De quem, de quê, nasceu Drácula, se nasceu antes da prodigiosa imaginação de Bram Stoker? Da Ordem do Dragão, Societas Draconistrarum, da qual vários governantes da Transilvânia terão feito parte? De Vlad, o Empalador, 1431-1476, nunca se disse que bebesse o sangue das suas vítimas. E sob Isabel Bathory, 1560-1614, que na realidade jamais foi julgada ou condenada, pendiam as mais horríveis denúncias – se bem que não tomasse banhos de sangue como a reza a lenda.
Os estudos femininos esforçam-se no sentido de reabilitar Isabel. Terá feito a defesa de uma camponesa violada e grávida de um turco; teria sido do interesse do rei condená-la por bruxaria para lhe confiscar as terras e a riqueza e lailailailai - certo é que o rei não a acusou nem lhe confiscou as propriedades, ainda que tivesse permanecido emparedada durante quatro anos. Talvez seja inocente. Ou não. (Na verdade, isso não me interessa nem meia pevide, o que me interessa é perceber porque são os próprios estudos femininos a pedir que da mulher se faça o eterno feminino - não vejo cá nenhum grupo de estudos masculinos a reabilitar Vlad.)
Há quem afirme que Bram Stoker se inspirou na condessa Isabel Bathory para criar o seu dragão. É possível, mas em pleno século xix que fazer-lhe senão dar-lhe o sexo de Vlad e vesti-la de Vlad?
ISABEL – O TIGRE DE CACHTICE
Ele estava diante dela. Finalmente. Concreto - não sonhado.
Era mesmo ele. Denso, sentia-lhe a mão debaixo da sua. Obrigada, meu Deus,
obrigada, obrigada, obrigada. Sonhara tanto aquele reencontro que quando se
deu, já depois do fim da esperança, queria beber cada gesto e a leveza de cada
gesto, beber-lhe o mistério do nevoeiro leve do olhar, leveza, mas nada,
impossível se a sua própria excitação lhe aturdia os pensamentos de tão
exaltados, os sentidos, quentes e leves, em voo, tudo, ela leve e tanto esforço
para não estar fora si, o coração leve, tudo inalcançável. Mais tarde, querendo
reconstruir o momento com a exactidão de que a saudade gosta, detalhada, não
conseguiria - como nunca se consegue guardar o que sobe ao céu ou desce à
terra: os extremos da felicidade e da dor não nos cabem dentro, sabemos que um
dia os sentimos, no entanto, o que nos chega às mãos, se os evocamos, é a
diluição homeopática que permite a vida dos dias lentos ou rápidos, um atrás do
outro, definidos, afinal, mais pelos nadas das regras de ser e fazer, do que
pelas excepções onde ostensivamente nos revelamos. Assim somos, tão pouco,
contudo, habitados pela chama.
Era bela. Não parecia ter mais de trinta anos. Excepto nas
mãos, as mãos eram as de uma mulher velha: nenhuma largura se instalara nas
articulações, nenhum dos dedos se entortara, mas eram velhas as mãos, velhas
como uma criança que nascesse enrugada, velhas de meter medo. Era bela e
branca, da brancura espessa que só o frio e as matas do norte depositam no
sangue. Não tinha as maçãs do rosto altas nem os olhos se alongavam, estreitos,
não se alongavam, nem a altura viçosa e flexível de uma específica memória
asiática, não: branco sobre branco, sem mais, sem luz nem transparência de
porcelana anilada, alguma coisa esmorecera, decaíra, e apodrecia agora na
consanguinidade de puríssimos caminhos ancestrais, na genealogia do crime,
pior, flor branca que da árvore da vida frutificara no conhecimento do mal – enfim,
é só outra maneira de dizer: bela e branca, tinha o prazer de causar a dor.
Aquela parte do mundo a que se chamou por séculos o lugar
para além das florestas, Partes Transsylvana, o lado mais a este da Hungria
dessa hora, Transilvânia, estava em Isabel como Isabel nela: por parte de pai e
de mãe, mas não duas vezes, três, barões e príncipes, governantes todos, fosse
por mando de Zapolya, ou de Ferdinando já da Áustria. Isabel Bathory. Bathory do ramo Ecsed e
Bathory do ramo Smolya. Repetidamente Bathory. Senhores da guerra ao turco,
grosseiro, bestial, que não aceitava Cristo, sequer compreendia os valores
civilizacionais do cristianismo mais do que alguma vez compreendera os valores
civilizacionais de Roma. Animais nojentos que só entendiam uma linguagem: a da
crueldade. Pois tinham vindo à fronteira certa, a que não lhes negaria a moeda
de troca.
Este era, fora sempre, o negócio do marido de Isabel,
Nadasdy, a guerra, por junto com a administração das vastíssimas propriedades.
Comandante supremo dos exércitos húngaros, casa riquíssima, a deles, como as
dos ascendentes de ambos, casa de qual até a coroa era muitíssimo devedora.
Nem um palmo de terra aquelas imundices lhe levariam de
debaixo dos pés. Para Isabel, ao fogo respondia-se com mais fogo. A verdade é
que não tinha medo. Nunca tivera, jamais teria. E talvez essa fosse a maior
falha do seu carácter: a incapacidade de entender a fraqueza, sentir compaixão.
Porque não, não era corajosa, não enfrentava demónios. O entendimento era a
direito sobre uma recta, que há a dizer sobre ele? Se não fora superior, não
teria nascido aristocrata. Se não fora superior, não teria servos, nem riqueza,
inteligência, cultura. Poder. Sim, todo o poder e destino são dados por Deus.
Deus dera-lhos. Não a velhacaria da igreja católica, hienas ao redor da carcaça
carnuda como da seca, porque haveria de dividir com a gordura daquele clero
enfeitado mais que as mulheres, o ouro que era o seu? Protestante, pois que
havia de ser?, logo entraria pelas portas do céu despojada dos seus bens: se
Deus é pai do universo, o dinheiro é a mãe do mundo e ela estava, por ora viva,
mais os seus quatro filhos, que o marido fora a enterrar e não lhe fazia falta
nem para autoridade, nem nas propriedades, nem para guerrear, nem na cama -
para mais, aqui, trazia-lhe sempre incómodos: era das putas turcas a que dava
uso. Ela não. Aprendera cedo, quando já depois de noiva, mas ainda na casa dos
pais, engravidara de um moço da estrebaria e parira – a sua mãe não perdera a
compostura, calma, pelas próprias mãos, e diante dos seus olhos, afogou-lhe o
filho em água gelada: para quê, tinha então pensado do desgraçado, coitadinho,
se morreria do frio, não bastaria molhá-lo? Ficou a olhar... quão depressa e
fácil se afoga uma criança, um gato demora e dificulta mais. Ao moço foi
esfolada a pele e logo a seguir escaldado, fazia-se muito, os gritos
atemorizavam os camponeses que passavam sem que se lhes dissesse o lugar deles.
Não fora a pior das torturas, havia-as mais lentas, empalar, por exemplo.
Aprendera cedo a escolher para amantes homens e mulheres limpos. E depois mais
aprendera, a não engravidar, tudo de ervas e unguentos. A manter-se jovem: não
tinha o que saber, bastava beber diariamente sangue fresco, todavia inteiro, já
completo, incontaminado, não poderia ser o sangue de uma criança nem de uma
mulher usada, virgem, tinha de ser virgem, e de homem, nunca, se Deus os tinha
criado à sua própria semelhança, ofender-se-ia. Energia vital. Gostava de dormir
com mulheres. Era fácil, sem dúvidas, não eram iguais, os corpos? Fácil. E
naquela altura exacta em que lhes sentia a liquidez, nascia. Em cada pescoço
que mordera e enfiara os dentes até ao jorro quente do sangue, nascia.
É certo, excedera-se, reconhecia-o, sangrara, dia após dia,
sangue, frescura de vida em flor, sangrara, também numa gaiola de pregos,
camponesas, amantes e, por último, mesmo nobres de baixa condição, excedera-se
com estas, pronto, o resto era gente sem lugar no livro divino. Precisava do
precioso fluído, não estava mais nova, tinha já cinquenta anos, e este amor que
agora viera para a condenar e executar a sentença de a deixar emparedada em
sete quartos, janelas entaipadas excepto por meia dúzia de olhos de luz e ar
que furassem o escuro, limpassem a respiração, e mais um buraco por onde passar
os pratos de comida, dentro do seu próprio castelo, em Cachtice, emparedada até
à morte diante dos olhos deste amor, trocara-a por uma mulher tão mais nova, e
ela, que nunca vacilara por um homem, sofrera as agonias da morte em vida,
porém determinada a permanecer jovem para quando ele regressasse. Regressara.
Estava diante se si. Obrigada, meu Deus, obrigada.
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Letra I, de um inteiro alfabeto feminino todo dedicado a Agustina Bessa-Luís, escritora maior.