4 de dezembro de 2012

03 - Postais de Cambrigde

TURISTA
Estive em Paris neste fim-de-semana. Paris postal, Paris guia-turístico, e tanto chinês de máquina em punho, dignos herdeiros do Japão em viagem. Paris cheia de sol e corvos gordos - estou farta de corvos, ingleses ou franceses tanto faz, quero as minhas andorinhas a voar de barriguinhas rentes ao chão, metereologistas infalíveis a anunciar a chuva e o céu de Turner. Sim, estou convencida de que todos os céus de Turner revoltos de Outono à boca do Inverno são trazidos nas barriguinhas pequeninas das andorinhas. Quase tudo é assim, não é? Mínimos gestos compõem a imensa orquestra. Quantos são necessários para dizer amor?

Neste fim-de-semana, em Paris, esperava-se a segunda-feira de Carla Bruni. Conto tudo. Esta deu à Vogue uma entrevista com trechos já publicados em alguma imprensa. Ainda antes da revista sair, pelo rumor que se criou com o que foi dito e do dito com quanto foi entendido, teve de vir pedir desculpas ao mundo livre por usar da liberdade de dizer o que lhe passa pela cabeça. Não sou cá brunista, chateia-me é que os paladinos dos direitos e liberdades sejam os primeiros a cortar nas liberdades e direitos dos outros. Percebo, é fodido andar um gajo a lutar pela democracia para uns sacanas de extrema direita terem uma plataforma de onde chegar ao mundo. É fodido e é bom que continue a ser. Carla Bruni nasceu num meio confortavelmente burguês, é linda como um felino, foi top model, está casada com o ex presidente da França e gosta, acha-o sexy e admira-o, convida Houellebecq para conversar sobre a chatice que é envelhecer, ele aceita, diz-lhe que gostou muito da música que ela fez para um seu poema; e Carla Bruni põe botox no narcisismo, está de bem com vida, ri-se de nem os anos de psicanálise terem evitado que se transformasse na sua própria mãe e, de repente, afirma que o papel do feminismo ortodoxo foi rasgado pelo tempo. Alto e pára o baile: isso não, nos bezerros de ouro só Moisés toca. Não se perdoa a Carla Bruni a nossa falta de dinheiro, de conforto, de sucesso, de beleza, de bem estar. De bom sexo e de riso. Mas, acima de tudo, não se lhe perdoa que ela saiba ter tudo e o diga por poder dizê-lo. É assim.

Depois cheguei e pus-me a ler os Diários, de Al Berto - o blog dele. Tanto desespero mastigado, fogo no estômago, e do nada, uma tímida, surpreendente ternura assalta o coração, assoma à frase. Sei lá. Sei, no entanto: é preciso atravessar selvas de palavras para chegar àquela uma só palavra de onde nascem todas as palavras exactas e diante das quais as anteriores, simulacros, se desfazem. Talvez seja por isso que tantos morrem a desbravar o alfabeto.