25 de outubro de 2012

vii - Para Borges, ao serão

Pequeninas histórias para o serão de Borges.

LEI LING
Três da tarde batidas no relógio da Sé. Em passos pequenos, medidos a régua, elásticos, lá vinha ela, ainda um pontinho, hoje azul, ontem vermelho, lá vem ela, é azul o qipao, a flor, flores se o pé tivesse duas, viria depois, se o pé tiver duas, serão duas hoje, rosa forte, há-de pô-las abaixo da orelha esquerda, dali não se adivinhava que o faria, medidos a régua, elásticos, não se adivinhava que pararia até que parasse, logo depois de colhida a flor, flores se o pé tivesse duas, inspirado dentro o cheiro, mesmo do centro das pétalas dobradas, eram todas dobradas, não as havia singelas, era sempre de frescura a flor, flores no cabelo, o aroma fortíssimo dissipava-se logo, detrás o alto pescoço liso, o coque baixo, um desarranjo de pétalas desarranjava tudo às três da tarde batidas no relógio da Sé.

Havia pouca vergonha naquela chinesa. A bainha mal lhe tocava o joelho e a racha mostrava a coxa. A ousadia! Da mesa do lado, o Joaquim Ildefonso, numa tarde de medronho, fazendo justiça à fama de bêbado, tinha aberto a bocarra: ó coisinha do pai… mas as palavras caíram todas no chão, letra a letra partidas, sem lhe tocarem, não havia nela nem mácula de culpa nem de provocação. Havia inocência naquela chinesa. Não pestanejara sequer, uma estátua surda em movimento. Ninguém mostrava a pele pernas acima, cetim de seda abaixo, a carne leve, quase morena, como se fizesse gosto de apanhar sol. Havia pouca vergonha naquela chinesa.

Mulheres, estrangeiras, de vez em quando davam à costa como um peixe doente, umas malucas em pelota feitas as actrizes americanas, e bebiam, riam alto, mas nem eram bem mulheres a sério com quem um homem chegasse à fala à frente do povo, se bem que não fossem nada de se jogar fora se estivessem sozinhas, nunca estavam, cadelas de colo. Essas apanhavam sol. E os finórios que iam a banhos derreter o dinheiro a França. Eles não, gente decente, não. Donde vinha a chinesa, a única chinesa da cidade? Para onde ia quando se sumia no dobrar da esquina? Desaparecia?

Aquela chinesa, mais nua que as actrizes vestidas na tela, passava como se mais vestida que as vestidas casadoiras e casadas, mães que tivessem saído de casa por uma urgência ou uma falta que a mercearia ali mesmo ao lado, Mercearia Aliança, supriria fiado e ao fim do mês lá iria o marido pagar ou o moço levar a casa a conta. Ser marçano de mercearia era coisa de futuro que bocas para alimentar e pagar a conta gotas, era contrato para sempre. Futuro para ele, não. Já era alguém. Não era um doutor, mas os filhos seriam e os filhos dos filhos mais seriam, doutores e senhores e com criadas de servir. Não que estivesse a educá-los para que viessem a gastar fortunas em roupa para a criadagem e banhos em França, mas a sua apresentação haviam de ter, sem tanto ramicoque, porém, que a mulher tinha-lhe dito que só em aventais e grinaldas daquela brancura fina, plissada e francesa, ui. Aos finórios não lhes havia de sobrar um tostão que gastar à tripa forra não enche os cofres a ninguém. E o outro, pois, precisava de abas de grilo, cri, cri, para abrir a porta, ó valha-nos Deus, que não havia de fazer mais nada, ali apertado em sapatos de verniz e casamento. Lembrou-se do Agostinho, coitado, vá de sorrir-se de gosto, sozinho como um doido, mas o coitado do Agostinho, riso até aos pés de galinha dos olhos, do que se fora lembrar, desabituado que estava da agrura dos cordões e do calçado em bico, passara o dia do casamento, para não fazer desfeitas à mulher que tinha tanto gosto em ser elegante, um primor de rapariga com predicados de agulha em ponto de Castelo Branco desde que descobrira as colchas na casa da madrinha onde a mãe servira até ao fim dos dias e era estimada a chazinhos com biscoitos de manteiga como uma tia velha, só dizia disparates sem nexo nenhum e aquela gente, toma biscoito de manteiga pela goela abaixo, como se ela ainda tivesse o juízo no lugar e soubesse o que comia, ficassem com ela que ela ficava com que lhe tinham dado pelo trabalho e pela dedicação que não se paga a não ser em dedicação, não lhes havia de sobrar um tostão com os criados velhos a pão de ló, a banhos em França, o Agostinho de dedos encolhidos já nem se tinha de pé, o padre a sacramentar-lhe a união e ele a amaldiçoar os sapatos. Só à noite descobrira os papéis na biqueira para que não deformasse. E aquela alucinada quando o deixou por um estroina vindo de Lisboa que cedo a largou, contara por tudo quanto era lado a biqueira cheia dos papéis do Agostinho. Coitado. Nua. Os dragõezinhos dourados voavam no céu azul do declive do peito, nos mamilos, na barriga, nas nádegas, que idade teria, não era fácil dizer, uma mulher feita, cheiro intenso de flor, e fresca flor acabada de colher, não era fácil, voavam no céu do qipao, ó raça de mulher que os fazia sentir a todos invisíveis, não eram quaisquer uns, eles. Ele não era um qualquer e nem um olhar que lhe dissesse: existes.

Não havia quem não soubesse que naquela mesa do café se sentavam os homens que marcavam o preço das amêndoas, dos figos, das alfarrobas, o preço dos frutos secos era ali decidido por eles que compravam toda a produção e a escoariam, ali, naquela bolsa de valores secos, na esplanada com vista de ria do Café Aliança, da cidade de Faro, capital morrente à beira da água. Os filhos deles haviam de ir estudar para o Liceu para se fazerem à Lisboa da medicina, da engenharia, economia, da política, não seria a Lisboa do estroina da Odete do Agostinho, não, que o cinto ali ainda era respeito, e o diabo da chinesa vestida de nua como se eles fossem o moço, o marçano da mercearia da esquina, nem os olhos de amêndoa se espantavam das outras amêndoas ali discutidas. Que desplante oriental!

Quantos anos passariam antes que aquela altura de saia, a vissem nas netas que pouco veriam? Tantos. E para isso se faria antes uma guerra e ao fim uma revolução de cravos que começaria numa canção.

Lei Ling descia todos os dias a rua calcetada da cidade velha até ao jardim cansado de estar de pé noite e dia, como ela, noite e dia, no restaurante até ao fim dos almoços, duche nas traseiras e logo a correr para a loja dos trezentos até ao fim da tarde, já de volta ao restaurante para servir os jantares de porco doce, chao min de gambas comidos de faca e garfo, a bica sem gota de água que corresse, todo o cansaço se lava com água, os bancos rasgados de mensagens e grafitis, nenhuma era para ela que não existia para quem quer que fosse, nem o seu passaporte era seu, nem o duche das traseiras, um quartinho sem casa de banho, uma bica sem gota de água, a marina, a que os farenses chamavam doca, cheia lanchas de pouca força e linhas de agilidade duvidosa, era forte, ágil, ela, não se via o quanto, duvidava-se, noite e dia. Uma cidade morta. Um cemitério. O enorme Café Aliança fechado há anos, as portas da esplanada das traseiras ainda à sombra dos três aloendros crescidos como árvores por capricho da poda do jardineiro da câmara que amparava os troncos em muletas de troncos. Árvores inválidas. Achava-as lindas naquela inclinação torta e inventava que era do peso da copa carregadinha de flores, uma cabeça inclinada para ouvir a parede calada há anos. Todos os dias as flores mais bonitas, desabrochadas de dentro do seu aroma fechado dentro, perfume só seu, colhia-as para o cabelo, quem diria, das árvores à força, arbusto sem mais valor que veneno, aloendros em flor.

Às vezes, depois de passar defronte do antigo café ao abandono, tinha a sensação de se ver observada, aquela impressão na nuca. Ninguém. Um olhar que vinha como se furasse o tempo.