14 de outubro de 2012

vi - Para Borges, ao serão

Pequeninas histórias para o serão de Borges.

MAGDA
Não pensava em Magda. Pensar o quê de Magda? Se não é pelas virtudes nem pelos defeitos que a ama. Nem pelo corpo apesar do corpo. Ama porque ama porque ama. Porque a razão do amor é amar-se. Há afirmações inúteis. Na justificação do amor todos os por isto e por aquilo são verdadeiros. E são falsos. Quantas mais pessoas haverá no mundo com aquela medida exacta de bondade amável, boa? Sabe-se lá. E a crueldade preta na pupila? Amam-se todas? Qual quê… Nem a todos os cabelos louros que fazem uma onda assim, à altura da nuca. Pensar para quê?

A essência do amor? Que é isso? Pensa-se no ar enquanto se respira? A essência é filosofia que nunca ninguém viu. O ar é oxigénio concreto que entra pelo nariz e vai até desaguar nos alvéolos. Favos de mel são o que temos no peito quando amamos. Nem pensava nela, portanto, respirava-a e vivia. Mel nos favos. É isto.

De vez em quando era tomado por uma euforia, uma espécie de alegria mas na carne, um sorriso das entranhas aos olhos e o pensamento todo em festa. E mesmo em volta dele, porque a alegria lhe transbordava, e ele sentia-a, podia jurar que quase a agarrava. Que confusão sistematizar a felicidade que não cabe dentro, que fácil vivê-la. Sabe-se lá explicar uma grandeza destas? Os cantos da boca levantados e uma pessoa desconhecida do próprio sorriso, o peito a respirar aroma de pinheiros em plena cidade. Um sistema circulatório interno-externo da alegria e pronto. As sensações são indizíveis a menos que se diga outra coisa, uma mentira que revele a verdade de as sentir: uma enxaqueca não é o betão armado da cabeça a ser furado por um martelo pneumático? Pois bem. Há gente atravessada de balas e ele, ali, todo atravessado de alegria, fresco de pinho, doce de mel. Um rei. Sabia que aquilo, aquele amor, vinha do fundo do mistério do mundo, era uma daquelas coisas imensas que não conseguia pensar em palavras claras, só em imagens e em vazio. Festa. Foi nessa altura que se convenceu que a felicidade devia ser mais que antiga, primitiva. Também se convenceu que Deus, a existir, era feito dessa matéria que rasgava sem dor, se iluminava de escuridão. Felicidade.

Não era ele que estava deprimido, era o peito, uma cova desoxigenada desde o dia
- não és tu, sou eu, não te posso amar como tu mereces.
Ele não. Ele estava muito bem. Depois da perplexidade do descontínuo amoroso - poderá haver amor que não seja absoluto, irremediável, para sempre? -, depois do não te amo enfiado à faca dentro dos putativos merecimentos, os favos todos vazios ao abandono da doçura e o oxigénio todo cheio dos escapes dos autocarros no trânsito. E começara não só a duvidar das palavras, mas daquilo que elas representavam. Nem dava por falar sozinho
- amas, claro que me amas Magda, então não amas?! Cabra. Fui um parvo. Sou um parvo.

A primeira vez aconteceu de manhã cedo. Desceu para o pequeno-almoço. Domingo. Veio de pijama e banho por tomar. Entrou na cozinha. A fruteira vazia. Nem uma laranja para o sumo
- ó porra, o que é feito das laranjas?
Andava impaciente, todavia muito bem. Mesmo naquela figura enfiou-se no elevador e desceu à garagem: tinha-as deixado no carro, de certeza, o saco esquecido, não, não era nada de especial, andava esquecido, ele, ainda que estivesse lindamente, estava, porque de as ter no carro lembrava-se, rolaram bagageira fora, duas. Até porque carregara um monte de sacos. Nem vestígio das laranjas. Ó que caraças! se era capaz de jurar, duas pela bagageira. Depois, mais de um mês depois, uma noite em que o comando falhou nas pilhas, ao voltar de as ter ido trocar, desaparecera-lhe o sofá. Diabo…

Objectos grandes ou pequenos, não interessava a dimensão, sumiam-se. A frequência entre os desaparecimentos aumentava. Ao fim de um ano, até a meio de um salmonete se lhe escafedera o garfo que tinha na mão. Acabou por se acostumar com o ilusionismo, ao menos era discreto: não acontecia diante de terceiros nem no emprego.

Fora isto de só ver gente no emprego, na rua, no prédio, estava óptimo: deixou de comprar laranjas para o pequeno almoço e enquanto teve cadeiras foi-se sentando nelas - depois habituou-se ao chão que nunca lhe fugiu de debaixo dos pés. Houve aquele incidente da costela. Porém, flutuante como ela. Não era de queixinhas nem tinha do que se queixar, a vida era como era. A meio de um sonho que quebrara as leis do tempo, ele e Magda conversavam deitados lado a lado, as toalhas de praia coladas, acordou com a violência duma pancada: a cama acabara de se evadir, ele estatelado e com o manípulo de suporte da passadeira de dobrar onde nunca dera um passo a esmigalhar-lhe os ossos. O osso. E nem esmigalhou. Era das de dobrar, a passadeira, a costela era das de partir, era dela, a passadeira, fazia quilómetros naquilo. Magda. Cabra. Fora a costela partida, estava bem. Teria preferido, claro, que fosse a merda da passadeira a desintegrar-se em vez da cama.

Demoraram muito tempo a dar por falta dele - empresas multinacionais. Quando a polícia foi procurá-lo a casa, encontrou-a vazia, nem sinal sequer dos armários embutidos nem dos electrodomésticos encastrados nos móveis da cozinha. Nem torneira nem pia, quanto mais.
- Estranha ocorrência, não te parece, ó Pires?
Ao Pires há-de ter parecido estranha. A toda a gente pareceu. Menos a Magda. Quando lhe contaram, levou algum tempo a lembrar-se de quem era ele, depois
- ah, sim… chegámos a viver mais ou menos juntos, acho que foi logo a seguir ao Paulo e antes do Afonso, um ano ou quase dois. Desapareceu? Sabes, sempre lhe achei um sorriso parvo.