5 de dezembro de 2012

04 - Postais de Cambridge

TELEMÓVEIS
Telefonam-me:
- Pode dar-me o número de referência do voo? Creio que conseguirá outro voo ou o reembolso: o aeroporto foi fechado.
Espero.

Às seis menos um quarto da manhã o telemóvel tocou - fabuloso gadget, nem um dos poderosos reis da antiguidade mais ou menos clássica o possuiu. Crescemos tanto em facilidades. É um galo matutino, se o quisermos para despertador, e sem inconveniências de galinheiro nem enervante cantoria; é, qual Miguel Strogoff, correio mesmo debaixo de qualquer intempérie; mundo amor ou mundo Cão conforme voz ou latido do outro lado. Eu para a minha mãe:
- Passe lá ao Cão...
- Parece que é parva. 
- Vá lá, mãe, se faz favor, passe ao Cão.
- Anda cá à tua dona.
- Olá Cãoooooo.
- Não é cão nenhum que ele não quer falar.
O Cão não quer falar: somos todos parvos. Às seis menos um quarto da manhã o despertador. Malas escada abaixo. Cozinha. Paragem obrigatória diante da Nespresso: perdoa-lhes, meu Deus, eles não sabem o que fazem, são ingleses, pensam que estas cápsulas em folha de alumínio colorido, sem aroma e sem memória, uma parafernália higiénica de sabores a rondar o maluquedo da Starbucks, que custam os olhinhos da cara e têm de se encomendar online, são o belo café. Culpa do George Clooney, se lhe achassem a gracinha que lhe acho, andava tudo a sumo de laranja. Estou convencida de uma conspiração entre o pessoal da Bimby e o da Nespresso: estamos aqui, estamos todos a comer pastilhas alimentícias aromatizadas, em salas estéreis de qualquer bicharoco, e só vamos ao mundo de luvas e máscara.

Abro a porta. O carro à espera. Nevou. Tanto branquinho macio acabado de cair do céu. Farto-me de pasmar. Sempre. A minha irmã há-de ter nascido com uma prancha de snowboard nas botinhas de lã. Não posso dizer o mesmo, sequer coisa parecida, não trato as estâncias por tu, nem por você, a bem da verdade. Neve é para pasmar e dizer ai que lindo frio, rir quando escorrego.

Na estrada, a caminho do aeroporto, olho os campos nevados e, finalmente, reparo que estou no acesso à casa dos March. Nenhuma das mulherzinhas se avista, nem há vestígios de passos. É natural, é muito cedo, nem amanheceu ainda. Temos de sair da auto-estrada, um acidente aparatoso, e sem mais, gerou uma interminável fila. Estrada secundária e ainda nenhuma das March à vista. Os ramos das árvores, tão esguios, contornados a lápis de gelo. Que lindo frio. Os camiões não conseguem subir, se começam a patinar, está tudo perdido. Trânsito parado. Inversão de marcha. Um salto no tempo, outro no espaço, as March outra vez no passado literário do continente americano, sou crescida, estou na estacão de serviço a olhar vários restaurantes onde escolher comida hiper-calórica. Voo dado por perdido. 

Quatro horas depois, de volta ao ponto de partida. Telefonam-me:
- Pode dar-me o número de referência do voo? Creio que conseguirá outro voo ou o reembolso: o aeroporto foi fechado.
Espero.