A mulher dorme
esculpida sobre o túmulo de pedra
as mãos postas sobre o peito. Repete:
é a nascente
é a nascente
é a nascente
E jorra um arquipélago de milagres
Ilhas súbitas
erguem-te

Bonjour Mundo!


16 de janeiro de 2013

ART ME UP VI


ART ME UP
ANA VIDIGAL - v - JUÁ DE VIVRE E 4 PINTURAS
A CABEÇA DE JANUS

A cabeça de Janus tem dois rostos. Fitam direcções opostas em simultâneo: a que fica para trás e a que está adiante.
Muito do que humanamente nos define é o horizonte que contemplamos. Erectos, vemos mais longe: o olhar é o centro de muitos comandos civilizacionais. Já o arrastámos pelo chão e já levantámos a cabeça – e não sei se não foi aqui que, de pasmoso, o olhar nos libertou as mãos até então agrilhoadas à terra, e nos ergueu pelos ombros para nos pôr de pé. É tal a força do olhar que inventou o gótico quando mais se demorava no céu de góticas mãos postas e sonhava a ascensão.

Vemos. E o visto torna-se um objecto cheio, investido da paixão que dele nos aproxima ou nos afasta, nos aproxima e nos afasta. O desejo inventa o mundo que mais tarde será vida, não interessa se o sílex ou a televisão. E a vida, sílex e televisão, reinventa-nos. Porque somos bichos de acesso ao simbólico, também desta dinâmica, deste trânsito, podemos dizê-los janusianos, ou não fosse Janus de igual modo o Deus guardião de todas as passagens, portas, mesmo as mais internas, passado e futuro, mesmo a da vida e a da morte, mesmo a de admissão à própria divindade, não apontando apenas a oposição, e sim o curso que se completa: tempo-eternidade, humano-divino.

Sim, somos bichos de acesso ao simbólico: a cabeça é círculo, é sol, razão. É o pai - é o chapéu em Magritte. Tripé fundamental de ausência e motor do trabalho artístico:
.   a consciência do conflito das polaridades e o esforço de integração;.  saber dos escuros que subterrâneos correm, e permitir que o fluxo do inconsciente transpessoal assome, que a crista da onda brilhe na luz, e o irracional se expresse racionalmente;.   o pai perdido.
A reconquista a cada dia deste trabalho é a auctoritas: figura inteira, não dual.
Esta auctoritas, em Ana Vidigal, é a femina faber e é a femina ludens: cabeça de Janus. Não, não me contradigo. A inteireza é feita de algo e do seu oposto integrados. A femina faber é a pintora, formal, normativa. A femina ludens é a artista plástica do trabalho paralelo, informal, inconforme à norma. As duas são uma recolectora, organizada, parcimoniosa, obstinada, obreira abelha. A pintura descansa no trabalho paralelo. Ou é a pintora que descansa na artista plástica? Seja como for há uma só mulher que à noite dorme na cama. Porém são duas as mãos, mão direita e mão esquerda, a agir em conjunto na pintura e no trabalho paralelo: sim, são dois os rostos de Janus, todavia uma só cabeça.

Aqui chegados, chegámos ao que queria mostrar-vos: o presente das futuras exposições de Ana Vidigal, Juá (de vivre), na Fundação Júlio Resende, de 20 de Abril a 22 de Junho, e, sem me adiantar a um certo Brasil, quatro pinturas de transatlântica vontade.
As portas, lembram-se? A circulação, o movimento, o trânsito. Explico.
Se entramos numa galeria somos confrontados com o resultado de um processo e com um percurso. Este, definido pelo artista, o galerista, o curador, e somos manipulados, passo a passo, peça a peça, numa via lucis ou crucis, ou ambas, de encantamento ou de recusa, ou de dúvida, ou tudo. Não queria, desta vez, escrever a mise-en-scène terminal de uma exposição. Queria a pintora a pintar, a artista plástica a executar. Não me queria a mim diante da pintura dela à conversa comigo, queria-a a ela com ela. Nem me queria a mim a agarrar com os olhos as coisas do trabalho paralelo, queria-a a ela com ele. Não queria a galeria, queria o atelier, uma porta aberta por onde, invisível, entrar - talvez Janus também guarde os buracos das fechaduras sem chave que delas pendam para nós, amáveis voyeurs amantes, espreitarmos. Espreitei.

A Juá (de vivre) retorna à intimidade mais uterina, à abstracção da família concreta, aos laços de sangue feitos de história partilhada: a que vimos em Penélope, núcleo de onde explode  a vida, o big bang mítico de todo o presépio. O modo, os recursos, a linguagem, também retornam, todavia, da Austeridade (e pequenos sinais de fumo). Contudo, assentam em morna, macia alcatifa recuperada de amostras recolhidas do gabinete de arquitectura do pai de Ana Vidigal – assim é vida: um delegado de uma empresa de carpetes cumpria os propósitos comerciais da sua empresa visitando outras, dando a conhecer profissionais aconchegos funcionais e decorativos feitos de lã e fibra. Desmontando o atelier do pai, aparecem as amostras. Ana Vidigal guardou-as para um dia. O dia da Juá (de vivre), quando, ao fazer delas a cama de afecto onde a austeridade se deita, deita-se nos laços, deita-se nos braços, deita-se menino e menina na infância onde circula o sangue comum, o lugar eterno de ir crescendo sempre, deita-se na alegria inconsumível do que não perece. Deita-se na Juá para se fazer Juá: todo o amor que fomos porque nos tiveram, porque o tivémos, e ainda. Aquela coisa da carne que mais tarde na amizade se dilata e no amor se expande, e é riso, aquela coisa que é a rede, quer dizer, a alcatifa, onde saboreamos a joie de vivre: temos menos mas isso não obriga que sejamos menos, e podemos mesmo ser mais onde se deita o exacto oposto que Janus olhando apontou na Austeridade (e pequenos sinais de fumo).

E de Ana Vidigal há, em construção, claro, janusiana, simultânea à Juá (de vivre), quatro pinturas em inícios de recorta-cola-seca-recorta-cola.

Ó, o texto vai grande. Hoje não vou contar que em quatro pinturas se escrevem histórias de amor.

Bonjour Mundo!

lailailai
dio come ti amo
non è possibile
avere tra le braccia tanta felicità
lailailai
noi due innamorati lailailai

10 de janeiro de 2013

Mínimas - vi


Fui ao hospital. De visita. Rápida. Agorinha mesmo. As televisões que pendem das paredes estão invariavelmente nos canais rtp, sic, tvi. Entro na sala errada: sic-notícias. Espanto-me. Em nota de rodapé leio: ponte romântica restaurada em Ponte de Lima. O rodapé é hiper-cinético. Na volta seguinte confirmo: ponte romântica. À terceira desiludem-me: ponte românica restaurada em Ponte de Lima. Lixem-se: pontes românicas restauradas há uma fartura delas, agora uma ponte romântica restaurada é trabalho de ourives e notícia de abertura de jornal.

Bonjour Mundo!

cuando ya nada se espera personalmente exaltante
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia
fieramente existiendo ciegamente afirmando
como un pulso que golpea las tinieblas
cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte
se dicen las verdades:
las bárbaras terribles amorosas crueldades
poesía para el pobre poesía necesaria
como el pan de cada día
como el aire que exigimos trece veces por minuto
para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica
lailaialai


9 de janeiro de 2013

Mínimas - v


Vistas bem as coisas, a única maneira de tratar a vida, e o amor, é como o forcado ao touro, em reverente desafio: eh touro preto! touro, touro, touro! E pegá-lo de caras. E se se apanhar uma cornada de tingir tudo do encarnado mais quente, uma das de acender o escuro, ser como o foi na infância dos dias um querido amigo, no hospital, depois de colhido por uma besta linda de força: um homem quando morre vai de barriga para cima. É preciso é que tenha valido muito a pena.

Bonjour Mundo!

lailailailai
fuck you
fuck you very very much
lailailai

8 de janeiro de 2013

xxi - Ces petits riens

iii - C´est quoi la vie? Eis o mar: as lágrimas todas que Deus chorou. As de alegria. As de dor. Desta água nascerá o homem.

Bonjour Mundo!

Ninguém, repito, morre a Nikiya como a Isabel Guérin.

4 de janeiro de 2013

É assim



AS LÁGRIMAS DE EROS
O grande amor tem mil rostos e até brinca connosco e mostra-nos a língua como os miúdos  - nha nha nha. Lembrei-me disto por pura falta de tempo. Explico.

Como todas as pessoas que escrevem muito depressa, tenho, depois, muito o que corrigir, e isso é tão devagar. E porque quero tanto escrever bem, há capítulos que se ensaiam inteiros, horas e horas medidas em caracteres só para me mostrarem que não é aquela a verdade que tinham para dizer. É filha da puta! esta autonomia da página. Letras em linhas de lixo suficientes para dar a volta ao planeta, imagino.

Lembrei, então, não onde li, nem há quanto tempo, mas era, porra, um acto de amor com aquela coisa devocional que sempre o amor traz. E daquele carácter admirativo sem o qual também é difícil conceber um amor assim. Lobo Antunes corrigia, refazia parágrafos inteiros, minuciosos, a Cardoso Pires – que terra é esta onde se esquece a cada dia a limpidez da frase de Cardoso Pires – e vice-versa, para depois ficar tudo na mesma, ou quase como antes da correcção. Ou não.

Não se nota, bem sei, porém preciso de pouquíssima aprovação para o que escrevo – talvez porque já não escreva com expectativas, um leitor ou mil, é-me igual. O que me falta é aquela correcção para escrever melhor, para conseguir dizer aquilo que quero e como. Quem me corrija dessa forma, há-de acreditar que me vou às palavras para viver.

Vistas bem as coisas, se calhar preciso do que toda a gente precisa. Do amor que nos ame porque nos vê com olhos de Superman e nos faz existir completamente. E esse amor pode, deve, mesmo com violência irromper pela frase dentro e desfazê-la para a refazer, só por infinda ternura. Há intimidade, a mais íntima, entre o amor e a violência de freio tenro, terno. Mundo em comum.

É o tempo a correr que nos empurra para uma grande solidão, mesmo acompanhada: dizer o quê fora da linguagem dos bichos? Posso abraçar o meu sobrinho, e virá-lo de cabeça para baixo, sorrir-lhe logo ele entra na sala, ou levá-lo à escola. Tudo amor de bicho.

O outro, o da comunhão, o do mundo em comum, estamos aqui, tu e eu, um num outro, um para o outro, comunhão episódica, apaixonada, sei lá, lixe-se, agora, hoje, tenho-a com um Bataille em fim de si mesmo, enquanto escreve para mim as Lágrimas de Eros.

Bonjour Mundo!

of all the people in the world that i know
you're the best place to go
lailailai
tell me why
lailai


3 de janeiro de 2013

Mínimas - iv


Os homens são isto. E as mulheres são aquilo. Os homens fazem assim. As mulheres assado. Chega. Não há os homens. Nem as mulheres. Há um homem. A mulher. Os que amamos. Cada um único. Na verdade, além desse exacto um, dessa certa uma, há o todo que são todos os outros e são mesmo isto e aquilo. Contradigo-me – pois, bem sei. Mas apresento factos, aposto, iguais aos seus: quanto aos homens, ó deles, há cobras com o sangue mais quente do que o meu. Já no amor sou uma sentimental do piorio, é o lado cão que bem me lixa  - zoomorfia do caneco…

2 de janeiro de 2013

Poema da mulher fraca

POEMA DA MULHER FRACA
- la vie en rose -
Não bebo leite nem derivados
90% de disciplina 
10% de permissividade 
e gosto tanto de um leitinho Vigor
de um iogurte da Só Natural
de queijos então...  
mas não Soja Sun
O mesmo com o pão se não for integral
com a carne se não for magra igual
Charcutaria? Também queria
Um bolinho? Já não é mau
divirto-me cozinho-o
Mas o peixe grelhado é livre 
a sopa a salada
e que alívio a liberdade calculada
no meu prato 
e feliz sem cálculo no Natal
C´est la vie

Se me dói aqui ou ali 
nenhum beijinho para passar
90% yoga 10% de sofá
médico só se estiver mais do que para lá
Se a dor é da outra  funda de matar
aprendi com quem sabe como não a sentir
atiro-lhe um cardio-workout de a arrasar
e recompenso o corpo por me a atordoar
vitaminas mais frutos vermelhos em bagas 
ácidas ou doces germen quinoa fibras vagas
ou serradura nem sei distinguir
90% de letra de velho samba
10% para a cantar
o que tenho de fazer faço
se não for a rir 
é chorar
C´est la vie

90% do tempo sou escrava
para ler e escrever como liberta
10% do tempo até cair 
de tanto cansaço que nem dormir
C´est la vie

90% de reserva
10% de conversa 
extroversa para iludir a percentagem
90% de amor fechado 
contra 10% de aberta indiferença
90% de alegria risonha
para 10% de cavalos de fúria
C´est la vie

Assim 10% de força
dominam 90% de fraqueza
C´est la rose

Bonjour Mundo!

lailailai
ever since the day of my birth 
i´ve been a stranger on this earth
lai lailai
i´ve been living the best i can
ever since my life began
the day is gonna come
when i don´t have to prove my worth
and i won´t be no stranger
on this earth

1 de janeiro de 2013

Bonjour Mundo de 2013!

lailailailai
there's just one life coming from that one place
there's just one face and it's your face
there's just one life going to that one place
there's just one face and it's God's face
and it's in
everyone it's in every place
it is everywhere that one face
i can see it shining trough
can't you see it shining trough
don't tell me that you don't
just tell me that you do
lai lai