21 de dezembro de 2012

T de TAI TAI

TAI TAI
Toda a gente sabe que Cheng Tinghua, quarto discípulo do mestre Dong Haichuan, morreu em Pequim durante a Revolução Boxer. Toda a gente sabe. Mas de Tai Tai, a quem ele adorava por ser mestre do seu mestre e a melhor dos filhos de Zhang Sanfeng, prova de vida deste, ninguém fala, e afinal, quantas mulheres houve no Templo da Nuvem Roxa, em Wudang? Mais que isso: entre o povo, ao lado do povo, na aspereza do chão, quantas princesas com privilégios de macios colchões de penas para sonos de seda? Uma: Tai Tai. Adorada por Cheng Tinghua, e por tantos à distância que o tempo impõe como se adoram os deuses e deusas. Bem, um bocadinho mais perto.

O marido de Tai Tai tinha duas mulheres e uma concubina. Amava e reverenciava a segunda das mulheres tanto quanto era apaixonado pela concubina. Na verdade, havia um entendimento mais que amoroso entre os três, pois, facto incomum, partilhavam do mesmo palácio, ele, a mulher e a concubina - sendo estas duas inseparáveis. Tai Tai era a primeira mulher, a principal, e ele não tinha, jamais tivera, o menor interesse nela. Sequer cumprira com o assentado no contrato de casamento. Todavia, homem liberal e em tudo atípico, logo a informara de que ela estava livre para ter os seus interesses, assim fosse discreta.

Tai Tai era então muito jovem. Não sabia quase nada do pouco que há a saber, porém, sempre lhe parecera sensato ver de ouvidos bem abertos: quando alguém diz não, procurar as razões do não é inútil, não o transforma em sim, e é desrespeitoso da liberdade de dizer não, pior, humilhante, porque subalterniza quem procura no não a razão e o sim, dando importância a quem não dá, querendo sem ser querido.

A ela era-lhe indiferente este ou outro marido: as mulheres da sua elevada classe social não levavam ilusões românticas para o casamento, não esperavam amar nem ser amadas, ou encontrar essa ilusão nos braços de um amante que desonrasse o bom nome da família de onde vinham, ou o da do marido à qual tinham passado a pertencer. Contudo, não, nunca esperara ver-se despojada do papel que fora educada para cumprir.

E, no entanto, o inesperado é o que mais acontece.

Tai Tai estava presa numa ratoeira. Não poderia fazer a longa viagem de volta à casa de onde partira para não embraçar a família. Nem podia partir para não envergonhar o marido. Não conseguia ver-se no futuro porque o presente era o limbo. Muito naturalmente, adoeceu. Como não sabia que estava doente, nunca se queixou. Só quando as roupas lhe ficaram todas grandes demais é que mandaram chamar o marido e este o médico. Nunca ninguém soube o diagnóstico, o que ficou registado na lenda foi a pergunta  que o marido lhe fez:
- o que gostavas de ver?
- Wudang, o céu na terra.

Tudo se providenciou. Tai Tai partiu com uma comitiva suficientemente pequena para não chamar a atenção dos salteadores e suficientemente grande para garantir a segurança na longa viagem. Foram meses até que chegasse a um dos mosteiros mais empoleirados de Wudang, ao mais antigo, uma gaiola de pássaros em pleno céu, a única maneira, então, de dar asas ao corpo humano.

Foi tudo como se nada fosse, como a água que corre, a chuva que cai, o sol que brilha. Habituada a obedecer, entrou pelas rotinas sem saber o que eram: levantava-se na hora de levantar, comia na hora de comer, falava quando lhe dirigiam a palavra, estudava os sutras e rezava a um bodhisattva que não conhecia para que manifestasse nela a natureza que desconhecia ter. E estudava medicina tradicional taoista, e treinava como se taoista fosse. De manhã, de tarde, ao fim do dia. E meditava de manhã, de tarde e ao fim do dia. Num só lugar, Buda à esquerda, o Tao à direita.

É preciso ver que Tai Tai era a única mulher num mosteiro onde viviam mais de oitenta homens de todas as idades, numa prática diária de síntese de fazer e pensar: o kung fu da tradição de Shaolin era ali respeitado por respeito ao primeiro abade, ao eterno mestre do templo, Zhang Sanfeng, que viera de Shaolin e entrara no pensamento da natureza ao ver como uma serpente se defendera de um repetido ataque de um pássaro: a contemplação da natureza, na meditação, como na poesia ou na pintura, é actuante. A única mulher. Uma mulher bonita, de facto, bela, esguia, o longo cabelo liso mais do que passado a ferro, uma cortina negra de pássaros a bater abaixo da cintura - nos dois retratos que ainda há dela no templo, o brilho feminino que não conhece oriente ou ocidente, quase etéreo, um passo de deusa entre mortais. Não há registo do mais ínfimo incidente, alguma vez. O que se sabe é que foi lá que se auto-nomeou: escrito pelo seu próprio punho, numa anotação no Sutra do Diamante, fundamental para prática Zen: sou sem sentido, nada mais que tai tai, e mesmo menos – este era o nome, pouco elogioso, dado à esposa principal de um homem muito rico e do mais elevado estatuto, tai tai: mulher rica e poderosamente casada, improdutiva, linda e vã.

Os dias colados e sobrepostos, todos iguais, um ano de um só dia, doze anos: dormir, acordar, estudar, meditar, treinar. Não sei, ninguém sabe, se fazemos o que somos, se somos o que fazemos. Mas sei o que toda a gente sabe: o tai chi é a respiração do kung fu, não há direito sem avesso, interno sem externo, masculino sem feminino.

Para Tai Tai nada sobrara, nada, e quando nada sobra que pode alguém fazer se não render-se ao nada e nada ser? Perder tudo é perder até a própria pessoa, mesmo quem se foi, passado que o presente revela obsoleto. Porquê? Não há resposta - nunca há, ou há todas que é o mesmo que haver nenhuma. É isso o dessentido. Acresce que não pertencia, não tinha lugar na vida de quem quer que fosse, nem ali, uma mulher entre homens, entre monges, pois homem não era, nem monja. E perder tudo é perder o futuro que o passado, desde a infância, prometeu. Há vidas que se interrompem e obrigam ao impossível: que se nasça, sabe-se lá como, do próprio cadáver vivo.

Aos vinte e sete anos desceu das altas montanhas, e do ar claustral e rarefeito, onde o equilíbrio é mais visível, para voltar ao mundo que a expulsara. Sem comitiva, fez o caminho de volta. Encontrou salteadores. Venceu-os na língua que conheciam e eles seguiram-na.

Passou no palácio de Verão do marido porque era Verão e ele estava lá. O arranjo clássico do jardim simulava a ordem da natureza nas quatro estações. Não se fez anunciar. Dizem que surgiu da sombra de uma parede.
- Vim para agradecer a doação que fizeste ao mosteiro. Mas agora que aqui estou, vejo que não há o que agradecer: o meu dote pagou-a como o meu casamento pagou ao meu pai. Na verdade, deves-me a diferença: gastaste o valor de doze anos frugais, e o dote provia a uma longa vida de luxo. Todavia, nem tu a vais pagar, porque não percebes, não podes perceber, nem eu a vou receber, porque não sou quem fui. Ora, isto é grave: não há dívidas por cobrar nas leis que regem os mundos, por isso, ama hoje que podes. A tua casa cairá, e o teu nome será apagado pela tua descendência. Não te assustes, não é uma maldição que lanço sobre ti, é a lei que tu, cego, não vês - para mim, agora, ela é evidente. Vive hoje. Ama hoje. Ama. Não há outra reparação além desta.
Infelizmente, Tai Tai afirmara a verdade. Os filhos homens do marido de Tai Tai, morto acidentalmente numa queda do cavalo, foram os quatro executados por conspiração. Os bens foram apreendidos e passaram para o império. A mulher e a concubina morreram pouco depois entupidas em ópio.

Dali, Tai Tai seguiu para o Monte Emei. Chegou à frente de um exército de ladrões, pobres, desapossados, e até estrangeiros. Levantaram um templo, de facto, uma escola aberta a quem chegasse, o único templo que existe sem concretos portões. O Templo das Nuvens Marinhas. E nele, outra coisa nunca vista, uma clínica - bem, uma sala onde quem nada tinha a não ser dor, podia chegar com a sua dor. Ainda pode. Foi também assim que estes conhecimentos medicinais, anteriormente reservados aos claustros, se fizeram do mundo.

Não teria havido revolução Boxer, se o Boxing, nome dado pelos estrangeiros às artes marciais orientais que desconheciam, não fosse do povo. Nem a forma Yang, curta, do tai chi, seria conhecida se Yang Luchan, o Invencível, não tivesse sido discípulo de Tai Tai em Emei. Não, não é a revolução que é importante, ou chamar tai chi ao tai chi. É a liberdade de conhecer e dar a conhecer a quem queira.

Não se sabe muito mais além do que Cheng Tinghua contou e já recontei. Só a lenda. Quando Tai Tai ia pelos caminhos, à direita e à esquerda dos seus passos, as flores em botão abriam-se, e nos ramos ouvia-se a respiração dos pássaros que calavam e depois a seguiam num chilreio pegado. As serpentes paravam para lhe dar passagem - mas isso, se acontecia, é natural que acontecesse: Tai Tai elevara o estilo cobra do kung fu ao seu ponto mais sublimado e mais letal. Criou o uso de uma arma insuspeita que juntou à espada de lâmina curta e direita: o alfinete de cabelo: tudo no estilo cobra é próximo, fluído, rápido, imprevisto. Não se conhece muito mais. Nunca foi vencida, e o templo do Monte Emei sofreu um terrível assalto. E que parecia extremamente jovem, coisa que costuma acontecer com mestres taoistas a despeito da estranha longevidade.

E sabe-se, ainda que não se compreenda, que numa manhã igual a todas as outras, diante dos olhos de todos, e eram mais de quatrocentos os que em uníssono respiravam a sequência de treino, parou, inspirou, sorriu e desapareceu num rodopio de luz.



Letra T, de um inteiro alfabeto feminino todo dedicado a Agustina Bessa-Luís, escritora maior.



Z de Zhen

I de ISABEL

A de AGRIPINA

B de BORGONHA

E de ESSYLT