5 de novembro de 2012

i - A GRANDE AVENTURA DE AMÉRICO CHARLES

I

Em 1886, quando Américo retornou, tinha mudado de nome. Em homenagem à terra que fizera rica a sua pobreza, a mais tradicional e elitista do novo mundo, Boston, levantada por escapistas, não à miséria, mas à perseguição cultural e religiosa, Amândio fizera-se Américo. Américo Charles - Charles como o rio.

O senhor Américo Charles entre os bostonianos passava por um dos italianos do west end e da imensa vaga migracional que sucedera à irlandesa fugida da grande fome, porém era português, filho de pai galego e mãe alfacinha, dos que deram em fugir de tudo menos da fé que era católica em ouro luzidio e meridional, um mistério que transcendia a racionalidade protestante, a ética do trabalho, o valor da norma, o rigor das certezas e o crescimento imparável da grande árvore burguesa à sombra da qual o progresso avançava sobre sólidos carris, bem definido, normativo crescimento do mundo sólido, da fé sólida em língua comum e com livro de cânticos: o milagre, a haver algum, seria social e explicável. Americano.

Nesta cidade onde o poder arrumava geograficamente as suas mais recentes etnias e polarizava a vida social entre o sim e o não há duzentos anos, estava prestes, via a enormidade da guerra, a abrir-se a brecha do talvez ao dinheiro fresco dos pobres que lhes podiam emular roupas e casas sem que no entanto da garganta lhes saísse o adequado som, a perfeita dicção: para isso já pastoreavam as filhas destes o melhor ensino, a escola de puritana candura, e o que de modéstia se retirava do luxo de Paris. Com este dinheiro novo com sabor às virgens de sempre se haviam de banquetear os filhos dos pais que aos compadres torceram o nariz.