23 de dezembro de 2012

UM CONTO DE NATAL, de Fernando Canhão

Vê-se que é Natal: o Cabeça de Cão recebeu de presente um conto que é um presente para os leitores. Merci. E Feliz ante-véspera de Natal.

Pierre-Henri Cami edi­tado em 66 pela Afro­dite. No conto “O filho do Bêbado ou o pequeno jus­ti­ceiro” a exis­tên­cia de Deus é inequí­voca. Mais ou menos é assim, uma casa humilde, uma cri­ança ainda mais humilde(!) – Enquanto a minha mãe­zi­nha se esfalfa a tra­ba­lhar, o meu mal­vado pai embebeda-se em Caba­rets? — Entra a mãe com um embru­lho, os olhos bri­lham em ambos, mãe e filho. Do embru­lho saem figu­ras do pre­sé­pio, o está­bulo, pas­to­ri­nhos, ove­lhi­nhas, com fitas cor de rosa, pal­mei­ras cola­das a peque­nas bases de madeira redon­di­nhas, etc. etc., aqui­si­ção fruto da pou­pança da mãe, que para tal se ali­menta de um modo nada sau­dá­vel. A mãe – Esconde-te rápido meu que­rido filho, pois o teu bêbado pai deve estar a che­gar, e sei que ambos ire­mos apa­nhar e não vai ser pouco. O filho – Ó mãe­zi­nha como eu sofro, pois se ao menos te pudesse defen­der com armas de fogo, ou bran­cas, mas como assim, com as minhas peque­nas mãos de cri­ança de apenas oito anos, o dis­paro de uma Reming­ton Bolt Action Model700TM, seria devas­ta­dora na vizi­nhança, isto tendo em conta que encon­trava à mão tão pode­rosa fire-arm.

Entra o pai e tro­peça no pre­sé­pio, grande tombo e parte das figu­ras de ime­di­ato dani­fi­ca­das. – Mas o que é isto na minha casa? Ove­lhas com laça­ro­tes, reis magos mini­a­tura, está­bu­los? Isto é gozar com quem tra­ba­lha, e para quem a Nos­tal­gia do Abso­luto é ape­nas um mito. Dito e feito lança-se às figu­ras, e aos sal­tos e mur­ros tudo des­trói, aca­bando por cair devido ao can­saço e bebe­deira.

– Oh feli­ci­dade, o meu pai mal­vado, e bêbado, agora caído de borco, pelo menos, até ao raiar da aurora não irá espan­car a mãe­zi­nha, (nessa altura a vio­lên­cia domés­tica, tal como agora, não era punida, exis­tindo ape­nas alguns pre­cei­tos acerca de racismo, o que não é o caso pois a mãe­zi­nha tal como o garoto é bran­qui­nha como a neve). Mas e o meu pre­sé­pio total­mente des­truído? Que fazer?

Ouve-se o ribom­bar de um tro­vão, uma tem­pes­tade aproxima-se.

Entre­tanto o pai mal­vado, num sonho mau repete as pala­vras – Ove­lhas, ove­lhas em minha casa, mas como tal pode ser pos­sí­vel, nem uma esca­pará, depois de eu desan­dar o peque­nito e a ex puér­pera que o pariu! Cai de lado e retoma o sono dos bru­tos.

Uma ideia de cri­ança, ou os bene­fí­cios da for­ma­ção básica, o peque­nito olha em volta, e vê que uma pal­meira que esca­pou intacta. – Meu Deus será que uma pal­meira se pode con­si­de­rar uma árvore? Aprendi no pas­sado período, que durante as tem­pes­ta­des os raios ful­mi­nam as árvo­res, dando cabo de quem sob elas se pro­tege.

De ime­di­ato, coloca a pal­meira resi­dual sobre a testa do pai, e numa ques­tão dês segun­dos cai o raio fatal. – Mãe­zi­nha Deus existe(?) e é pro­vi­den­cial, o pai está car­bo­ni­zado! Toma este rolo de dinheiro, que me deu há dias um senhor em casa de quem pas­sei a tarde, fazendo uma sesta, depois de ter comi­dos uns bon­bons que esta­vam numa mesa de chá, e corre a uma segu­ra­dora para lhe fazer um seguro de vida com data de ontem. O T4 sobre a baia de Cas­cais, e o BMWTou­ring que sem­pre qui­seste ter, para te evi­tar chu­va­das quando vais tra­ba­lhar é nosso, ou para ser mais rigo­roso já é quase nosso.

Se depois do que aca­bei de des­cre­ver do conto de Cami, insisto, não che­gar para pro­var a exis­tên­cia de Deus, e o consequente Natal, então não sei que lhe diga.