5 de outubro de 2012

B de Borgonha


MARIA DE BORGONHA
Isabel, a de Portugal, estava feliz: nascera-lhe uma neta. Maria. O narizinho, arrebitado, e a boca, dois lábios presos num ponto, tão juntos, fechados em botão, anunciava determinação. E o queixo? Sim, Isabel estava feliz - nem o marido, as carnes já caídas, desfeitas num pré-apodrecimento de faisão, a maçava. Não vou ao baptizado, anunciara o faisão da travessa onde jazia antes da morte o comer de tanto vinho, tanto fio tecido, tanta luz de metais e pedrarias, tanta cortesã, criada de servir, arrotados indistintamente. Não vou, é só uma mulher que nasceu.

Ninguém via em Filipe, o Bom, duque da Borgonha, patrono das artes, caçador de Joana de Arco, feitor de alianças, hedonismo de ponta de dedos para não constranger o requinte, seco, porém pendido, esguio, ninguém via em Filipe, o Bom, Filipe, o Mau. Apesar de todas as traições, acusações, tratados destratados. Ninguém. Só a corte, aristocrática e cremosa, viam, só a música, de torneios e volutas, ouviam, só a hiper-abundância de tapeçarias pelas paredes, sentiam, só a opulência das jóias fulgia. Isto era o que se lhe colava à presença: o Bom – contudo, não se desprende disto aquele inequívoco, intenso, odor de faisão? Oh, sim, Isabel sabia: nada escapa a um nariz atento, nada acorda mais memórias, ou mais aguça o instinto que o cheiro do perigo, de sangue. Ninguém via em Filipe, o Bom, o Mau. E ele estava lá: em cada olhar outros olhos espreitavam de dentro dos próprios olhos. Há gente assim, ferina de predação, suave suave enquanto as unhas rasgam com calma e lentura a presa. Nenhuma mulher lhe dera o prazer que Joana de Arco supliciada no fogo lhe dera – ainda sentia a convulsão  estrangulada no corpo quando a recordava, ainda as pálpebras se lhe cerravam, as narinas dilatavam porque o ar lhe fugia do peito. Joana donzela. O grande amor chegara-lhe vestido de ódio: Joana, o rosto do avesso das próprias entranhas. Há amores assim, de ódio, de entranhas. Tivera outros, poucos, nadas. Para quê tal se pode um homem ter de uma mulher o mel sem mais? Não é doçura bastante? É.

Exactos vinte anos depois, acabada de enterrar o pai, morto na batalha de Nancy, Maria tinha o pensamento em trânsito: do retrato de juventude que Jan van Eyck pintara de sua avó Isabel para retrato de maturidade desta feito por Roger van der Weyden. A avó sorria com o sorriso que se esconde e só os cantos dos lábios, leve, imperceptivelmente subidos, denunciam. A íris, mansa e firme, dizia do fundo do escuro castanho: este é o mundo, assim é o mundo, eu vejo. Tu?

Também vejo.

Via. Decidira. Apesar dos tantos pretendentes à sua imensa riqueza, não fora difícil. Pelo contrário, nem hesitara. Em poucos meses casaria com Maximiliano i, imperador do Sagrado Império Romano, filho de Frederico iii, imperador igual e de Leonor, linda de morrer, a mais bela das princesas portuguesas, filha de Dom Duarte. Nunca casaria com um faisão. Queria um homem ao lado. Alguém como ela. Um par. Nem demasiado forte, nem demasiado fraco. Sensato. Em idênticas circunstâncias de fortuna. Amante de cavalos e falcões. O amor é uma fita que o tempo faz laço e o convívio aperta quando dois falam a mesma língua. Este é o mundo, assim é o mundo, eu vejo. Tu?

Letra B, de um inteiro alfabeto feminino todo dedicado a Agustina Bessa-Luís, escritora maior.

Maria de Borgonha morreu cinco anos depois de casada, aos vinte e cinco anos, num acidente de caça. 
Foi Maximiliano, ao presenteá-la com um anel de noivado, um diamante que Maria usou sempre, quem determinou tal moda, ou modo diamantino de se ficar noivo, rastilhada até aos dias de hoje.