23 de novembro de 2012

AMOR - MANUEL S. FONSECA

Este o foi desafio do Cão à bloga. Chegou o texto do Manuel S. Fonseca, do Escrever é Triste  - merci. E é uma short e chega: grande é o amor.

O Grande Amor

Mary perdera pai e mãe. A bendita cara e a perfeição ultrajante do corpo pouparam-na ao horror da miséria, abrindo-lhe as portas ao horror da vida. Não sei se o Amor é para aqui chamado. Chamava-a uma corte, um parlamento de homens. Talvez, um hipotético dia ou uma noite, o calor de outra mulher. Outras noites, noites de nenhum dia, a ardente promiscuidade de vários homens e algumas mulheres.
Mary, linda, tão bem vestida, cabelo pintado, o negro brilho de um creme, dizia: “Sei bem, oh se sei, como são os homens, mas sei que deve haver um homem que não é como os outros homens.” E nua, uma nudez limpa, perfumada, inclinava-se para dois corpos frenéticos.

Há inocências capazes de se esvair num segundo, num humilhante apalpão. Os horários desordenados, a enorme tristeza das festas, o gelo dos cocktails, o inóspito assalto masculino não roubavam a Mary a fome de sonho. Se descesse agora a rua, a sua rua, as mulheres à janela diriam: “É tão boa moça.” Nem os homens, nem os rapazinhos de leite as desmentiriam: “Tão boa menina.”  

Não havia uma ponta de leviandade na vida de Mary. Beijava, chupava, lambia. Beijavam-na, chupavam-na, o que lhe quisessem fazer. Não pedia socorro, beijava na boca. Nua, de cócoras, continuava a olhar de frente o sofrimento do homem só meio despido. Via a mão deste, no ar, indecisa. Percebia que o homem, este, não sabia se lhe havia de apertar o peito, se acariciar o cabelo que o gel enrijecera. Havia uns mais decididos que fodiam forte. De olhos fechados. Este olhava para ela, agachada. Este tinha um lirismo culpado no olhar e tinha de ser ela a quebrar o gelo: “Vai, não tenhas medo, vai-me ao cu.

Saía do cinema, de um restaurante, estava a despedir-se de um, três destes homens. O que foi, o que fosse, já não sabe, não conseguirá nunca voltar a saber. Sabe que viu no ar quente dessa noite um sorriso que era uma ideia de mundo. “Eu quero viver neste sorriso,” foi o que lhe gritou a inteligência do seu corpo. Não sabia se era um marinheiro, um contabilista, um poeta. Era um sorriso que tinha tudo, timidez e confiança, a mais descontraída alegria. Podia andar-se sobre aquela tão leve alegria. “Se me deixares viver dentro de ti, amo-te até ao fim dos dias, até ao fim da terra, o fim do mar.

Ele virou-se ou estava já, como um anjo, virado para qualquer dos lados de que ela lhe falasse. Estava na sua natureza concordar. Concordava com o Amor em género e número. Ela viu-lhe, na prodigiosa expansão do olhar, luzes, um arco-íris, um rufar de tambores. É engraçado, tão depressa se fazia noite, como se fazia dia, um nevoeiro musical, uma lâmpada líquida. E sem precisar de um bom-dia, de uma boa-tarde, ela viu que, embora ele usasse óculos, podia confiar, se lhe podia confiar.

É indiferente que lá fora faça chuva ou sol. Estão os dois neste quarto que transborda da casa, perfeita varanda do mundo. Estão descuidadamente vestidos a calça de treino dela, um top, a calça do pijama dele. E num impulso, uma coisa inaugural, um gesto, um verso, a mão de Mary desliza, roça, acaricia, agarra a mão dele. “Tens de saber. Amargo e doce, fiz tudo. Mas a minha mão, não. Nunca deixei nenhum homem segurar na minha mão.

O grande amor é dar a mão.