9 de outubro de 2012

A CASA - ii

UM CRISTO FICA SEMPRE BEM
Nunca desejei uma família perfeita. Havia, claro, aquela vontade de mundo livro de Anita. Qualquer um deles - tão lindos os desenhos, todos, de se comerem com os olhos e, milagre, nunca se gastarem de tanto serem vistos.

Talvez porque nunca estive no ontem com os olhos do hoje, ainda tenho páginas de Anita a flutuar, primavera em folhas impressas e minuciosamente pintadas, fresquinhas, na ordem do rio do tempo, há um rio sempre em flor na memória: é hoje que folheio muito devagar a lamber os bonecos na ponta do dedo, quase festinhas.

Há aleatoriedade na mais bem oleada das famílias, máquinas possantes no esforço adiante. Estou convencida dessa força locomotiva. Cresci numa família grande, ou talvez alargada - não sei que termo manda o figurino -, e nestas, as grandes e alargadas, onde o sangue se estende até onde ele não há, cabe uma vida tão ampla que delas nem é preciso sair para ter tudo. Mal comparado é como a quinta onde Emily Dickinson vivia: para quê sair quando os portões fechados deixam entrar cidades, mares, florestas, e mesmo os passeios cheios de passeantes enfeitados de urbanidade e zunir de abelhas? Cabe até o desconcerto de bancos de pau de terceira classe com todo o conforto das carruagens privadas de pretéritos orientes mais ou menos expressos.

Hoje, um daqueles bêbados mansos. O cão dele, imaculado e bem escovado numa trela encarnada, brilhava o pêlo ao calor. O bêbado, encardido. Eu:
- Lindo cão.
Ele:
- Ó, não há outro. 
E vá de o arrepiar de mimos na ponta do dedo, quase festinhas. Mais coça coça nas orelhas. O cão adorando. Ele encardido. Ele:
- Benfica.
Eu:
- Também vi. Agora tenho o Benfica mais as saudades do Benfica, então amanhei-me com o Arsenal que é vermelho e branco. Desgraço-me com o futebol, quem havia de dizer? Podia ser pior, ter-me dado para uma fartura de bacalhau com todos.
Ele:
- Grande equipa, dona. Sabia que os números na camisola vieram por conta do Arsenal?
Eu:
- Não, sou uma desentendida de futebol, só gosto de ver jogar.
Ele:
- Benfica é o nome do cão.
Eu:
- Espectáculo! Como é que não pensei nisso? Lindo, lindo cão.

Uma daquelas velhas gaiteiras - não fora a minha avó, que me espartilhou a estética e os modos, havia de ser, no futuro de mim, uma velha gaiteira -, daquelas que tem a ideia de conhecer toda a gente só de ver a gente passar -, um dia, apanhou-me quando ia a sair da missa, isto lá pra cima, na terra do meu pai:
- Benza-a Deus, nosso Senhor, que é escarrada e cuspida a cara do paizinho, Deus o tenha em descanso. Que aquilo era um rapaz... quando passava a cavalo, ai Jesus.
- Bom dia.
- Não é uma uma dor de alma ver o seu primo assim? 
E aponta para o banco do jardim, mesmo em frente.
- Um doutor. Advogado. A mãezinha tanta novena, uma senhora tão fina e acontece-lhe isto. Era são e de repente deu em beber. No outro dia arrancou por aí a dizer que era Cristo.
- Se calhar é. Na Bíblia não diz que Cristo vai voltar? Se calhar já voltou e é ele. Como era aquilo do que fizerdes ao mais pequeno, é mim que fazes ou lailailai? Vai-se a ver e está à coca. O que lhe parece? Pode ser que seja Ele.
- Cruzes canhoto!

Convém sempre ter um vício. Mesmo o da gaiteirice. Sou desconfiada da virtude, costuma ser muito má no trato com os outros. Tenho o do desporto, caso não, aposto que era a bebida, ou a droga, ou outro maluquedo qualquer. Pensando nisso, talvez a droga não, tive sorte, sou um bocado chanfrada com o controlo e maricas, tenho medo de tudo, de doenças tramissíveis via agulha, pavores. Não poderia viver na rua, morria logo. Basta ver que tenho, vá, uma certa mania das limpezas e da ordem - graças a Deus.