2 de novembro de 2012

viii - Para Borges, ao serão

Pequeninas histórias para o serão de Borges.

UMA – artigo indefinido, feminino e plural
As mulheres e a história do amor, sempre o amor, a conversa do amor, o desgosto do amor, a consulta na psicóloga do amor, os comprimidos para a depressão do amor… As mulheres nunca os amores, só o amor. Se acreditasse nisso, acreditaria que era um deus.

Percebia-as, não era difícil: haver alguém que se interessa, pergunta, quer saber, conta também, dá valor a ser ouvido. Alguém como ele. E pronto, pouco mais e chega, de repente já a cidade é toda em postais, a beira rio é espelho de riso antes de ser de lágrimas, porque será de lágrimas, mas isso não lhe diz respeito, que desagradável, haverá alguma coisa que tire mais a tesão a um homem do que sentir-se culpado, acossado, feio, fraco aos próprios olhos quando se debruça no olhar de uma mulher e este é o reflexo que ela lhe devolve?! Não compreendem a simplicidade de tanto procurarem a complexidade. De tontas encantadoras a patéticas, a distância é a que vai de um suspiro de prazer a um suspiro de dor. Só o espelho de riso, o rio rido nos olhos, e a avenida da liberdade brilha como as feiras de quando se é pequeno e as noites de Natal.

Meu Deus, com que facilidade se apaixonam as mulheres: dois ou três passeios, duas ou três bugigangas, dois ou três almoços, dois ou três telefonemas, duas ou três esperanças, e às duas por três em duas ou três três tardes de sexo, do a ao z em duas ou três tardes, rendidas. Um só dia. Um mês. Um ano, dois ou três, tanto faz, é tudo bom, está tudo bem, aceita o que vem completar os dias. Não é proprietário nem propriedade de quem quer que seja, e não foi Gil Vicente quem disse, se lhe dão um porquinho logo o ata com um baracinho? Pois bem, é muito grato por estes amores de baracinho que começam sempre do nada e da oportunidade de amar, de estar disponível para ser amado, e para amar, então, não é egoísta, dois três, duas ou três, almoços, bugigangas, e ali estará sempre, podem contar, elas, com um braço de apoio na vida, o ombro da amizade onde chorem futuros de outras beiras rios, outras dores, de outros, não a dor dele, isso é que não, o mel da flor, o mel da flor, o mel das flores, de outros, decepções familiares, profissionais, em dois ou três almoços, porém, em restaurantes mais baratos, claro, em dois ou três passeios mais curtos e de menor distância, dois ou três telefonemas casuais daqueles que podem mesmo ser interrompidos e adiados, e se uma coisa levar a outra, pode ser no escritório ou ali em casa dela se os miúdos estiverem na escola, ou com o ex-marido, enfim, não são precisos bombons, ninguém anda a iludir ninguém, isso ficou lá atrás, e fora boa a ilusão, boa como um livro ou um filme, uma tarde de só sexo sem mais, e não é tão bom o prazer pelo prazer até ao cansaço do corpo satisfeito, ir ao cinema ou passá-la a ler, outro prazer, uma tarde sem cuidados nem hesitações nem futuro, só passado, tudo fora bom, tudo estivera bem, estava bem, livro ou cinema, a paixão, o corpo, ou só romance, em todo o tempo, o sonho de um dia e um leve toque de mãos, perfume de anos na fantasia, bom igual. Tudo estava bem, não era esquisito.

Fora sempre decente com todas as suas namoradas, uma patifaria ou duas ou três toda a gente e ele não era excepção, todavia, em regra sempre fora decente com todas as suas namoradas, amantes, amores, amigas de uma vida e nunca completamente, o futuro não se sabe que cama guarda, pode ser a que já foi. Amara todas. Não interessava se os olhos de uma, a dedicação de outra, o humor daquela, a meiguice de quem, o pézinho, os cabelos, nádegas e coxas, o umbigo.

Eram as suas meninas, as suas mulheres, davam-lhe tanto, muito mais do que dois ou três passeios, duas ou três bugigangas, dois ou três almoços, tão mais do que um ombro onde chorar, tão mais do que um braço de apoio. Ele dava. Bem, logo que elas não agarrassem com muita força, um apoio não é uma viga, nem falassem muito alto, não deixassem de rir aquela voz de rio. Nem o incomodassem em casa. Isso não. Nada que lhe perturbasse a ordem das horas, apenas a completasse, um homem gosta de ordem. Nem o bem-estar, entenda-se, um homem não tem mulheres para se chatear, para causarem atrito numa vida oleada e nos eixos, problemas no casamento feliz. Fundamental era que não o amassem, bastava que fizessem como se, ou vá, que amassem, mas como ele amava.