29 de novembro de 2012

02 - Postais de Cambridge

Estou a tentar chegar a fala com este novo computador. Ainda nao descobri acentos, c de cedilha, enfim, toda a portuguesice fundamental de um alfabeto em condicoes.


SALTOS ALTOS
Estava no aviao. Atascado. Estava no aviao e pensei na minha avo - ontem teria sido o seu aniversario. Reconheco o chefe de cabine: vai casar e teve de comecar a fazer os convites por telefone e pessoalmente, sem o acrescimo da formalidade do papel escrito: os convites que encomendou, uma chatice, nao estao prontos, e nao pode dizer nada pois e um amigo quem esta a faze-los - vou de frente para ele outra vez, quem voa low cost sabe da importancia de esticar as pernas, e preciso reservar lugar sempre na primeira fila, com vista para os jump seats da tripulacao e para a vida igual a nossa. 

Atascado. Gente nova demais para ficar: nao muito longe daqui, em Northampton, ha emprego, creio que ha la, pelo menos, um hospital onde um numero crescente de portugueses - enfermeiros como estes. 

Atascado de uma fartura de calcas de fato de treino, bones, tatuagens de turismo brasileiro em boom. E de mais outra fartura, a dos indigenas de olho azul, os regressantes. E tres miudas, novinhas, vestidas para uma ideia de Inglaterra, para a primeira vez em Inglaterra como se para o artico, ou para gelada catastrofe subita. Decerto, por dentro, destilam o excesso de la angora em torcidos da boina ao cos da blusa, casacoes - iglos, cavernas, um aviao perdido no frio e so tres sobreviventes, sei la, a imaginacao leva-me sempre a melhor. Sao tao giras. Tem aquela graca de quem nada sabe porem pensa que ja viveu muito. Miudas fornos. Que caloraca.

Olho para mim, sou muito friorenta, visto-me tal cebola e tudo em inho: um topzinho por baixo de uma camisa por baixo de um casaquinho. O salto dos botins, confortaveis, mas altos, dez centimetros e nem assim chego ao metro e oitenta. Desadequados para aeroportos que arrumam em cascos de rolha estas viagens das mais baratas onde nenhuma manga leva os passageiros em modo Espaco 1999 - qual o que, nada, toca a descer escadas, marchar pelo alcatrao e finalmente entrar nos tais corredores que desembocam noutro pais, corredores sem fim num sobe e desce rolante, gabardina, luvas e cachecol a reboque, bagagem a reboque - viva quem inventou as malas de quatro rodas. Viva.

Sao altos demais. Sao sempre altos demais os sapatos, as botas. E superior as minhas forcas. A minha avo horrorizava-se:
- as pessoas ja nao se vestem para viajar, uma falta de civilizacao.
E superior as minhas forcas e natural que seja: a maior parte da vida, e talvez mesmo a melhor parte dela, nao e nossa, sao os nossos em nos. Visto-me para viajar. Tambem os passaros antes do voo alisam as penas.

Bonjour Mundo!

l lailailai lai
o lailailai lai
v lailailai lai
e lailailai lai


27 de novembro de 2012

Sou telepata, eu, telepática ou lá o que é. Quer ver?

PELOS DEUSES, QUE NERVOS! SALTOU-ME A CORRENTE DA BICICLETA...

xix - Ces petits riens

i - C´est quoi écrire? Ouvir. Antes do mais, escrever é ouvir. Também, de rosto tão encostado, auscultar as nascentes das palavras, quase sempre voz à procura de voz que a diga. O resto, nestes dias em que quase ninguém escreve de pé, já se sabe, é pregar o rabo na cadeira e esperar. Esperar. Esperar. É assim, de uma paciência amorosa, esperar.

Bonjour Mundo!

once lailailai
no wind or waterfall 
 lailai
 

26 de novembro de 2012

Ámen


- Falhámos a vida, menino!
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: “vou ser assim, porque a beleza está em ser assim”. E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.

Há já vários dias que ando com este fim de Os Maias, entre Carlos e Ega, no pensamento. Ando com isto na ponta da língua e agora na ponta dos dedos. Para dizer que me tem ocorrido que falhar a vida talvez seja tão bom quanto acertá-la. Não poderei verificá-lo jamais porque só a falhei, mas, e este despojamento que advém de a ter falhado, de a ter falhado a sério, não àquela décalage entre a ideia de vida na juventude e a na maturidade, não: tudo muito bem falhado, à grande e à francesa e no grande como no pequeno, no amor e na profissão, no ser como no ter. Que alívio. Pronto, falhei, está falhado. Tão bom o despojamento de sonhos, de objectivos, de planos. Deus! a estas pequeníssimas e ilusórias liberdades de céu aberto, claro horizonte para qualquer norte, não sei se há acerto que lhes chegue aos calcanhares. Pois claro, sou muito erro, o mais certo é isto estar errado – se estiver, que sorte, amanhã posso experimentar pensar outra coisa qualquer…

Há, é evidente, o tempo ácido da frustração. Depois é uma porta que se abre. 

Haverá alguma coisa mais receptiva do que um mariano "assim seja"? Irresponsável como uma criança na mão dos pais, estar-se nas mãos da vida. Assim seja.

A vida conduz, aliás sempre conduziu, porém, de não irmos de mãos no volante, não há tensão nos ombros e sempre se poupa no osteopata.

Bonjour Mundo!

lailailailai
de ma ligne de chance de ma ligne de chance
dis-moi, chéri qu'est-ce que t'en penses ?
ce que j'en pense quelle importance
tais-toi et donne-moi ta main
ta ligne de hanche
ma ligne de chance
c'est un oiseau dans le matin
ta ligne de hanche
ma ligne de chance
l'oiseau frivole de nos destins
lai-lai


25 de novembro de 2012

03. POESIA? TAMBÉM EU QUERIA...

POESIA? TAMBÉM EU QUERIA...
talvez amar seja só
viver com gana:
dar a vida ao que se ama
a quem se ama
por quem se ama

Evangelho Segundo a Cabeça de Cão



[Em OUT OF AFRICA, de Sydney Pollack, Karen Blixen decide fazer um lago na sua fazenda. Para isso manda desviar um curso de água. É advertida de que aquela "água vive em Mombaça", pois é para lá que corre. Assim mesmo, fá-lo.  Mais tarde, durante uma estação das chuvas particularmente intensa, o dique não sustém a água e esta volta a correr o seu curso a despeito dos esforços.]

Karen Blixen: Forget it. This water lives in Mombassa anyway.


Cabeça de Cão : Palavra da Salvação. 
Leitores do Cabeça de Cão: Assim, de repente, parece-me a mesma da semana passada.
Cabeça de Cão: Pois não é. Mal comparado, é a prequela como nas guerras das estrelas. Antes de correr com a corrente, é preciso não opôr resistência, mesmo ao que não se consegue, de forma alguma, aceitar. Se não se é mais forte do que aquilo que se nos opõe, a resistência quebra-nos. É preciso avaliar cuidadosamente se o que tem poder para nos magoar, ainda que seja infinitamente pequeno, é, ou não, maior do que nós. Já viu algum surfista à porrada com as ondas? Não, nem vai ver,  e se vir, surfista não é, sequer ondas à porrada com surfistas. A mesma energia que num momento julgamos adversa, noutro julgamos benigna - o erro, obviamente, está no julgamento qualitativo que decorre, apenas, das circunstâncias. E também as circunstâncias se avaliam, não se julgam - sim, sei-o bem: easier said than done. Dimanche há mais. 


24 de novembro de 2012

Bonjour Mundo!

é sábado é sábado é sábado viva sábado VIVA!

23 de novembro de 2012

AMOR - FERNANDO CANHÃO


Este o foi desafio do Cão à bloga. Chegou o texto de Fernando Canhão, tão bom leitor do Escrever é Triste que, também triste, o escreve - merci. E vem de MGB GT primeiro, e numa BMW depois, para dizer que de amor, uma alhada, não se fala.



Já lá vão uns anos, os livros compravam-se no Centro Comercial de Alvalade, e nalguns outros sítios onde era tramado arrumar um carro. As vendedoras de Alvalade tinham também muito mais graça. Um amigo meu, que na altura lia pouco, revelou-me a ânsia de um grande amor. Avisei-o que se ia meter numa alhada. Que não, que tinha tido uma educação decente, que geralmente(?) respeitava as meninas, e que sem esse amor definharia pela certa. Os amigos são para apoiar. Sugeri-lhe uma surfista de Alvalade, a livraria, e inclusive quais os livros que deveria comprar, isto para causar uma boa impressão. “Manual de civilidade para meninas” de Pierre Louys e “Maria não me mates pois que sou tua mãe”, de Camilo Castello Branco, chancela da & Etc. ambos acabados de sair.

Liga-me dias depois eufórico, a surfista estava quase(?) na mão, ia ser levada a jantar a um restaurante étnico, mas claro que o carro luz dos seus olhos e inclusive carteira, iria ter um efeito devastador. Um MBG GT, branco, irresistível segundo ele. Passou dois dias a polir-lhe os raios das rodas, com um producto milagroso, encontrado na dispensa da casa dos pais. Chega o grande dia e lá vai ele buscar a pimpolha, pullover de cashmeer pelos ombros, Wayfarers e o restante da panóplia. O carro estacionado umas ruas por perto, resplandecente. Durante o trajecto palavras de situação, pois seria a visão do MGB GT a estocada final. Não existiam as mariquices dos comandos, por isso, ela, a surfista, só soube qual era o carro quando ele lhe abriu a porta – Olha que engraçado tens um FIAT como o da minha tia!

A noite foi uma desgraça, ainda por cima com o nervoso, as luzes ficaram acesas, e por isso o regresso foi de táxi.

Dias depois soube do sucedido. Acalmei-o, sugeri dar-lhe, à surfista, uma mesada e a chave de casa. Nem pensar, o erro era meu, a paixão ansiada teria de ser por alguém mais da sua idade e cultura. E claro nada de carros, uma mota BMW vintage bem mais viril. Em 15 dias, tinha agendada uma viagem pela Europa com uma morena semi-nova (boa de mecânica?) ligada às artes. Como amigo, expliquei-lhe, que seria pior a amêndoa que o rabanete. Mas que não, que eu era um céptico e assim por diante. Pegaram-se logo na portagem em Alverca, pois as calças justas não comportam trocos.

Segundo soube, desde há uns anos alguém lhe deu a mão, mas como não gosto de controvérsias, passamos só a falar de coisas mais simples. Com ele e com todas as outras pessoas de quem gosto, sem excepção.

Porque hoje é sexta-feira

DO SILÊNCIO DO MEU CORAÇÃO ME OUVES
Um dia falei com o Mestre Cruzeiro Seixas
ao telefone
ele por sua tanta amabilidade agradeceu-me um texto
que tolice eu é que obrigada
e levou-me a passeio pelas memórias
longa mata cheia onde pássaros cantam ainda 
porque a verde memória deles cantando canta também
Foi então que confirmei:
o mundo estava ao contrário
e sem surrealismo algum
até a vanguarda era para trás
(o tempo a velha serpente sempre jovem a morder a própria cauda)
e decerto estava presa pelos pés à terra
como quem faz o pino a começar do céu -
não tinha percebido que era uma foca amestrada
porque nunca tinha visto focas em liberdade:
na escola onde andei já crescida as paredes
eram em amarelo fluorescente e um lollipop hipnotizante
andava à roda o dia inteiro na mão dos ilusionistas
que nos tinham na mão
se a bola no nariz
sardinha no papo
qualquer pessoa fica ou doida varrida ou domesticada
ou fugida
eu fugia muito para o Café Gelo pensava que eles todos
ainda andavam por lá numa mágica temporal
onde o relógio se guardasse imóvel
Quando falei com o Mestre ao telefone
soube que tinha mesmo ido ao Café Gelo
A matéria do pensamento não é tão subtil como julguei:
se te chamar do silêncio do meu coração
amor
tu ouves-me

AMOR - MANUEL S. FONSECA

Este o foi desafio do Cão à bloga. Chegou o texto do Manuel S. Fonseca, do Escrever é Triste  - merci. E é uma short e chega: grande é o amor.

O Grande Amor

Mary perdera pai e mãe. A bendita cara e a perfeição ultrajante do corpo pouparam-na ao horror da miséria, abrindo-lhe as portas ao horror da vida. Não sei se o Amor é para aqui chamado. Chamava-a uma corte, um parlamento de homens. Talvez, um hipotético dia ou uma noite, o calor de outra mulher. Outras noites, noites de nenhum dia, a ardente promiscuidade de vários homens e algumas mulheres.
Mary, linda, tão bem vestida, cabelo pintado, o negro brilho de um creme, dizia: “Sei bem, oh se sei, como são os homens, mas sei que deve haver um homem que não é como os outros homens.” E nua, uma nudez limpa, perfumada, inclinava-se para dois corpos frenéticos.

Há inocências capazes de se esvair num segundo, num humilhante apalpão. Os horários desordenados, a enorme tristeza das festas, o gelo dos cocktails, o inóspito assalto masculino não roubavam a Mary a fome de sonho. Se descesse agora a rua, a sua rua, as mulheres à janela diriam: “É tão boa moça.” Nem os homens, nem os rapazinhos de leite as desmentiriam: “Tão boa menina.”  

Não havia uma ponta de leviandade na vida de Mary. Beijava, chupava, lambia. Beijavam-na, chupavam-na, o que lhe quisessem fazer. Não pedia socorro, beijava na boca. Nua, de cócoras, continuava a olhar de frente o sofrimento do homem só meio despido. Via a mão deste, no ar, indecisa. Percebia que o homem, este, não sabia se lhe havia de apertar o peito, se acariciar o cabelo que o gel enrijecera. Havia uns mais decididos que fodiam forte. De olhos fechados. Este olhava para ela, agachada. Este tinha um lirismo culpado no olhar e tinha de ser ela a quebrar o gelo: “Vai, não tenhas medo, vai-me ao cu.

Saía do cinema, de um restaurante, estava a despedir-se de um, três destes homens. O que foi, o que fosse, já não sabe, não conseguirá nunca voltar a saber. Sabe que viu no ar quente dessa noite um sorriso que era uma ideia de mundo. “Eu quero viver neste sorriso,” foi o que lhe gritou a inteligência do seu corpo. Não sabia se era um marinheiro, um contabilista, um poeta. Era um sorriso que tinha tudo, timidez e confiança, a mais descontraída alegria. Podia andar-se sobre aquela tão leve alegria. “Se me deixares viver dentro de ti, amo-te até ao fim dos dias, até ao fim da terra, o fim do mar.

Ele virou-se ou estava já, como um anjo, virado para qualquer dos lados de que ela lhe falasse. Estava na sua natureza concordar. Concordava com o Amor em género e número. Ela viu-lhe, na prodigiosa expansão do olhar, luzes, um arco-íris, um rufar de tambores. É engraçado, tão depressa se fazia noite, como se fazia dia, um nevoeiro musical, uma lâmpada líquida. E sem precisar de um bom-dia, de uma boa-tarde, ela viu que, embora ele usasse óculos, podia confiar, se lhe podia confiar.

É indiferente que lá fora faça chuva ou sol. Estão os dois neste quarto que transborda da casa, perfeita varanda do mundo. Estão descuidadamente vestidos a calça de treino dela, um top, a calça do pijama dele. E num impulso, uma coisa inaugural, um gesto, um verso, a mão de Mary desliza, roça, acaricia, agarra a mão dele. “Tens de saber. Amargo e doce, fiz tudo. Mas a minha mão, não. Nunca deixei nenhum homem segurar na minha mão.

O grande amor é dar a mão.

Bonjour Mundo!

lai-lai-lai
lai-lai-lai
red red red blues

22 de novembro de 2012

AMOR - RITA VASCONCELLOS

Este o foi desafio do Cão à bloga. Chegou um desenho penetra, perdão, surpresa - merci. É o da malvada, perdão, da Rita Vasconcellos, do Walter-Ego e também do Escrever é Triste  - eu bem lhe digo: querida, blog é como o amor, basta um para nos fazer a cabeça em água, perdão, para nos fazer felizes.


AMOR - ANA VIDAL


Este o foi desafio do Cão à bloga. Chegou o segundo texto e ele é, pasme-se, um primeiro soneto - merci. Da Ana Vidal, do Delito de Opinião. 


Eu ainda tentei a via filosófica, Eugénia, juro que tentei. Fiel ao meu Caeiro, temperei-o de uns pózinhos cartesianos, na esperança de um silogismo redentor que explicasse o Amor. Penso, logo existo. Amo, logo não penso. Mas... e a terceira premissa? Ó diacho, a coisa não me correu bem. Enfim, antes que a conclusão me encurralasse na humilhante escolha entre amar e existir, desisti da armadilha da lógica e decidi-me pela poesia. É mais segura. E, já que foi o Vinicius o inspirador desta odisseia, o soneto pareceu-me um bom berço para aconchegar as palavras do Amor. Aqui fica o meu contributo para tão espinhosa tarefa:

BLIND DATE

Traz na lapela do sorriso um beijo
para que a minha pele te reconheça
E deixa que esvoace algum desejo
sobre o teu ombro, como uma promessa

Não faças nada do que combinámos
que eu quero descobrir-te lentamente
num jogo sem passado nem presente
futuro apenas, tal como o sonhámos

Liberta-te de amarras e feitiços
Abre, por hoje, as asas de condor
Farei o mesmo. Seremos noviços

em claustros de silêncio e de esplendor
Filhos de um deus que acolhe os insubmissos
virgens de medos e de toda a dor



AMOR - GUI ABREU DE LIMA


Este o foi desafio do Cão à bloga. Chegou o primeiro texto - merci. É o da Gui Abreu de Lima, do Delito de Opinião. Não vos disse que o amor cabia perfeitamente numa página A4? Pois ainda sobra espaço...


Meu amor vou-te deixar...

Tão convincente és no abandono e nunca cumpres. Acabas sempre aqui. Sufocado de saudades, a roer queixumes, atraiçoado pela voz maldita que reivindica o que é teu. Só teu, dizes. A posse é a conquista deste vai e vem.

Tão convincente eu no teu abandono que me vence. Na aceitação com que remato o desespero, na persistência que imprimo à esperança, na culpa sacudida docemente dos teus ombros, dos meus. Voamos outra vez.

Tão convincentes somos neste embalo que a nenhum ocorreu ainda – meu amor, para a alma, cada abandono é sem sentido e o nosso voo perde altura.

Bonjour Mundo!

lailailai
we'd find a way to turn the hours into weeks
and then we'd say whatever lovers say 
lai lai


21 de novembro de 2012

01 - Histórias com fotografias


UM PAR DE OLHOS
Chovia muito. Chovia sempre. A mesma chuva arrastada e monótona: o céu preto, pejado de infinitas torneiras mínimas e pingantes. Era sempre de noite. Não porque fosse de noite, mas porque debaixo das luzes artificiais da cidade total que era a Terra, a natureza perdera o sentido. Ninguém dizia as estrelas. Dizia-se, por exemplo: nt 2418. E sabia-se que era o lugar menor, a sul, na constelação de Centaurus, onde era feita a prospecção de urânio – a propósito, estão a recrutar engenheiros para comissões de três anos em nt 2418. Ninguém dizia: flor. Bem, fora dos documentários e arquivos ninguém o diria, a menos que se estivesse a referir a documentários e arquivos. Quais flores?

Repito o que fazia o sempre. Perpétua chuva de poluição. Perpétua noite iluminada.

E também disto se fazia o sempre: acordar na mesma outra hora, viver a mesma outra hora, a hora com vista para o fim. Perpétuo e diário fim. Era isto a vida: fazer passar aqui, nesta hora, ovo cheio e fechado, sem o quebrar, um fio. De esperança. Todos os dias, todos os canais de comunicação informavam que eram os últimos dias – há mais de cem anos.

Porém, sob o escudo invisível e protector que cobria a Cidade, reparado em todas as horas e por reparar em todas as horas, ao lado da humidade dos metais corroídos, e apesar da concentração de água dentro das paredes, do aumento das doenças respiratórias, e do sem fim das partidas em direcção à dispersão estrelar, milhares de densos milhões habitavam ainda a Terra. Os últimos dias da Terra, entenda-se.  Sim, também disto se fazia o sempre.

De entre os que a habitavam, excluída a sazonal classe governante não executiva e não militar, evidentemente, havia os que não tinham visto de saída: os ainda completamente animais. Por ironia, quais plantas, enraizavam-se. Resilientes. De que vazio sideral lhes crescia o sonho? Nascidos na altura da explosão nanotecnológica, tinham atingido o pico com ela e assim mantinham extraordinária longevidade em belíssimo estado de conservação, sequer eram afectados pelas novas alergias. O pensamento, o de origem, sem programação pré-fetal. Surpreendentemente, estes humanos tinham-se revelado mais capazes do que os Genéticos da geração seguinte: a manipulação visara a perfeição e, afinal, verificara-se que a criatividade nasce da imperfeição, do defeito, da falta. Da diferença. Uma tragédia com grandes custos sociais – enfim, não vou fazer a história desse desencanto. O certo é que a Geração Minoritária, como se auto-denominavam os completamente animais, permanecia. Elástica, gerindo as falhas, resistindo e fazendo resistir o núcleo original habitável, levando o mundo da estagnação ao impossível reinício à custa de pura vontade e persistência. E abrindo o universo, sem o viajar, para que outros o viajassem - só animais o fariam. É do animal a securização do futuro da espécie. Na verdade, entre eles e a entropia, mais ninguém. Hora com vista para o fim. A única coisa que a Geração Minoritária queria, era tempo. Tempo para chegar ao futuro de si. E que a Terra durasse até lá.

Este era o mundo quando Madalena saiu de casa, de impermeável e guarda-chuva, às quatro da manhã como se fossem quatro da tarde. Ou meio-dia. Tudo em qualquer altura. As vinte e quatro horas do dia abertas para tudo em qualquer altura como só faz sentido em tempo de nos podermos salvar do quase nada a todo o momento. O seu contacto no mercado negro enviara-lhe um bip. Tinha um par de olhos. Tinha uma equipa. Tinha um bloco operatório.

Os olhos não haviam sido processados pelo sistema, garantira-lhe. Como se fosse preciso: eram de outro dos da Geração Minoritária – não se conseguia fazer nada com os órgãos sensitivos destes animais. Neste caso, tão pouco anular a memória retinal porque não havia um início. Não se conseguia fazer um reset, disfuncionavam. Ainda por cima, nem se podia limpar os campos visuais ligados à memória emocional, mesmo em pequenas coisas, elementares, por exemplo, o auto-foco por identidade de género sexual. Os olhos de um dos da Geração só poderiam servir a outro dos da Geração - só eles conseguiriam gerir as imprevistas ligações do sistema visual aos outros sistemas e a falta de classificação imagética. Melhor dizendo, a eles e aos poucos dos seus afincados descendentes que ao nascer já não se pertenciam, mas ao que havia por cumprir, filhos da dívida à Terra. E nem eram optimizados como os pais, um retrocesso de mais de dois séculos.

Ela era uma descendente. Pura. Tudo era carne, sangue e ossos. Pensamento seu, sentimentos seus, herdados desde a primeira célula antes dos primatas e até à última inspiração no último passo que dera na rua em direcção ao contacto. Precisava deles. Nascera com nictalopia e já não se praticava a técnica que reparara os olhos, ainda hoje de perfeita visão, da sua mãe. A doença fora erradicada no tempo dos Genéticos.

E, de repente, via de novo sem mais sombras do que as existentes. A médica:
- São perfeitos. Foi um sucesso. Fizemos a acomodação da memória retinal por acopolamento.
- Sim, percebi. Tenho imagens novas arrumadas por semelhança a desconhecidas: ao pensar nos meus pais, vi a mesa da sala de jantar posta para o almoço e esta outra mesa, nesta casa de jantar, veio por junto. E nunca vi um documentário sobre a Antiga Tóquio, onde agora fica o Senado. Espere. Isto não é documental. Isto é um Primeiro Olhar. Ele viu Tóquio.
- Viu sim, era um viajante. Preparámos-lhe uma biopic para a ajudar a adaptar-se às imagens guardadas na memória retinal.
- Obrigada.
- Incomoda-a que sejam de um homem?
- De todo. Ah, desculpe… só agora percebi, eu é que estou a incomodá-la com o meu olhar. Não foi por mal. Nunca tinha visto porque eram tão boas as mamas.



Esta história foi escrita a partir de uma surpreendente fotografia de Tóquio tirada pelo Vasco Grilo. O Vasco escreve aqui e escreve assim - apetece logo mais, não é? Não tenho a photo, mas não faz mal porque me lembro dela.

Bonjour Mundo!

waterloo lailailailai
waterloo lailailai
waterloo lailailai
so how could i ever lailai
i feel like i win when i lose
waterloo lailailail

20 de novembro de 2012

Bloga! Ó Bloga, vem cá ao Cão...


CUIDADO COM O CÃO!
No outro dia, estava a reler como sempre releio o meu querido Vinicius - uma alegria que me dei quando há muitos anos mandei vir pela 111 a obra completa dele, num só volume feliz, com páginas em papel bíblia e tudo ali, à mão de semear, tudo como deve ser, ie, como se nada fosse. Releio, aliás, muito e todos os meus queridos, até porque ler, de fresco, cada vez leio menos. Derivei, que nervos. De volta. 

No outro dia estava a ler PARA VIVER UM GRANDE AMOR, do Vinicius de Moraes. E pensei: com excepção do amor pelos filhos, família, amigos, o amor, aquele amor que cada um sabe qual foi e porquê, não interessa se porque foi o primeiro, se porque o último, ou o pior, o amor, aquele amor que foi o inferno no céu dos dias, ou o contrário, ou o amor nosso de cada dia, que amor é? Como é amar? O que é o amor?

Então, proponho-lhe: 

1. escreva uma crónica, confessional ou filosófica, lírica e dionísica, ou de um racionalismo de emparedar Eros, tanto faz logo que o faça de gosto e não seja em mais do que uma página A4 - toda a gente sabe que o amor cabe perfeitamente numa página A4. E conte-me logo, está o email lá em baixo, para que vá lê-la e linká-la e postá-la aqui também. E se quiser, convide quem quiser a juntar-se, que raio, os tempos vão duros, o inverno está à porta e o amor aquece os pés; 

2. para começo de conversa, convido, do ESCREVER É TRISTEos seguintes rapazes à escrita: Manuel S. FonsecaFernando Canhão. Do DELITO DE OPINIÃO, a Ana Vidal e a Gui Abreu de Lima

3. `bora lá.


Porque hoje é terça-feira

O JARDIM SECRETO
Até onde se estende o verde 
entre o teu e o meu jardim?
Poderia dizer-te do perigo
alertar-te contra o coração
que dança sobre o abismo
contar-te que a voz que canta
na voz do rio corrente
é a que se desprendeu de nós
num outro tempo
antes da corrupção dos metais
quando a terra era virgem dos nossos passos
e o encantamento o estado das coisas naturais
e por isso nas matas as bagas
entregavam-se por amor
à fome dos animais
Poderia dizer-te do perigo
poderia dizer-te mas não digo
quero saber até onde se estende
o verde entre o teu e o meu jardim

Bonjour Mundo!

lailailai exists
in the pages of scripts and
the songs that they sing
and all the beautiful things
that make you weep but
don't have to make you weak
lailailai
never never
lailailai


19 de novembro de 2012

Da Política* - 2

Se a minha rica amiga tiver uma casa de, vá, duzentos e cinquenta mil euros, e dever vinte e cinco tostões ao fisco, o que é lhe acontece? Zás! penhora. Não pagou a portagem? Toma que o primo fisco lhe vende a carripana que já sequer serve para entrar em Lisboa porque o tio Costa não deixa. Posto isto, ainda que nunca tenha sido grande apreciadora do pneumático, olhe, torre o dinheiro em maminhas de silicone que a essas o Gaspar, por muito que queira, não deita a mão - o português é lixado.


* ai quer saber o que lailailai o asterisco? Vá ao 1.

Bonjour Mundo!

lailailai
lailailai
lai lai lai lai

18 de novembro de 2012

A OUTRA FACE - 11

A OUTRA FACE é, para o Cabeça de Cão, bem entendido, o post da semana publicado na bloga. Porquê? Porque poucas coisas me dão o prazer que a leitura me dá. E assim, sem renhonhós, bem posto e com vontade de mais, não há por aí a pontatapé. Até me deixou, pasme-se, curiosa. Conto tudo:

Eu para a minha amiga que conhece toda a gente e a que não conhece, conhece quem conheça:
- Olhe, li isto, leu? fiquei toda contente, dá-me alegria quando alguém escreve assim, mas não sei quem é Gui.
A minha amiga que conhece toda a gente e a que não conhece, conhece quem conheça, para mim:
- Também não, querida, mas vou saber e já lhe digo.

O que é bom, é para partilhar. Quanto a si, Gui, merci - rima, mas paciência.


Evangelho Segundo a Cabeça de Cão


[Em La Verité, de Henri-Georges Clouzot, Dominique, a belíssima Bardot, sai da cama linda e nuazinha, a dançar na pontinha dos pés.]




Cabeça de Cão : Palavra da Salvação. 
Leitores do Cabeça de Cão: Mas se não há qualquer palavra!
Cabeça de Cão: Nem faz falta: é ilustrativo e basta. Quando não se sabe o que se há-de fazer, e se faz alguma coisa, faz-se asneira. É muito difícil nada fazer e deixar a corrente correr, tão difícil que há gente enfiada em mosteiros mais ou menos zen, mais ou menos tao, a aprendê-lo. Quando não puder fazer nada, não faça. Dance ou qualquer outra coisinha que lhe despoje o pensamento enquanto dá alegria à vida. Dimanche há mais.

17 de novembro de 2012

An apple a day keeps the doctor away

Já apanhou uma daquelas pêras que até ficou a ver estrelas?

Se apanhou é bem-feita, ou karma, ou lá o que é e não conte comigo para beijinhos no dói-dói. Sofra. Pode ser que um dia seja linda/o como eu e veja estrelas dentro de maçãs que nem é preciso apanhar, logo ao pequeno-almoço, fresquinhas, e entregues a domicílio pelo telemóvel.

Quem tem amigos tem tudo. Olaré.


Bonjour Mundo!

moi je joue
lailailailai
mais vous le voulez-vous
de tout coeur
je veux gagner ce coeur à coeur
vous connaissez mon jeu par coeur
alors défendez-vous
sans tricher je vous le promets
j'ai gagné tant pis c'est bien fait
vous êtes mon jouet
a présent ce ne sera plus vous mais toi
lailailai
tu crieras bientôt "au secours"
je t'aimerai plus fort
oh oui lailailai

é sábado é sábado é sábado viva sábado VIVA!

16 de novembro de 2012

Cantam as nossas almas




WHO WANTS TO BE JOSÉ SARAMAGO?
Talvez não seja a mais saramaguiana das pessoas. Li. Claro. Tive mesmo gosto em ler O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS. De manhã até à noite, nem pus o pé no calor da rua, um quarto de sombra: de barriga para baixo, estendida na cama, a ler, numa pensão baratíssima. Aí pelas seis, mesmo antes da primeira luz, vinda da rua, a voz de um cigano numa saeta até ao céu atravessou paredes, janelas fechadas, e lá foi até ao muito mais alto.

Foi na exacta pensão onde já estivemos todos. Nunca esqueci ainda que jamais tenha voltado ou a lugar parecido. Para alguns será o motel duvidoso, ou o apartamento velho, repartido, paredes de papel, a vida aos solavancos dos vizinhos. É uma pensão cinematográfica e literária mesmo quando é concreta e definitiva como o passado, aquela era. Porque se a reconhece do cinema e dos livros, tem-se a certeza de que se pode ser feliz nos clichés onde a decadência da canalização não contamina a alma de passagem.

Tentei a leitura de muitos outros dos livros dele depois deste que primeiro li. A alguns, forcei-os, colher de xarope, e lá foram goela abaixo. Outros não, não consegui engoli-los. Não sei. Talvez me tenha faltado a voz de romper auroras do cigano. Ou a pensão. Ou os amantes do quarto ao lado – eram tão velhos, parecia-me, para tanto ai que não corava de ser visto por ouvidos voyeurs à força, eram velhos, tinham à vontade quarenta anos, ou mais. Também não me esqueci deles: a mulher, saía-lhe o riso pelos olhos, um vestido castanho e amarelo, sandálias de tiras castanhas, a mala verde, sintética na esfoladela, via-se que andara a matutar naquele arranjo: uma princesa num final ilícito e feliz.

Enfim. Vi o documentário JOSÉ E PILAR. Podia mentir, todavia é uma perda de tempo quando a vida dura tão pouco: as línguas dogmáticas, mesmo as nobelizadas, fazem-me desligar. Sequer é de propósito. Deixo de ouvir, de saber onde estou porque não sei para onde me fugi. Clic.

Porém. Chateia-me toda aquela psico-chinfrineira mais as agulhas: ai casou com o pai. Que treta. Casou com o amor, assim, nem menos e nem mais, porque mais não há. E o outro barulho todo, agudo, das agulhas em perfeita estereofonia: controlava, hárpia, Saramago até à respiração. Que treta. Também ele casou com o amor. Estas coisas é que são dogmáticas sem dogma algum: vêem-se, agarram-se: a dedicação que é sempre a da vida; a paixão que é sempre fogo do pensamento e alegria da carne. Mesmo a felicidade da presença, ainda que em linhas impressas, exposta em pequeníssimos gestos, vê-se: prender os dedos da própria mão, fechá-la num punho rápido à velocidade de um sorriso de triunfo enquanto lê a nova página escrita pelo marido, a satisfação, o orgulho, o agarraste a frase pelo cachaço, tudo no gesto rápido, no sorriso. Que orgulho amar um homem assim, percebe-se, amar o amor. E ele, com voz de filho, voz de amante: Pilar, o que digo? A determinação de amar o amor mais que atingida. Na verdade, todo este parágrafo é inútil já que cabe numa imagem do filme que decorre enquanto é escrita  A VIAGEM DO ELEFANTE. Ele está à secretária. Computador diante de si. Para alcançar qualquer coisa, ela não o rodeia, antes estende o corpo sobre ele que aproveita para roçar o rosto no corpo dela, mais umas festas mansas e uma palmada no rabiosque.

E diante da interpretação de João Afonso, que tão presente deixou o tio Zeca Afonso, ouvi-lo dizer: talvez a morte não exista. 

Quem ama não pode dar-se ao luxo de morrer.

Quando já não se consegue acreditar em nada daquilo em que se acreditou, se aspirou, resolve Miguel Gonçalves Mendes mostrá-lo, porque existe, num documentário, saeta até ao céu, porque existe uma só carne que a morte não separa. E isto para mim é prova bastante de Deus ainda que não creia Nele.


01 - POSTAIS DE CAMBRIDGE


ADLESTROP
Há grandecíssima poesia.

No domingo passado, e porque estou a começar tudo do princípio noutro país, noutra língua, ie, sim a isto não àquilo, tinha, nessa manhã, dois jornais a ver se algum deles seria o meu jornal dos domingos - ando a provar a imprensa inglesa, por atacado é muito diferente deste artigo aqui, aquele ali. Um deles, o Sunday Times.

A revista Culture trazia plasmada a fotografia de Edward Thomas. Pensei, isto vai correr bem, sem pensar que Edward Thomas lá estava em nome do Rememberence Day, Armistício, que, em inglês, assume uma dimensão proporcional às perdas tidas nas guerras, e mais ainda às da primeira e segunda grandes guerras.

A uma seguríssima distância do cheiro do sangue, e na posse de um comando que mudava de canal quando o horror das trincheiras apertadas de medo se fazia mais próximo, estava, feliz da vida, a antecipar o artigo e com o pensamento de carreirinha, onda que se apanha, logo em Ted Hughes até chegar à praia, a Tranströmer – confesso: jamais me ocorreu que ganhasse um Nobel, e lembro, era um daqueles poetas sobre quem em Portugal ninguém falava, se o conhecia, não era por qualquer mérito cultural, antes por ter uma fraqueza pela luz branca e uma poesia assim, que irrompe tal planta súbita e nos faz esquecer a lentura germinada debaixo da terra, e onde o quotidiano de trânsito, contas, roupa a lavar, tem o valor do pássaro que canta enquanto o comboio está parado na estação de Adlestrop, onde nada acontece, onde ninguém está para além da natureza em volta, parado a caminho da guerra de onde não retornará. Por isto a escolha de Edward Thomas. Porque foi imprevisto até de si mesmo como voluntário para a guerra. Porque toda a Inglaterra natural de árvores e folhas lhe nasce tenra nos versos, ramos altos de chilreio, ainda e para sempre intocada.

Não acredito, porém. Sou estrangeira, vejo com olhos portugueses. Se Edward Thomas é esta bandeira, é-o, não em nome da naturalidade verde, amada, rural e calçada de wellies pelas veredas, mas em nome do indizível silêncio. Porque, por amor, descreveu a guerra numa imensa elipse. Porque a morte é uma cratera inóspita, inabitável. Porque em volta dela a vida continua a viver, tão amada. A morte. Imensa cratera onde nada cresce, nada canta, só a ausência.

ADLESTROP
Yes, I remember Adlestrop -
The name, because one afternoon
Of heat the express-train drew up there
Unwontedly. It was late June.

The steam hissed. Someone cleared his throat.
No one left and no one came
On the bare platform. What I saw
Was Adlestrop - only the name

And willows, willow-herb, and grass,
And meadowsweet, and haycocks dry,
No whit less still and lonely fair
Than the high cloudlets in the sky.

And for that minute a blackbird sang
Close by, and round him, mistier,
Farther and farther, all the birds
Of Oxfordshire and Gloucestershire.


Bonjour Mundo!

lailailailai
i tuoi difetti son talmente tanti
che nemmeno tu li sai
sei peggio di un bambino capriccioso
sei l'uomo più egoista e prepotente
lailailailailai
non me le ricordo più
lai lai lai lai lai lai

A minha mazinha, perdão, a Mina Mazzini, é como a minha Gigliola, sabe tudo tudinho.

15 de novembro de 2012

O REINO DA ESTUPIDEZ - i


A literatura não pode ser ensinada. Ensinar seja o que for é apresentar um instrumental adequado e explicar a maneira de uma pessoa tirar proveito dele. Daí resulta que se ensina a escrever estudos sobre literatura, e estudos sobre os estudos de literatura, indefinidamente; ou ainda se ensina a ensinar literatura.

Jorge de Sena in O REINO DA ESTUPIDEZ

O REINO DA ESTUPIDEZ
- TODO EM RIMAS BEBÉS -

i - AS DAMAS
Era uma dama
Mas ó escritora-poeta
Deitada na cama
Tinha um leque
De lantejoulas
Uma estética
Anti-ceroulas
E a bem da verdade
Da realidade
Dos aromas e dos odores
Apenas perfumes
Exalavam dos corpos
Dos campos das flores
Em cada verso relambório
O esforço do dicionário
Deixava-a exausta e rouca
- Sacrificava-se
Pois se era douta
E vá de tisana
Para acalmar o melodrama
De tanta sabedoria anafada
Tinha a cabeça pesada
E nem a erguia
Da almofada
Era por isso uma dama
Mas ó escritora-poeta
Deitada na cama

Bonjour Mundo!

a vida é aventura
lailailai
e a vida sorri

14 de novembro de 2012

05 - POEMAS DO NOVO MUNDO

Roubaste-me o coração com um só dos teus olhares.
in O CÂNTICO DOS CÂNTICOS

UM SÓ
Na praia tranquila
uma maré de destroços
do naufrágio das bibliotecas
dá à costa a calma do mundo e a fúria
dois para fazer o nome da alegria
calma e fúria são a alegria
a maré de destroços
são todas as letras:
palavras conchas palavras contas
palavras malões palavras vestidos
palavras peixes coloridos escamas de luz
enfiadas num colar
rente ao pescoço à beira da voz
algas versos de nós colhidas ali do sal da água
da fúria e da calma
Uma Bíblia flutua
calma e fúria são alegria no Cântico das páginas
arrancadas de dentro de onde não cabe a hipérbole dos Cânticos
tão mal cosidas páginas a tempo da igreja
e não haverá oração mais sagrada melhor alimento
tão mal cozido pão de páginas
Cântico arrancado cru da hipérbole dos Cânticos
mal cosido Cântico no tempo boa a linha
para enfiar os destroços do naufrágio das bibliotecas
uma a uma conta amado concha na linha do Cântico
uma a uma letra amado à beira da voz colares de algas
um a um búzios de nós
peixes coloridos
uma a uma escama letra de luz:
são teus amores amado
memória na escada do ouvido à beira da voz
até que o mel na ponta da língua
fosse o corte na ponta da seta
surdos
morrem gamos
caiem flechas
Nenhum coração se rasga
na praia tranquila
que não seja de amor:
roubaste-me com um só dos teus olhares

Bonjour Mundo!

lailailai
y la baila
y la goza
y la canta
aserejé ja deje tejebe tude jebere
sebiunouba majabi an de bugui an de buididipí
lailai
lailai


13 de novembro de 2012

CUIDADO COM O CÃO!

Queria, queria falar com a bloga hoje. Mas não consigo. Porquê? Olhe, isto de andar com as valises para trás e para diante, low cost acima-low cost abaixo, a fazer pela vida, cansa. A mim. O Cão avisa: está fresco.



12 de novembro de 2012

Agora todos!


O outro não funcionava: queriam estragar-me o diabo da cantoria em coro. Não.

11 de novembro de 2012

Cuidado com o Cão!

O Cão quer saber, e vai já já descobrir, quem é menino, menina, para não largar o osso. E mais não digo. Hoje. Espere por terça. À noite.

Bicycle Biclycle Bicycle...


7 de novembro de 2012

Bonjour Mundo!

lailailai
oh give me land lots of land under starry skies above
don't fence me in
let me ride through the wide open country that i love
don't fence me in
let me be by myself in the evenin' breeze
and listen to the murmur of the cottonwood trees
send me off forever but i ask you please
don't fence me in
just turn me loose let me straddle my old saddle
underneath the western skies
on my Cayuse let me wander over yonder
till i see the mountains rise
i want to ride to the ridge where the west commences
and gaze at the moon till i lose my senses
and i can't look at hovels and I can't stand fences
don't fence me in
wildcat eugénia back again in town
was standin by her sweethearts side
and when her sweetheart said “come on let's settle down”
wildcat raised his head and cried
 oh give me land lots of land under starry skies above
don't fence me in
lailailailai 

6 de novembro de 2012

Convertei-vos e acreditai, malvados!*



* E depressa que esta bonecagem em movimento me deixa tonta. Só a minha rica Bellucci é que justifica este maluquedo, ó-ó...

ii - A GRANDE AVENTURA DE AMÉRICO CHARLES

II

Charlotte era tudo quanto os pais haviam querido que fosse. Nunca a determinação se apresentara mais delicada, nunca a etiqueta fora tão natural, nunca a modéstia tão sofisticada.

Olhava-se para Charlotte, perscrutava-se-lhe os pulsos finos, o pescoço longo, a brancura anilada da pele, espreitava-se-lhe o sorriso e nem à superfície nem ao fundo se encontrava vestígio do pai, Américo, a presença da mãe, Marie. E, no entanto, quem mais visível? Do pai, toda a ambição vestida de seda e rendada de Bruxelas lá estava em cada detalhe de perfeição. E da mãe, o olhar de deusa sobre o mundo: compaixão e superioridade.

Marie, a mãe. Ninguém conhece melhor as regras do que o mordomo. E Marie, filha do mordomo dos Spencer da Virgínia, Charles e Elizabeth – os mesmos de Bedfordshire, do mesmo tronco dos de Northamptonshire - e da criada pessoal desta, criara a filha à imagem que a sua infância guardara do casal. Tanto era o amor que lhe tinha - pois não é isto fazê-la de outra carne que não a sua para lhe dar o melhor mundo, arriscando dar-lhe o limbo da diferença de a lugar algum pertencer? Quando Charlotte nascera, nascera de facto: primeira criatura, filha de um sonho sem realidade para dar realidade ao sonho. Marie alimentara um corpo para lhe ser estranho, que não a espelhasse, com método para o substanciar, o alimentara. A execução de um sonho pede a disciplina que só quem sabe o que quer e não o tem consegue. Marie sabia e Charlotte fizera-se uma mulher de poder, mas graciosa, fácil, de recantos inefáveis. E razoável, sensata.

Qualquer homem em situação de casar-se prefere a estabilidade social e o bom senso à beleza. Se apetece qualquer coisa exótica, pois vai buscá-la ao teatro, às artistas para alguma exuberância, às coristas para coisa mais rápida - com as criadas nunca dá bom resultado, para além do transtorno: incomoda mais à mulher que lhe falte pessoal doméstico em condições, do que um affair inconsequente de saias ao ar. E se um homem quer espevitar o fim da meia idade, pois haverá sempre a mulher de um amigo, um igual, com quem descobrir o entusiasmo de ser objecto de uma definitiva paixão, como o são as paixões tardias. Decerto uma vida inteira dedicada à família e ao património lho devem.

Todavia Charlotte reunira nela os benefícios de uma esposa com o picante de uma corista, e o amargo-doce de uma amante amada. Vantagens da soma de um dote de estalo com a genética transgressora mais o incómodo de encarnar um ideal feminino, mistério feito à medida de um homem.

O pai, o italiano, deixava muito a desejar no salão, mas, agudo, para si mesmo preferia o escritório. A mulher, em irrepreensível francês materno de servir, constrita ainda pela rigidez do próprio pai, facilmente era tomada por une grande dame de severa postura de berço.

Todas as vantajosas perfeições de Charlotte passavam pela cabeça de Teddy mesmo ao lado das inconveniências sociais que trazia. Estas não o beliscavam, tinha nome suficiente para lhes dobrar a espinha. No entanto, o mais elementar não passava pela cabeça de Teddy: começamos sempre pelo começo e o começo, o único e inicial fiat, é verbo conjugado em pai e mãe. 

Charlotte, filha de Américo em italiano na tradução inglesa de galego, e de Marie, francesa de língua sem pátria.