12 de outubro de 2012

v - Para Borges, ao serão

Pequeninas histórias para o serão de Borges.

A RAPARIGA DO DORIAN GRAY
O espelho por cima do lavatório não deixava ver nada, o vapor da água condensara e só agora começava a desfazer-se. Se ela ali estivesse, passaria com o secador de cabelo diante daquela névoa e esta abrir-se-ia para mostrar o olhar eficiente e a mão armada de secador em punho. Mas não estava. Estava só ele. Farto de tanta eficiência, da optimização de tudo. Farto até do secador. Deslizou a mão pela superfície húmida. A água quente era cruel: aquele homem de meia idade era ele, as rugas eram as dele, as olheiras, os papos. Mais gordo, estava mais gordo. Futebol. Jogging na passadeira - e o tempo? Trabalho de horas infinitas, mais a vida nas horas sobrantes, que diabo, há que viver. Um homem tem de viver. Ele vivia. Dava-lhe, pelo menos, a impressão de que sim. Uma cadeia bem entrelaçada de sucessos profissionais, os melhores amigos do mundo, sempre os mesmos, amor, sempre diferente: dois anos para chegar do céu ao inferno e de volta ao céu. Morena, ruiva, loura, todas. Uma de cada vez desde a idade do juízo, ainda que, em regra, o princípio de uma se sobrepusesse ao fim de outra, as últimas discussões com os primeiros risos, o choro por baixo dos novos mimos - nem contava como traição já que o corpo que antes o chamava, fresco nos pulsos, morno no peito, quente no beijo, era uma massa nua na cama fora de horas. Nua porquê?

As mulheres não compreendem a ignição do desejo depois perdido. Não percebem que não são elas, são eles, o que eles pensam a sós com eles: a nudez, se não for primeiro mental, se não se passa entre eles e eles naquele exacto lugar onde a maior ternura açaima a maior violência, ninguém a despe. Tanto faz que esteja nua como vestida a mulher que não apetece, está vestida, antes esteja. Está fora de horas, fora do tempo, fora de prazo de validade. E pode ter vinte saias a outra, a desejada, que só a ideia de as desfolhar é nua. A verdade é que era sempre aquele tédio, o corpo morto na cama, um peso morto ao pescoço, o fim, que chatice a demora, a vontade de outros braços, outro cabelo, outro cheiro, desaparece, vem depressa, já estava apaixonado outra vez até ao tédio que cedo ou tarde chegaria. Do ceú ao inferno vão dois anos de luz, o resto é escuridão. Desta vez é que é. Era sempre desta vez. E não era. Nunca fora, em vez nenhuma. Era sempre.

Lembrava-se. Uma vez, na faculdade, meu Deus, há mil anos, ou ontem, nem sabia, acabara de acabar, com quem?, dizia-se assim, então: acabámos; acabei; ela acabou. Quem era ela? De vez em quando, ao invés de nós, acrescentava-se o comigo, com ele, com ela. Casos mais graves, como a própria expressão indicava, prostrantes. Ela acabou comigo. Estávamos acabados. No caso, quem acabara com ela fora ele. Mas quem?, é que não conseguia recordar-se do nome, apesar de se recordar perfeitamente que ela tinha um horrível soutien lilás - agora por isso, há um tempo em que toda a carne é lisa na perfeita tensão dos tecidos e as lágrimas são surpreendentes à despedida porque a chegada é leve, não tem passado, não tem peso, deve ser isso que mantém os tecidos, a ausência de passado, a força da gravidade da tristeza, carrega não os anos, o corpo.

As mesas do bar eram hexágonos verdes cortados ao meio, usava-se uns sobretudos verdes com um macho atrás, ou cortados a direito, era inverno verde floresta, névoa como a do espelho mas do tabaco, fumava-se dantes, mesmo nas aulas, enrolavam-se folhas A4 de caderno em cartucho de castanhas assadas por cinzeiro, prendiam-se entre as mesas, e para grande consternação dele, ela chorara no meio do bar, à despedida, lágrimas grossas de inverno a meio hexágono de distância, a fila para o almoço enorme e já uma floresta entre os dois. Olhara em volta, mais preocupado com que seria percebido do que com ela, se tivera o cuidado de escolher um sítio público para evitar cenas, como é que ela se chamava, também fora coisa pouca, dois, três meses, sexo, nada, qual era o nome dela? O cuidado de um lugar público e lágrimas. Ninguém vira. Vá lá. Respirara fundo e quando se preparava para sair, ao subir os poucos degraus, outra vez livre, lobo, ouviu, em sorriso de cascata maliciosa no ouvido, nem lhe viu o rosto, quem terá sido, um blazer de tweed castanho com cotoveleiras, na ultrapassagem pela direita sem pisca, em cascata, já no último degrau, as pregas bailarinas da saia desapareceram rápidas no corredor cheio, mas terá ouvido o sorriso malicioso?

- Cuidado, olhe que o coração é como O Retrato de Dorian Gray: envelhece mal quando o fecham no armário.