19 de dezembro de 2012

Shortíssima


HAPPY
Estava ali, no consultório, a olhar para a revista, através da revista, Happy, a ver se percebia. Não que esperasse a vida como nas revistas, até porque eram miúdas e quase anorécticas, meu Deus, a desproporção das cabeças naqueles corpos mirradinhos, pintadas como os travestis, mas havia um fundo naquilo, não havia? coisas excitantes, um bocado arriscadas e ali a roçar o promíscuo, concedia, porém, fora o exagero e a diferença de idades, não percebia.

Era gira. Ainda tinha umas boas mamas, o rabo não era mau, tinha tratado as varizes a laser, as amigas disseram-lhe que voltariam, não voltaram, as pernas bem cuidadas. A pele. Os dentes. Ia ao cabeleireiro uma vez por semana, nunca deixava a raiz dos brancos aparecer, mantinha o cabelo preto, bom corte, maquilhava-se e até este aperto de dinheiro ia ao ginásio - um ginásio só para mulheres para suar à vontade.

Antes dos miúdos saírem de casa, era diferente. Às aulas na secundária somava as da formação profissional. Depois acompanhar os miúdos. Gémeos, uma trabalheira desde o primeiro dia. Comida, roupa, explicações que garantissem que haviam de entrar em medicina se quisessem, judo, ir buscar e levar, gripes, sarampo, tudo. Na verdade, se dissesse que ele ajudava, seria injusta, ele não ajudava, fazia pelo menos o mesmo que ela e pelo meio tivera tempo para um doutoramento e dois postdoc, conferências aqui e ali, programas, bolsas, enquanto ela repetia a mesma matéria ano após ano a alunos cada vez mais fracos e lá aparecia um que justificava tudo. Às vezes sentia-se toda mastigada. Miúdos, aulas, ginásio, comida, roupa, um bocadinho de televisão, os livros cresciam na mesa de cabeceira intocados. Sexo higiénico. Não era mau. Só não era aquela coisa. Amavam-se, claro.

Tinha um bom casamento. Toda a gente dizia. Vinte e um anos bem casados. E bastava olhar em volta: divórcios, solidão. Felizmente estava livre disso. Tinha uma boa casa. Uma boa vida. Bons amigos de uma vida. Não percebia porque é que, agora com os miúdos na faculdade e a casa toda para eles, o casamento não voltara a ser o que fora antes dos miúdos. Ela era a mesma, e ele. Com as diferenças normais de terem vivido uma vida. Eram os mesmos, a mesma liberdade outra vez, e não. O casamento não era o que fora. Não era. Não percebia.