25 de outubro de 2012

Bloga do caraças que a minha vida não é isto!

Escrever é Triste:
Cabeça de Cão:
- pois sim, ó raça de gente Triste, tenho mesmo tempo para isso tudo, ainda por cima em bem escrito. Em cima do joelho, ao despacha, cá vai disto, e é um pau. Sempre aviso: quando gosto muito sou uma fera. Mais precisamente, a fera do não gosto. Do que não gosto? De tudo o resto. Os meus autores são os meus amores, sãos os melhores do mundo, são únicos, insubstituíveis, não quero mais nenhum. É um clube fechado, de porta fechada, ninguém entra-ninguém sai, é tudo meu. Para sair só a gritos de como é que foste capaz de me fazer isto, escrever esta palhaçada - assim que querem voltar, perdoo logo tudo. Para entrar, é mais complicado, só arrombando a porta em frases de pasmar. 

E bom fim-de-semana, leitores ingratos que este blog desde sábado está a trinta e tal visitantes por dia, o resto são googles acidentais, ide-vos à fava: o Cabeça de Cão vai entrar em automático.


SHAKESPEARE? LI-O AOS 8 ANOS, PÁ...
Tenho poucos livros. Vi o naufrágio de uma biblioteca: bem classificados, acondicionados em caixotes ainda de madeira, navegantes de destino surpreendente, imprevistos, partiram. Dito assim parece muito e dramático. Não é.

Todas as casas da infância, de uma forma ou de outra, se desfazem. Quando não, encolhem porque nos transformámos na casa da infância de alguém. Não há mal na insegurança, é só uma forma de aprender depressa que, de facto, nada nos pertence: nem tudo quanto se lega a um filho, caberá a esse filho; não é porque se segura o amor entre as mãos aquecidas a sopro para fazer ninho quente que ele deixará de cair de frio. E a morte, ou o desgosto, são uma imensa onda: uma vida inteira a puxar-nos mar dentro de saudade e nós não vou de fúria. Quanto de uma vida se controla?

Os meus livros, meus por ser, naufragados, navegaram - mesmo eu com eles, de alguma misteriosa forma, e alguém os tem e me tem neles, sem saber. Às vezes, nos alfarrabistas, ainda os abro na segunda folha à procura da assinatura aguda, linha de electro-cardiograma com diagnóstico de nome e data. Nada. Ainda penso: um dia compro as primeiras edições do Camilo, do Eça e do todos, pronto, o meu pai é mais forte do que o teu. Birras de bater o pé. Nada. Nenhuma primeira edição levanta uma casa, e não se volta no tempo. Nunca. E para quê voltar, se, na realidade, não se vai a lado algum já que única porta de saída é o fim dos dias? Nos antiquários também, um prato, um santo, uma pulseira, e o lugar de leitura começa a crescer, nada: não é o prato que refaz a sala, o tapete comido o chão. Nem é a pulseira, a verdade está no pulso que ela evoca.

Sim, tenho poucos livros.

Talvez porque cresci numa casa grande e velha, os tectos muito altos, ou eu tão pequena, luzes com vontade própria que davam em acender a meio da noite, móveis que estaliam o cansaço de anos, talvez por isto houvesse muito espaço e tenho a certeza nítida de embarcar nas páginas mundo fora, dentro de casa. Sentada no chão, encostada a uma parede, à cama, encostada ao sofá. Ou deitada de barriga para baixo. Ou debaixo das mantas depois do bloqueio das horas, de foco de luz em punho e migalhas de biscoitos: lençóis cheios de areia e praia por engano do tacto, cego.

Pasmo porque toda a gente leu Tolstoi aos nove anos e sabe Deus mais o quê. Pasmo. Devem ser umas bestas do piorio, tanto precocemente lido e não lhes serviu de nada? Também li muito precocemente o Júlio Dinis: bonecos a preto e branco em páginas moles e amarelas de tempo. Nunca, em alfarrabista algum, voltei a ver os livros de Júlio Dinis em quadradinhos - adeus meninos de final feliz. Aos 8? Shakespeare: Hamlet, Romeu e Julieta e a Tempestade. Três peças inteiras e por esta exacta ordem. Toma lá, ó carapau de corrida, vai buscá-las. Se calhar não disse que foi em banda desenhada. Gianni Di Luca. A bonecada é quase quase igual ao inglês da data da primeira  publicação em que os leitores de 9 anos, os tais de Tolstoi, as leram, palpita-me. Presente de exame de vinte na quarta-classe feito obrigatoriamente por ter idade insuficiente para "transitar de ano lectivo" - foi numa escola pública em branco imaculado, céu azul e, no pátio, do lado direito, um enorme jacarandá. Entrei acompanhada pela madre superior e fui inquirida do estrado por três macacos, lembro bem, perguntaram-me, entre outras parvoíces, a propósito de uma gaivota, o significado de ingratidão. O que aquela gente não sabia e tive de lhes explicar, assim, em exemplos. Fui, portanto, insuficiente. Precoce só em bonecos. Anita. Contos de fadas. Ainda sou insuficiente em tolstoismos e precoce em bonecos. Zorro, Fantasma e Duque Próspero e Pedro Bala: tudo o que um rapaz deve ser. Como é que se arranja um homem em condições depois destes? Não há, e a haver é de letras o que inviabiliza beijos na boca.

Há-os, claro, em carne e osso. Mas quem é que quer um poeta ou um escritor? Não sou maluca, é uma gente que não interessa a ninguém porque só se interessa, ao fim e ao cabo, por ler e escrever. Poetas e escritores estão sempre na luta do não ficar aquém do além que querem dizer e não conseguem. Amo-os todos. Não a eles, deles não quero saber. Aos livros deles, muito, e gosto-os inteiros: todos os de Ruben A. Ou em compacto e portátil de obra completa: tenho-a em papel bíblia, a do Vinicius de Moraes, num só volume - mete-se na carteira se for preciso, guarda-se, não vai a lado algum, a carteira é um porto de amarração para quem lê em qualquer lado: poucas coisas me dão o prazer de num dia de chuva, numa manhã de sol, ir almoçar fora com um livro. Só nós os dois. Já a poesia completa do HH, neste momento são duas na estante, e a primeira não é igual à segunda, o que me leva a crer que estará sempre incompleta. É detestável este homem, se o conhecesse, até já estou a ouvir a minha avó, trate de não revirar os olhos, que horror, parece que é parva. Não vou enunciá-los. São poucos. Até porque não gosto de quase ninguém. Escrevem mal que se farta. Prefiro ler a embalagem dos tampões na casa de banho, em todas as línguas, árabe inventado, alemão a rir, ou os fabulosos e impronunciáveis ingredientes do champô. Sem parabenos não parece, ó dó, sem parabéns a você? Em três páginas de esforço e benefício de dúvida, vejo logo onde estou quando me salta uma luminária ao caminho. Lixem-se. A vida é curta e o que preciso de reler é muito. Lobo Antunes e Agustina são os únicos romancistas portugueses contemporâneos. E no mundo poucos mais. Meia dúzia. McCarthy. Em número, salvam-nos os poetas. Com os já mortos e enterrados a conversa é outra. Não é esta.

Antes de a dar por fechada, a esta, sempre digo que o melhor presente do mundo, dado ou recebido, é uma biblioteca. Um livro de cada vez.