6 de novembro de 2012

ii - A GRANDE AVENTURA DE AMÉRICO CHARLES

II

Charlotte era tudo quanto os pais haviam querido que fosse. Nunca a determinação se apresentara mais delicada, nunca a etiqueta fora tão natural, nunca a modéstia tão sofisticada.

Olhava-se para Charlotte, perscrutava-se-lhe os pulsos finos, o pescoço longo, a brancura anilada da pele, espreitava-se-lhe o sorriso e nem à superfície nem ao fundo se encontrava vestígio do pai, Américo, a presença da mãe, Marie. E, no entanto, quem mais visível? Do pai, toda a ambição vestida de seda e rendada de Bruxelas lá estava em cada detalhe de perfeição. E da mãe, o olhar de deusa sobre o mundo: compaixão e superioridade.

Marie, a mãe. Ninguém conhece melhor as regras do que o mordomo. E Marie, filha do mordomo dos Spencer da Virgínia, Charles e Elizabeth – os mesmos de Bedfordshire, do mesmo tronco dos de Northamptonshire - e da criada pessoal desta, criara a filha à imagem que a sua infância guardara do casal. Tanto era o amor que lhe tinha - pois não é isto fazê-la de outra carne que não a sua para lhe dar o melhor mundo, arriscando dar-lhe o limbo da diferença de a lugar algum pertencer? Quando Charlotte nascera, nascera de facto: primeira criatura, filha de um sonho sem realidade para dar realidade ao sonho. Marie alimentara um corpo para lhe ser estranho, que não a espelhasse, com método para o substanciar, o alimentara. A execução de um sonho pede a disciplina que só quem sabe o que quer e não o tem consegue. Marie sabia e Charlotte fizera-se uma mulher de poder, mas graciosa, fácil, de recantos inefáveis. E razoável, sensata.

Qualquer homem em situação de casar-se prefere a estabilidade social e o bom senso à beleza. Se apetece qualquer coisa exótica, pois vai buscá-la ao teatro, às artistas para alguma exuberância, às coristas para coisa mais rápida - com as criadas nunca dá bom resultado, para além do transtorno: incomoda mais à mulher que lhe falte pessoal doméstico em condições, do que um affair inconsequente de saias ao ar. E se um homem quer espevitar o fim da meia idade, pois haverá sempre a mulher de um amigo, um igual, com quem descobrir o entusiasmo de ser objecto de uma definitiva paixão, como o são as paixões tardias. Decerto uma vida inteira dedicada à família e ao património lho devem.

Todavia Charlotte reunira nela os benefícios de uma esposa com o picante de uma corista, e o amargo-doce de uma amante amada. Vantagens da soma de um dote de estalo com a genética transgressora mais o incómodo de encarnar um ideal feminino, mistério feito à medida de um homem.

O pai, o italiano, deixava muito a desejar no salão, mas, agudo, para si mesmo preferia o escritório. A mulher, em irrepreensível francês materno de servir, constrita ainda pela rigidez do próprio pai, facilmente era tomada por une grande dame de severa postura de berço.

Todas as vantajosas perfeições de Charlotte passavam pela cabeça de Teddy mesmo ao lado das inconveniências sociais que trazia. Estas não o beliscavam, tinha nome suficiente para lhes dobrar a espinha. No entanto, o mais elementar não passava pela cabeça de Teddy: começamos sempre pelo começo e o começo, o único e inicial fiat, é verbo conjugado em pai e mãe. 

Charlotte, filha de Américo em italiano na tradução inglesa de galego, e de Marie, francesa de língua sem pátria.