9 de dezembro de 2012

Volta ao mundo em três posts - um

UM - PEQUENO ALMOÇO NO FRANKIE & BENNY´S
A empregada, calças pretas, camisa branca, gravata verde, avental branco, loura de um sorriso mais claro do que o cabelo, traz o café, a água, pousa-os na mesa. Olho em volta e finalmente percebo: é um cenário como os dos filmes só que de verdade - tolice, também os filmes são verdade mal começa a projecção. As mesas têm tampos a fingir-se de granito preto, os sofás todos em volta são de napa beige e bordeaux a fingir-se cabedal nos idos de 1950, os apainelados de aglomerados de madeira a fingir-se anos vinte ou trinta. Extraordinários anacronismos atravessam a decoração do restaurante-café que se quer italo-americano de franchising, toldo verde riscado em branco e encarnado e flores de plástico em canteiros perfeitos, suspensos da cerca inútil,  à entrada. Contei das mil fotografias a preto e branco nas paredes, mais fotografias de estrelas de Hollywood? Rol musical surpreendente: Dean Martin, Billie Holliday, Michael Bublé, acompanham os ovos estrelados com bacon e torradas da miúda da mesa ao lado que pequeno almoça em animado diálogo por escrito via iphone.

Abro o livro que tinha decidido não comprar e comprei. Estou perto do fim do último artigo. Uma maçada sem brilho nem fôlego. Artigos como quem faz papo-secos, salvam-se dois bocados de pão, o do erotismo, e o da lei estremenha e andaluza que sexualmente educará a juventude que lhes pertença. Bom, haverá sempre a tia Júlia. Penso em Borges. Há felicidade em ler Borges, mundos que chegam. E no Sena - toda a esforçada minúcia permite a liberdade, mesmo a puríssima invenção. Tenho ali na carteira a antologia poética que ele seleccionou e organizou, até traduziu, para contar vinte e seis séculos em verso, trouxe-a hoje por causa de Píndaro assim dito, É um dia, um dia só, a vida Humana, e de Um Epitáfio, de Calímaco, Chorava,relembrava quantas vezes, falando nós, o Sol se pôs exausto. Reli-os ontem à noite e não mais consegui separar-me deles.

Estou só.

- Eugénia.
- Sim, diga.
- Eugénia, sou eu, o...
- Credo, Vasco!
- Despache-se, não temos muito tempo.
- Não percebo.
- Explico enquanto caminhamos, venha depressa. Mas quantos livros tem neste saco? Lixe-se a terceira pessoa. Temos de sair daqui quanto antes ou não saímos daqui com vida, estás a ouvir? Publiquei a senha - esperava nunca ter de a dizer: que por nossa culpa e dis­tração dei­xá­mos pelo reino à solta. Tenho bilhetes para Xangai via Frankfurt e Omã para que tenhamos outras saídas, caso necessitemos.
- Li e ouvi, não acreditei. Quem está atrás de nós? Porquê? O que dizes não tem sentido.
- É o Mestre.
- O Mestre? Que disparate, o título é honorífico desde que a Sociedade passou de secreta a pública, e tinha de passar, a vocação de qualquer sociedade secreta é a coisa pública. E nem ele nem a Sociedade alguma vez foram violentos.
- Quem falou de violência? A morte pode ser doce.
- Vasco, estás a assustar-me. O que se passa?
- O Mestre e o Cardeal decidiram abrir o Túmulo.
- Impossível. Não pode ser aberto por dois.
- Têm um novo aliado, ele conhece bem a causa e abraça-a. Decidiram que é o Tempo.
- Pode conhecer a causa, muita gente a conhece, isso não quer dizer nada, o editorial sempre esteve à vista. Conhecerá o segredo? Não acredito. 
- Não sei, penso que não o saberá ainda, mas é um homem inteligente, uma vez que o saiba não se poupará a esforços para descobrir a chave.
- Que perigo, Vasco. Quem está connosco?
- Ninguém.
- E quanto ao público?
- O Mestre decidiu reproduzir a situação que tivémos antes, ninguém desconfiará.
- Não!
- Sim.
- Oh meu Deus... é tudo gente morta.
- Em que dia é que vão abrir o caminho para o portal?
- No primeiro dia: será aberto a 12 e fechará...
- ... A 21, claro. Isso quer dizer que temos de chegar à Missão Ramakrishna quando? E por Xangai?
- Não, a esta hora já o Pêéne está a caminho de Belur Math, chegará à Missão em dois dias. Nós vamos encontrar-nos com Gonjasufi. No Nevada, pasma-te. Ele decerto conhece uma parte da chave, afinal, é um mantra da escola a que pertence.