23 de novembro de 2012

AMOR - FERNANDO CANHÃO


Este o foi desafio do Cão à bloga. Chegou o texto de Fernando Canhão, tão bom leitor do Escrever é Triste que, também triste, o escreve - merci. E vem de MGB GT primeiro, e numa BMW depois, para dizer que de amor, uma alhada, não se fala.



Já lá vão uns anos, os livros compravam-se no Centro Comercial de Alvalade, e nalguns outros sítios onde era tramado arrumar um carro. As vendedoras de Alvalade tinham também muito mais graça. Um amigo meu, que na altura lia pouco, revelou-me a ânsia de um grande amor. Avisei-o que se ia meter numa alhada. Que não, que tinha tido uma educação decente, que geralmente(?) respeitava as meninas, e que sem esse amor definharia pela certa. Os amigos são para apoiar. Sugeri-lhe uma surfista de Alvalade, a livraria, e inclusive quais os livros que deveria comprar, isto para causar uma boa impressão. “Manual de civilidade para meninas” de Pierre Louys e “Maria não me mates pois que sou tua mãe”, de Camilo Castello Branco, chancela da & Etc. ambos acabados de sair.

Liga-me dias depois eufórico, a surfista estava quase(?) na mão, ia ser levada a jantar a um restaurante étnico, mas claro que o carro luz dos seus olhos e inclusive carteira, iria ter um efeito devastador. Um MBG GT, branco, irresistível segundo ele. Passou dois dias a polir-lhe os raios das rodas, com um producto milagroso, encontrado na dispensa da casa dos pais. Chega o grande dia e lá vai ele buscar a pimpolha, pullover de cashmeer pelos ombros, Wayfarers e o restante da panóplia. O carro estacionado umas ruas por perto, resplandecente. Durante o trajecto palavras de situação, pois seria a visão do MGB GT a estocada final. Não existiam as mariquices dos comandos, por isso, ela, a surfista, só soube qual era o carro quando ele lhe abriu a porta – Olha que engraçado tens um FIAT como o da minha tia!

A noite foi uma desgraça, ainda por cima com o nervoso, as luzes ficaram acesas, e por isso o regresso foi de táxi.

Dias depois soube do sucedido. Acalmei-o, sugeri dar-lhe, à surfista, uma mesada e a chave de casa. Nem pensar, o erro era meu, a paixão ansiada teria de ser por alguém mais da sua idade e cultura. E claro nada de carros, uma mota BMW vintage bem mais viril. Em 15 dias, tinha agendada uma viagem pela Europa com uma morena semi-nova (boa de mecânica?) ligada às artes. Como amigo, expliquei-lhe, que seria pior a amêndoa que o rabanete. Mas que não, que eu era um céptico e assim por diante. Pegaram-se logo na portagem em Alverca, pois as calças justas não comportam trocos.

Segundo soube, desde há uns anos alguém lhe deu a mão, mas como não gosto de controvérsias, passamos só a falar de coisas mais simples. Com ele e com todas as outras pessoas de quem gosto, sem excepção.