31 de outubro de 2012

i- Mundo Cão

Cão:
 - Das outras, sim, falam até à fábula. Mas da mulher amada, não. Nada. Percebo-os: também eu enterro o osso para o comer sozinho.

Porque hoje é o último dia de Outubro

EM CADA OUTUBRO ABRE-SE A MESMA ROMÃ
O tempo não passa
em cada outubro abre-se a mesma romã
estás enganado, não é fruto de bagas
de uma ontem manhã
o tempo não passa, é a mesma romã
A minha amiga queixa-se de mim
à outra amiga minha que ouve e diz sim
é mais difícil falar-lhe do que ao obama
e vê-la é impossível já que nem na televisão
Os meus dias estão todos tomados
em vídeo conferências com o além
também eu numa difícil via de assim comunicação
mais desde a morte de deus, nenhuns mensageiros
os anjos caíram ou estão no desemprego
Passei a tarde a repetir: larkin, macaco de hardy
não te consigo ver, tu consegues ouvir-me? olha
estás enganado
o tempo não passa
em cada outubro abre-se a mesma romã
estás enganado, não é fruto de bagas
de uma ontem manhã
o tempo não passa, é a mesma romã
Os miúdos, dois, apaixonados, tu perguntas-te
se ele a fode
se ela toma a pílula, se usa o diafragma
se sabem que vivem no paraíso
os velhos, tu, sabem, eles vivem o paraíso
deslizam para a felicidade e para o para sempre
os miúdos, dois apaixonados, pássaros, tu perguntas-te
se foste, há quarenta anos, o futuro de alguém
a deslizar para a felicidade
mas o teu para sempre tinha, ainda tem, idade
Ai larkin, macaco sentado no comboio de hardy
não ouves nada do que te aceno da plataforma da estação:
o tempo não passa
em cada outubro abre-se a mesma romã
estás enganado, não é fruto de bagas
de uma ontem manhã
o tempo não passa, é a mesma romã



Faintheart in a Railway Train, de Hardy.

Bonjour Mundo!

i'd rather be lonely
i'd rather be free
i'm as sure as the moon rolls around the sea
but i like watching you undress
and i think we're at our best
lailailai
'cause i can't remember why i hated you
can't remember why i still do
but i'm a sure as the moon rolls around you
that i could be happy
happy
oh so happy
happy
oh so happy so happy
lailailai 
i'm as sure as the moon lailailai
Rilo Kiley. Jenny Lewis with The Watson Twins. Jenny and Johnny. Em suma: Jenny Lewis.

30 de outubro de 2012

Lições de Filosofia - da que interessa

i - PARADOXO

i. 
a) Demonstração da terceira antinomia kantiana da razão pura - as antinomias da razão pura usam-se de uma ideia transcendente com o propósito de obter conhecimento relativo ao mundo; a terceira antinomia é dinâmica, relacional no modo causal dos fenómenos naturais excluindo a origem do fenómeno. Portanto:

É a mexer o rabinho que ele fica firme.
(Agora, de onde vem um rabinho, meus amigos, isso é assunto que só a quarta antinomia poderá explicar.)


Porque hoje é terça-feira

MEDITAÇÃO AMOROSA - iii
MERIDIANA
É lenta a travessia da ausência: só o coração aceso ilumina o mar quando escurece.

Bonjour Mundo!

sono come tu mi vuoi
lailai azarucho o teu lailailai
la sola che tu possa amare
lailai

29 de outubro de 2012

04 - POEMAS DO NOVO MUNDO

KITTY DEAN 
- foda-se -
O amor não é fogo que arde sem se ver
Tal como a esperança não é aquela
Coisa com penas, ainda que sejam penas
Em língua inglesa, o que lhes dá logo
Outra categoria -  penar em português
É coisa pobre, lá está, de mal amado em lume
Brando, invisível. Frangos camonianos de churrasco.
Restos de jantar de quem comeu. Adiante.
O amor não é isso nem porra nenhuma:
Não se consegue pensar, não se pode dizer,
Criaturas finitas, somos da cabeça aos pés,
Pequenos para a infinita desgraça galinácea
Com poético molho de barbecue.
Dizer eu amo-te, ou dizer não te amo,
Vale o mesmo excepto para
A primeira pessoa de Wittgenstein.
Fazer como quem ama e não amar,
Amar e fazer como quem não ama,
Induzem no mesmo erro a terceira pessoa
Do mesmo filósofo. Lixe-se a poesia
E a filosofia.
E quanto ao amor?
Foda-se.






Bonjour Mundo!

lailailai
não sei
só sei lailailai

Quem havia de dizer que há dias que começam às 22 horas, hum?...

26 de outubro de 2012

Bonjour Mundo!

lailailai
hey girl would care to rescue me?
i said "i'm kinda busy can't you see?"
lailailai


Porque hoje é sexta-feira

MEDITAÇÃO AMOROSA - ii
VÉSPERAS
Que a manhã venha com o nome que lhe deres.
A luz dorme num casulo de sombra.


25 de outubro de 2012

vii - Para Borges, ao serão

Pequeninas histórias para o serão de Borges.

LEI LING
Três da tarde batidas no relógio da Sé. Em passos pequenos, medidos a régua, elásticos, lá vinha ela, ainda um pontinho, hoje azul, ontem vermelho, lá vem ela, é azul o qipao, a flor, flores se o pé tivesse duas, viria depois, se o pé tiver duas, serão duas hoje, rosa forte, há-de pô-las abaixo da orelha esquerda, dali não se adivinhava que o faria, medidos a régua, elásticos, não se adivinhava que pararia até que parasse, logo depois de colhida a flor, flores se o pé tivesse duas, inspirado dentro o cheiro, mesmo do centro das pétalas dobradas, eram todas dobradas, não as havia singelas, era sempre de frescura a flor, flores no cabelo, o aroma fortíssimo dissipava-se logo, detrás o alto pescoço liso, o coque baixo, um desarranjo de pétalas desarranjava tudo às três da tarde batidas no relógio da Sé.

Havia pouca vergonha naquela chinesa. A bainha mal lhe tocava o joelho e a racha mostrava a coxa. A ousadia! Da mesa do lado, o Joaquim Ildefonso, numa tarde de medronho, fazendo justiça à fama de bêbado, tinha aberto a bocarra: ó coisinha do pai… mas as palavras caíram todas no chão, letra a letra partidas, sem lhe tocarem, não havia nela nem mácula de culpa nem de provocação. Havia inocência naquela chinesa. Não pestanejara sequer, uma estátua surda em movimento. Ninguém mostrava a pele pernas acima, cetim de seda abaixo, a carne leve, quase morena, como se fizesse gosto de apanhar sol. Havia pouca vergonha naquela chinesa.

Mulheres, estrangeiras, de vez em quando davam à costa como um peixe doente, umas malucas em pelota feitas as actrizes americanas, e bebiam, riam alto, mas nem eram bem mulheres a sério com quem um homem chegasse à fala à frente do povo, se bem que não fossem nada de se jogar fora se estivessem sozinhas, nunca estavam, cadelas de colo. Essas apanhavam sol. E os finórios que iam a banhos derreter o dinheiro a França. Eles não, gente decente, não. Donde vinha a chinesa, a única chinesa da cidade? Para onde ia quando se sumia no dobrar da esquina? Desaparecia?

Aquela chinesa, mais nua que as actrizes vestidas na tela, passava como se mais vestida que as vestidas casadoiras e casadas, mães que tivessem saído de casa por uma urgência ou uma falta que a mercearia ali mesmo ao lado, Mercearia Aliança, supriria fiado e ao fim do mês lá iria o marido pagar ou o moço levar a casa a conta. Ser marçano de mercearia era coisa de futuro que bocas para alimentar e pagar a conta gotas, era contrato para sempre. Futuro para ele, não. Já era alguém. Não era um doutor, mas os filhos seriam e os filhos dos filhos mais seriam, doutores e senhores e com criadas de servir. Não que estivesse a educá-los para que viessem a gastar fortunas em roupa para a criadagem e banhos em França, mas a sua apresentação haviam de ter, sem tanto ramicoque, porém, que a mulher tinha-lhe dito que só em aventais e grinaldas daquela brancura fina, plissada e francesa, ui. Aos finórios não lhes havia de sobrar um tostão que gastar à tripa forra não enche os cofres a ninguém. E o outro, pois, precisava de abas de grilo, cri, cri, para abrir a porta, ó valha-nos Deus, que não havia de fazer mais nada, ali apertado em sapatos de verniz e casamento. Lembrou-se do Agostinho, coitado, vá de sorrir-se de gosto, sozinho como um doido, mas o coitado do Agostinho, riso até aos pés de galinha dos olhos, do que se fora lembrar, desabituado que estava da agrura dos cordões e do calçado em bico, passara o dia do casamento, para não fazer desfeitas à mulher que tinha tanto gosto em ser elegante, um primor de rapariga com predicados de agulha em ponto de Castelo Branco desde que descobrira as colchas na casa da madrinha onde a mãe servira até ao fim dos dias e era estimada a chazinhos com biscoitos de manteiga como uma tia velha, só dizia disparates sem nexo nenhum e aquela gente, toma biscoito de manteiga pela goela abaixo, como se ela ainda tivesse o juízo no lugar e soubesse o que comia, ficassem com ela que ela ficava com que lhe tinham dado pelo trabalho e pela dedicação que não se paga a não ser em dedicação, não lhes havia de sobrar um tostão com os criados velhos a pão de ló, a banhos em França, o Agostinho de dedos encolhidos já nem se tinha de pé, o padre a sacramentar-lhe a união e ele a amaldiçoar os sapatos. Só à noite descobrira os papéis na biqueira para que não deformasse. E aquela alucinada quando o deixou por um estroina vindo de Lisboa que cedo a largou, contara por tudo quanto era lado a biqueira cheia dos papéis do Agostinho. Coitado. Nua. Os dragõezinhos dourados voavam no céu azul do declive do peito, nos mamilos, na barriga, nas nádegas, que idade teria, não era fácil dizer, uma mulher feita, cheiro intenso de flor, e fresca flor acabada de colher, não era fácil, voavam no céu do qipao, ó raça de mulher que os fazia sentir a todos invisíveis, não eram quaisquer uns, eles. Ele não era um qualquer e nem um olhar que lhe dissesse: existes.

Não havia quem não soubesse que naquela mesa do café se sentavam os homens que marcavam o preço das amêndoas, dos figos, das alfarrobas, o preço dos frutos secos era ali decidido por eles que compravam toda a produção e a escoariam, ali, naquela bolsa de valores secos, na esplanada com vista de ria do Café Aliança, da cidade de Faro, capital morrente à beira da água. Os filhos deles haviam de ir estudar para o Liceu para se fazerem à Lisboa da medicina, da engenharia, economia, da política, não seria a Lisboa do estroina da Odete do Agostinho, não, que o cinto ali ainda era respeito, e o diabo da chinesa vestida de nua como se eles fossem o moço, o marçano da mercearia da esquina, nem os olhos de amêndoa se espantavam das outras amêndoas ali discutidas. Que desplante oriental!

Quantos anos passariam antes que aquela altura de saia, a vissem nas netas que pouco veriam? Tantos. E para isso se faria antes uma guerra e ao fim uma revolução de cravos que começaria numa canção.

Lei Ling descia todos os dias a rua calcetada da cidade velha até ao jardim cansado de estar de pé noite e dia, como ela, noite e dia, no restaurante até ao fim dos almoços, duche nas traseiras e logo a correr para a loja dos trezentos até ao fim da tarde, já de volta ao restaurante para servir os jantares de porco doce, chao min de gambas comidos de faca e garfo, a bica sem gota de água que corresse, todo o cansaço se lava com água, os bancos rasgados de mensagens e grafitis, nenhuma era para ela que não existia para quem quer que fosse, nem o seu passaporte era seu, nem o duche das traseiras, um quartinho sem casa de banho, uma bica sem gota de água, a marina, a que os farenses chamavam doca, cheia lanchas de pouca força e linhas de agilidade duvidosa, era forte, ágil, ela, não se via o quanto, duvidava-se, noite e dia. Uma cidade morta. Um cemitério. O enorme Café Aliança fechado há anos, as portas da esplanada das traseiras ainda à sombra dos três aloendros crescidos como árvores por capricho da poda do jardineiro da câmara que amparava os troncos em muletas de troncos. Árvores inválidas. Achava-as lindas naquela inclinação torta e inventava que era do peso da copa carregadinha de flores, uma cabeça inclinada para ouvir a parede calada há anos. Todos os dias as flores mais bonitas, desabrochadas de dentro do seu aroma fechado dentro, perfume só seu, colhia-as para o cabelo, quem diria, das árvores à força, arbusto sem mais valor que veneno, aloendros em flor.

Às vezes, depois de passar defronte do antigo café ao abandono, tinha a sensação de se ver observada, aquela impressão na nuca. Ninguém. Um olhar que vinha como se furasse o tempo.

Bloga do caraças que a minha vida não é isto!

Escrever é Triste:
Cabeça de Cão:
- pois sim, ó raça de gente Triste, tenho mesmo tempo para isso tudo, ainda por cima em bem escrito. Em cima do joelho, ao despacha, cá vai disto, e é um pau. Sempre aviso: quando gosto muito sou uma fera. Mais precisamente, a fera do não gosto. Do que não gosto? De tudo o resto. Os meus autores são os meus amores, sãos os melhores do mundo, são únicos, insubstituíveis, não quero mais nenhum. É um clube fechado, de porta fechada, ninguém entra-ninguém sai, é tudo meu. Para sair só a gritos de como é que foste capaz de me fazer isto, escrever esta palhaçada - assim que querem voltar, perdoo logo tudo. Para entrar, é mais complicado, só arrombando a porta em frases de pasmar. 

E bom fim-de-semana, leitores ingratos que este blog desde sábado está a trinta e tal visitantes por dia, o resto são googles acidentais, ide-vos à fava: o Cabeça de Cão vai entrar em automático.


SHAKESPEARE? LI-O AOS 8 ANOS, PÁ...
Tenho poucos livros. Vi o naufrágio de uma biblioteca: bem classificados, acondicionados em caixotes ainda de madeira, navegantes de destino surpreendente, imprevistos, partiram. Dito assim parece muito e dramático. Não é.

Todas as casas da infância, de uma forma ou de outra, se desfazem. Quando não, encolhem porque nos transformámos na casa da infância de alguém. Não há mal na insegurança, é só uma forma de aprender depressa que, de facto, nada nos pertence: nem tudo quanto se lega a um filho, caberá a esse filho; não é porque se segura o amor entre as mãos aquecidas a sopro para fazer ninho quente que ele deixará de cair de frio. E a morte, ou o desgosto, são uma imensa onda: uma vida inteira a puxar-nos mar dentro de saudade e nós não vou de fúria. Quanto de uma vida se controla?

Os meus livros, meus por ser, naufragados, navegaram - mesmo eu com eles, de alguma misteriosa forma, e alguém os tem e me tem neles, sem saber. Às vezes, nos alfarrabistas, ainda os abro na segunda folha à procura da assinatura aguda, linha de electro-cardiograma com diagnóstico de nome e data. Nada. Ainda penso: um dia compro as primeiras edições do Camilo, do Eça e do todos, pronto, o meu pai é mais forte do que o teu. Birras de bater o pé. Nada. Nenhuma primeira edição levanta uma casa, e não se volta no tempo. Nunca. E para quê voltar, se, na realidade, não se vai a lado algum já que única porta de saída é o fim dos dias? Nos antiquários também, um prato, um santo, uma pulseira, e o lugar de leitura começa a crescer, nada: não é o prato que refaz a sala, o tapete comido o chão. Nem é a pulseira, a verdade está no pulso que ela evoca.

Sim, tenho poucos livros.

Talvez porque cresci numa casa grande e velha, os tectos muito altos, ou eu tão pequena, luzes com vontade própria que davam em acender a meio da noite, móveis que estaliam o cansaço de anos, talvez por isto houvesse muito espaço e tenho a certeza nítida de embarcar nas páginas mundo fora, dentro de casa. Sentada no chão, encostada a uma parede, à cama, encostada ao sofá. Ou deitada de barriga para baixo. Ou debaixo das mantas depois do bloqueio das horas, de foco de luz em punho e migalhas de biscoitos: lençóis cheios de areia e praia por engano do tacto, cego.

Pasmo porque toda a gente leu Tolstoi aos nove anos e sabe Deus mais o quê. Pasmo. Devem ser umas bestas do piorio, tanto precocemente lido e não lhes serviu de nada? Também li muito precocemente o Júlio Dinis: bonecos a preto e branco em páginas moles e amarelas de tempo. Nunca, em alfarrabista algum, voltei a ver os livros de Júlio Dinis em quadradinhos - adeus meninos de final feliz. Aos 8? Shakespeare: Hamlet, Romeu e Julieta e a Tempestade. Três peças inteiras e por esta exacta ordem. Toma lá, ó carapau de corrida, vai buscá-las. Se calhar não disse que foi em banda desenhada. Gianni Di Luca. A bonecada é quase quase igual ao inglês da data da primeira  publicação em que os leitores de 9 anos, os tais de Tolstoi, as leram, palpita-me. Presente de exame de vinte na quarta-classe feito obrigatoriamente por ter idade insuficiente para "transitar de ano lectivo" - foi numa escola pública em branco imaculado, céu azul e, no pátio, do lado direito, um enorme jacarandá. Entrei acompanhada pela madre superior e fui inquirida do estrado por três macacos, lembro bem, perguntaram-me, entre outras parvoíces, a propósito de uma gaivota, o significado de ingratidão. O que aquela gente não sabia e tive de lhes explicar, assim, em exemplos. Fui, portanto, insuficiente. Precoce só em bonecos. Anita. Contos de fadas. Ainda sou insuficiente em tolstoismos e precoce em bonecos. Zorro, Fantasma e Duque Próspero e Pedro Bala: tudo o que um rapaz deve ser. Como é que se arranja um homem em condições depois destes? Não há, e a haver é de letras o que inviabiliza beijos na boca.

Há-os, claro, em carne e osso. Mas quem é que quer um poeta ou um escritor? Não sou maluca, é uma gente que não interessa a ninguém porque só se interessa, ao fim e ao cabo, por ler e escrever. Poetas e escritores estão sempre na luta do não ficar aquém do além que querem dizer e não conseguem. Amo-os todos. Não a eles, deles não quero saber. Aos livros deles, muito, e gosto-os inteiros: todos os de Ruben A. Ou em compacto e portátil de obra completa: tenho-a em papel bíblia, a do Vinicius de Moraes, num só volume - mete-se na carteira se for preciso, guarda-se, não vai a lado algum, a carteira é um porto de amarração para quem lê em qualquer lado: poucas coisas me dão o prazer de num dia de chuva, numa manhã de sol, ir almoçar fora com um livro. Só nós os dois. Já a poesia completa do HH, neste momento são duas na estante, e a primeira não é igual à segunda, o que me leva a crer que estará sempre incompleta. É detestável este homem, se o conhecesse, até já estou a ouvir a minha avó, trate de não revirar os olhos, que horror, parece que é parva. Não vou enunciá-los. São poucos. Até porque não gosto de quase ninguém. Escrevem mal que se farta. Prefiro ler a embalagem dos tampões na casa de banho, em todas as línguas, árabe inventado, alemão a rir, ou os fabulosos e impronunciáveis ingredientes do champô. Sem parabenos não parece, ó dó, sem parabéns a você? Em três páginas de esforço e benefício de dúvida, vejo logo onde estou quando me salta uma luminária ao caminho. Lixem-se. A vida é curta e o que preciso de reler é muito. Lobo Antunes e Agustina são os únicos romancistas portugueses contemporâneos. E no mundo poucos mais. Meia dúzia. McCarthy. Em número, salvam-nos os poetas. Com os já mortos e enterrados a conversa é outra. Não é esta.

Antes de a dar por fechada, a esta, sempre digo que o melhor presente do mundo, dado ou recebido, é uma biblioteca. Um livro de cada vez.

Bonjour menina eu, perdão, Mundo!

lai lai lai
if there's a wrong way to do it
a right way to screw it up
nobody does it like me
lai lai lai


24 de outubro de 2012

Porque hoje é quarta-feira

LÍQUIDO SÓLIDO GASOSO
i - LÍQUIDO
Gota a gota
O toque rumorejante dos dedos
Procura dentro a explosão do astro
E sílaba que líquida corra
Do nome só o aquático murmúrio

03 - POEMAS DO NOVO MUNDO

A VEZ DO TEMPO
Apagar,
tal nas antigas pistas do homem,
não os passos, os vestígios dos passos.
Fazer a vez do vento, dos animais,
de outros por cima passos, e mais:
fazer a vez do tempo.
Oferecer à memória do mundo,
o esquecimento.
Desde a aurora riscada a choro nascido
ao crepúsculo de silêncio crescido,
apagar.

Bonjour Mundo!

lailai-lailai-lailai-lailai
lailailai
É muito cedo para cantorias todas esganadas, a esta hora só disto. E é uma sorte.

23 de outubro de 2012

02 - POEMAS DO NOVO MUNDO

SE NÃO NA NOITE, ONDE?
Guarda as aves
suspende a evaporação das gotas
e queima o ar
veículo onde
da boca ao ouvido
viajam as palavras
Onde enterrar as estrelas
se não na noite?

Bonjour Mundo!

lailailai
c´est déjà beaucoup
lailailai de vous
lailai
lailailai 
Não viu ao vivo? Nem tem o disquinho da menina? Ingratidão é o seu nome... Então, anda o mundo a dar-lhe disto e você Zás!, perdão, você não ZAZ?!

22 de outubro de 2012

I de Isabel


De quem, de quê, nasceu Drácula, se nasceu antes da prodigiosa imaginação de Bram Stoker? Da Ordem do Dragão, Societas Draconistrarum, da qual vários governantes da Transilvânia terão feito parte? De Vlad, o Empalador, 1431-1476, nunca se disse que bebesse o sangue das suas vítimas. E sob Isabel Bathory, 1560-1614, que na realidade jamais foi julgada ou condenada, pendiam as mais horríveis denúncias – se bem que não tomasse banhos de sangue como a reza a lenda.

Os estudos femininos esforçam-se no sentido de reabilitar Isabel. Terá feito a defesa de uma camponesa violada e grávida de um turco; teria sido do interesse do rei condená-la por bruxaria para lhe confiscar as terras e a riqueza e lailailailai - certo é que o rei não a acusou nem lhe confiscou as propriedades, ainda que tivesse permanecido emparedada durante quatro anos. Talvez seja inocente. Ou não. (Na verdade, isso não me interessa nem meia pevide, o que me interessa é perceber porque são os próprios estudos femininos a pedir que da mulher se faça o eterno feminino - não vejo cá nenhum grupo de estudos masculinos a reabilitar Vlad.)

Há quem afirme que Bram Stoker se inspirou na condessa Isabel Bathory para criar o seu dragão. É possível, mas em pleno século xix que fazer-lhe senão dar-lhe o sexo de Vlad e vesti-la de Vlad? 


ISABEL – O TIGRE DE CACHTICE
Ele estava diante dela. Finalmente. Concreto - não sonhado. Era mesmo ele. Denso, sentia-lhe a mão debaixo da sua. Obrigada, meu Deus, obrigada, obrigada, obrigada. Sonhara tanto aquele reencontro que quando se deu, já depois do fim da esperança, queria beber cada gesto e a leveza de cada gesto, beber-lhe o mistério do nevoeiro leve do olhar, leveza, mas nada, impossível se a sua própria excitação lhe aturdia os pensamentos de tão exaltados, os sentidos, quentes e leves, em voo, tudo, ela leve e tanto esforço para não estar fora si, o coração leve, tudo inalcançável. Mais tarde, querendo reconstruir o momento com a exactidão de que a saudade gosta, detalhada, não conseguiria - como nunca se consegue guardar o que sobe ao céu ou desce à terra: os extremos da felicidade e da dor não nos cabem dentro, sabemos que um dia os sentimos, no entanto, o que nos chega às mãos, se os evocamos, é a diluição homeopática que permite a vida dos dias lentos ou rápidos, um atrás do outro, definidos, afinal, mais pelos nadas das regras de ser e fazer, do que pelas excepções onde ostensivamente nos revelamos. Assim somos, tão pouco, contudo, habitados pela chama.

Era bela. Não parecia ter mais de trinta anos. Excepto nas mãos, as mãos eram as de uma mulher velha: nenhuma largura se instalara nas articulações, nenhum dos dedos se entortara, mas eram velhas as mãos, velhas como uma criança que nascesse enrugada, velhas de meter medo. Era bela e branca, da brancura espessa que só o frio e as matas do norte depositam no sangue. Não tinha as maçãs do rosto altas nem os olhos se alongavam, estreitos, não se alongavam, nem a altura viçosa e flexível de uma específica memória asiática, não: branco sobre branco, sem mais, sem luz nem transparência de porcelana anilada, alguma coisa esmorecera, decaíra, e apodrecia agora na consanguinidade de puríssimos caminhos ancestrais, na genealogia do crime, pior, flor branca que da árvore da vida frutificara no conhecimento do mal – enfim, é só outra maneira de dizer: bela e branca, tinha o prazer de causar a dor.

Aquela parte do mundo a que se chamou por séculos o lugar para além das florestas, Partes Transsylvana, o lado mais a este da Hungria dessa hora, Transilvânia, estava em Isabel como Isabel nela: por parte de pai e de mãe, mas não duas vezes, três, barões e príncipes, governantes todos, fosse por mando de Zapolya, ou de Ferdinando já da Áustria.  Isabel Bathory. Bathory do ramo Ecsed e Bathory do ramo Smolya. Repetidamente Bathory. Senhores da guerra ao turco, grosseiro, bestial, que não aceitava Cristo, sequer compreendia os valores civilizacionais do cristianismo mais do que alguma vez compreendera os valores civilizacionais de Roma. Animais nojentos que só entendiam uma linguagem: a da crueldade. Pois tinham vindo à fronteira certa, a que não lhes negaria a moeda de troca.

Este era, fora sempre, o negócio do marido de Isabel, Nadasdy, a guerra, por junto com a administração das vastíssimas propriedades. Comandante supremo dos exércitos húngaros, casa riquíssima, a deles, como as dos ascendentes de ambos, casa de qual até a coroa era muitíssimo devedora.

Nem um palmo de terra aquelas imundices lhe levariam de debaixo dos pés. Para Isabel, ao fogo respondia-se com mais fogo. A verdade é que não tinha medo. Nunca tivera, jamais teria. E talvez essa fosse a maior falha do seu carácter: a incapacidade de entender a fraqueza, sentir compaixão. Porque não, não era corajosa, não enfrentava demónios. O entendimento era a direito sobre uma recta, que há a dizer sobre ele? Se não fora superior, não teria nascido aristocrata. Se não fora superior, não teria servos, nem riqueza, inteligência, cultura. Poder. Sim, todo o poder e destino são dados por Deus. Deus dera-lhos. Não a velhacaria da igreja católica, hienas ao redor da carcaça carnuda como da seca, porque haveria de dividir com a gordura daquele clero enfeitado mais que as mulheres, o ouro que era o seu? Protestante, pois que havia de ser?, logo entraria pelas portas do céu despojada dos seus bens: se Deus é pai do universo, o dinheiro é a mãe do mundo e ela estava, por ora viva, mais os seus quatro filhos, que o marido fora a enterrar e não lhe fazia falta nem para autoridade, nem nas propriedades, nem para guerrear, nem na cama - para mais, aqui, trazia-lhe sempre incómodos: era das putas turcas a que dava uso. Ela não. Aprendera cedo, quando já depois de noiva, mas ainda na casa dos pais, engravidara de um moço da estrebaria e parira – a sua mãe não perdera a compostura, calma, pelas próprias mãos, e diante dos seus olhos, afogou-lhe o filho em água gelada: para quê, tinha então pensado do desgraçado, coitadinho, se morreria do frio, não bastaria molhá-lo? Ficou a olhar... quão depressa e fácil se afoga uma criança, um gato demora e dificulta mais. Ao moço foi esfolada a pele e logo a seguir escaldado, fazia-se muito, os gritos atemorizavam os camponeses que passavam sem que se lhes dissesse o lugar deles. Não fora a pior das torturas, havia-as mais lentas, empalar, por exemplo. Aprendera cedo a escolher para amantes homens e mulheres limpos. E depois mais aprendera, a não engravidar, tudo de ervas e unguentos. A manter-se jovem: não tinha o que saber, bastava beber diariamente sangue fresco, todavia inteiro, já completo, incontaminado, não poderia ser o sangue de uma criança nem de uma mulher usada, virgem, tinha de ser virgem, e de homem, nunca, se Deus os tinha criado à sua própria semelhança, ofender-se-ia. Energia vital. Gostava de dormir com mulheres. Era fácil, sem dúvidas, não eram iguais, os corpos? Fácil. E naquela altura exacta em que lhes sentia a liquidez, nascia. Em cada pescoço que mordera e enfiara os dentes até ao jorro quente do sangue, nascia.

É certo, excedera-se, reconhecia-o, sangrara, dia após dia, sangue, frescura de vida em flor, sangrara, também numa gaiola de pregos, camponesas, amantes e, por último, mesmo nobres de baixa condição, excedera-se com estas, pronto, o resto era gente sem lugar no livro divino. Precisava do precioso fluído, não estava mais nova, tinha já cinquenta anos, e este amor que agora viera para a condenar e executar a sentença de a deixar emparedada em sete quartos, janelas entaipadas excepto por meia dúzia de olhos de luz e ar que furassem o escuro, limpassem a respiração, e mais um buraco por onde passar os pratos de comida, dentro do seu próprio castelo, em Cachtice, emparedada até à morte diante dos olhos deste amor, trocara-a por uma mulher tão mais nova, e ela, que nunca vacilara por um homem, sofrera as agonias da morte em vida, porém determinada a permanecer jovem para quando ele regressasse. Regressara. Estava diante se si. Obrigada, meu Deus, obrigada.


Letra I, de um inteiro alfabeto feminino todo dedicado a Agustina Bessa-Luís, escritora maior.

i - Peripatéticas

Não sei, na verdade, se há um modo de ser, ou se tudo quanto temos é um modo de ler.

ii - Para sempre. Ou talvez não

A NATUREZA DA BESTA, PERDÃO, DO AMOR
- Amo-te.
- Eu também me amo.
- És impossível!
- Se eu fosse possível, amavas-me?

MÍNIMAS - ii

A morte é o melhor argumento a favor da vida.

Bonjour Mundo!

lailailai 
sapete perchè il mondo va
perchè intorno al mondo gira l'amore
lailailai
caro bèbè la verità
è una farfalla che viene e che va
 col cuore tu non spegni una candela
ma puoi buttare all'aria un grande amore
la guerra fa suonare le campane
ma questo l'uomo non lo pensa mai
lailailai
 mi disse non pensarci bambina
la vita è una speranza che cammina
nel cuore ti ho lasciato una stella
cammina che la strada si fa bella
lailailai
Minha rica Gigliola, sabe tudo, Dio lailai, desde que não tinha idade para sair sola con te lailailai...

21 de outubro de 2012

A OUTRA FACE - 9

A OUTRA FACE é, para o Cabeça de Cão, bem entendido, o post da semana publicado na bloga. Porquê? Por muitas razões, hoje só esta: há perguntas, feitas ou sugeridas, que valem mil respostas: deixámos de fazer o que trouxemos à vida para fazer, para fazermos o que esperam que façamos? É um gatini maltês, toca piano e lailailai?  Ah bom, assim, sim, porque a A OUTRA FACE  está aqui. E, porque isto é pouco, a preto e branco e sem precisar de tradução, palavras para quê, a A OUTRA FACE  está também aqui. A bloga é, ou não é, uma bicheza cheia de sorte?

(Decerto reparou que estas outras faces são da semana anterior - o CdeC estava em automático e os posts agendados não saíram todos, ó. Mais vale tarde que never.)

Evangelho Segundo a Cabeça de Cão


[Do filme de Stephen Frears, Dangerous Liaiasons, este diálogo terrível que finaliza a relação amorosa entre Valmont e Mme. de Tourvel.]


Valmont - At this moment, for example, I'm quite convinced ... I am never going to see you again.
Mme. de Tourvel - What?
Valmont - I'm so bored, you see. It's beyond my control.
Mme. de Tourvel - What do you mean?
Valmont - Well, after all, it has been four months. So, what I said: it's beyond my control.
Mme. de Tourvel - Do you mean you don't love me anymore?
Valmont - My love had great difficulty outlasting your virtue. It's beyond my control.
Mme. de Tourvel - It is that woman, isn't it?
Valmont - You are quite right. I have been deceiving you with Emilie, among others. It's beyond my control.
Mme. de Tourvel - Why are you doing this?
Valmont - There's a woman. Not Emilie, another woman. A woman I adore. And I am afraid she is insisting that I give you up. It's beyond my control.
Mme. de Tourvel - Liar! Liar!
Valmont - You are quite right, I am a liar. And it's like your fidelity, a fact of life. No more nor less irritating. Certainly beyond my control.
Mme. de Tourvel - Stop it! Don't keep saying that!
Valmont - Sorry. Beyond my control. Why don't you take another lover? Whatever you would like. It's beyond my control.
Mme. de Tourvel - Do you want to kill me?
Valmont - Listen. Listen to me. You have given me great pleasure. But I simply cannot bring myself to regret leaving you. It is the way of the world. Quite beyond my control.


Cabeça de Cão : Palavra da Salvação. 
Leitores do Cabeça de Cão: Isto é cruel!
Cabeça de Cão: É. Muito. Todo o sofrimento inútil não deve ser causado, há que evitá-lo. Todo o sofrimento necessário a um bem maior deve ser infligido de uma só vez. Sem esperança, implacável. Prolongar o sofrimento de algo ou alguém é tão mau como infligi-lo sem necessidade - como disse Sophia de Mello Breyner n´As Pessoas Sensíveis: Perdoai-lhes Senhor/ Porque eles sabem o que fazem. Dimanche há mais.

20 de outubro de 2012

Porque hoje é sábado

DUETO COM MERCEDES SOSA
Gracias a la vida
pelos passos que damos
sobre as pedras de calcário
entalhadas com os cacos escuros
das nossas lágrimas -
nos passeios iluminados
pela força do mundo:
pontas de cigarros lixo papéis
Gracias a la vida
por andarmos solitários
abraçados à morte
ombro a ombro com a calma do desespero
Mas de olhos levantados
para a dança da luz dourada
entre o pó das folhas dos plátanos
de ramos de prata
Gracias a la vida
pelo sonho do amor
pela ilusão do amor
pelo engano do amor
e até pelo corte premeditado e fino
do amor espada
Gracias a la vida
pelos beirais pelas bicas
pelas fontes onde nada escorre
as paredes grafitadas
as mulheres mal amadas
os pedintes no trânsito com crianças alugadas
pelos drogados enfiados nos buracos das casas
e pelas beatas nas igrejas
e pelas velas apagadas
Gracias a la vida
pela sempre beleza das coisas naturais
pelo mar pelas nuvens
pela alegria do sol
o lento arrastar do caracol
as brincadeiras de meninos à beira rio
as noites quentes de estrelas ao frio
E gracias a la vida
pelo toque acidental
da mão numa estranha mão
pelo ocasional
bater sincronizado
do coração
noutro coração

Bonjour Mundo!

lailailai
when the working day is done
oh girls 
they wanna have fun
oh girls
just wanna have fun
lailai
é sábado é sábado é sábado viva sábado VIVA!

19 de outubro de 2012

Uma mesa para trezentos, sff

Manuel António Pina, numa crónica, disse: os trezentos compradores de livros de poesia em Portugal deveriam reunir-se para um almoço. Creio que, mais coisa, menos coisa, foi isto. Mais esquisita que esquisita, sempre a desgostar de tudo e só a gostar sempre do mesmo, de bom poeta que é, foi, tenho tanto quanto de poesia escreveu e foi publicado. Bom poeta. Nunca nos reuniremos para um almoço.

i - Para sempre. Ou talvez não.

DANCAKE
Ele:
- então, já decidiste?
Eu:
- em Las Vegas: tu de Elvis e eu de Priscilla com pestanas postiças e tudo. Boa? Depois, para compôr o ramalhete, podemos ir assistir a uma Celine Dion, acho que ela já lá não está, ou outro pavor qualquer igual, e tirar umas photos perto daquelas esculturas de gelo e ao pôr do sol. Enfim, tudo quanto há.
Ele:
- céus, mulher! não tens uma pinga de romantismo? Queres passar o dia a rir do próprio romance... O casamento é uma coisa séria, isso não é amor, é humor.
Eu:
- céus, homem! saíste-me cá uma flor do drama... O casamento é uma coisa séria, mas isto é só o dia do casamento, que nervos, vou já comprar um raio de um vestido DanCake em branco frigorífico a arrastar a cauda e uma burka, perdão, um mosquiteiro, perdão, um véu, antes que desmaies.

Bonjour Mundo!

lailailai
lailai

18 de outubro de 2012

Bonjour, governo português, perdão, Mundo!

oh Pedro Pedro
Passos Coelho
oh baby baby
how was i supposed to know
that something wasn't right here
oh baby baby
i shouldn't have let you go
you're not doing it right yeah
you´ve showed me how you want it to be
i tell you baby cause you need to know now oh because
my own country is killing me
and i
i must confess you´re killing it
but i am about to lose my mind
give me a sign 
go away do something right
lailailai


Komom sa va minha Lizzie?

O mundo é um lugar bom: se os franceses e os ingleses não se tivessem degladiado pela Améria pré-americana, e se os portugueses e afins não têm sido uns negreiros do piorio, não tínhamos cá disto como dizia o tio Vasco ao Evaristo - e escusa de me dar cabo dos cabides por não estar a olhar para o passado escravo e colonialista e o diabo a quatro com o entendimento de agora, escusa mesmo porque vou já voltar para o meu rico McCarthy que estou revisionista, perdão, revisitadora, mas é do Blood Meridian. 


17 de outubro de 2012

Bonjour Mundo!

you said someday lailailai
and i woud be laughin´ on the other side
and you was right baby 
baby you was so right
lailai 
baby baby lailailai

16 de outubro de 2012

Psst...

Mais logo, ou amanhã, não posso adiantar nada, O Cão é que sabe.

15 de outubro de 2012

Psst... Psst!

Quarta-feira conversamos, ou antes, lá para terça à noite.

14 de outubro de 2012

vi - Para Borges, ao serão

Pequeninas histórias para o serão de Borges.

MAGDA
Não pensava em Magda. Pensar o quê de Magda? Se não é pelas virtudes nem pelos defeitos que a ama. Nem pelo corpo apesar do corpo. Ama porque ama porque ama. Porque a razão do amor é amar-se. Há afirmações inúteis. Na justificação do amor todos os por isto e por aquilo são verdadeiros. E são falsos. Quantas mais pessoas haverá no mundo com aquela medida exacta de bondade amável, boa? Sabe-se lá. E a crueldade preta na pupila? Amam-se todas? Qual quê… Nem a todos os cabelos louros que fazem uma onda assim, à altura da nuca. Pensar para quê?

A essência do amor? Que é isso? Pensa-se no ar enquanto se respira? A essência é filosofia que nunca ninguém viu. O ar é oxigénio concreto que entra pelo nariz e vai até desaguar nos alvéolos. Favos de mel são o que temos no peito quando amamos. Nem pensava nela, portanto, respirava-a e vivia. Mel nos favos. É isto.

De vez em quando era tomado por uma euforia, uma espécie de alegria mas na carne, um sorriso das entranhas aos olhos e o pensamento todo em festa. E mesmo em volta dele, porque a alegria lhe transbordava, e ele sentia-a, podia jurar que quase a agarrava. Que confusão sistematizar a felicidade que não cabe dentro, que fácil vivê-la. Sabe-se lá explicar uma grandeza destas? Os cantos da boca levantados e uma pessoa desconhecida do próprio sorriso, o peito a respirar aroma de pinheiros em plena cidade. Um sistema circulatório interno-externo da alegria e pronto. As sensações são indizíveis a menos que se diga outra coisa, uma mentira que revele a verdade de as sentir: uma enxaqueca não é o betão armado da cabeça a ser furado por um martelo pneumático? Pois bem. Há gente atravessada de balas e ele, ali, todo atravessado de alegria, fresco de pinho, doce de mel. Um rei. Sabia que aquilo, aquele amor, vinha do fundo do mistério do mundo, era uma daquelas coisas imensas que não conseguia pensar em palavras claras, só em imagens e em vazio. Festa. Foi nessa altura que se convenceu que a felicidade devia ser mais que antiga, primitiva. Também se convenceu que Deus, a existir, era feito dessa matéria que rasgava sem dor, se iluminava de escuridão. Felicidade.

Não era ele que estava deprimido, era o peito, uma cova desoxigenada desde o dia
- não és tu, sou eu, não te posso amar como tu mereces.
Ele não. Ele estava muito bem. Depois da perplexidade do descontínuo amoroso - poderá haver amor que não seja absoluto, irremediável, para sempre? -, depois do não te amo enfiado à faca dentro dos putativos merecimentos, os favos todos vazios ao abandono da doçura e o oxigénio todo cheio dos escapes dos autocarros no trânsito. E começara não só a duvidar das palavras, mas daquilo que elas representavam. Nem dava por falar sozinho
- amas, claro que me amas Magda, então não amas?! Cabra. Fui um parvo. Sou um parvo.

A primeira vez aconteceu de manhã cedo. Desceu para o pequeno-almoço. Domingo. Veio de pijama e banho por tomar. Entrou na cozinha. A fruteira vazia. Nem uma laranja para o sumo
- ó porra, o que é feito das laranjas?
Andava impaciente, todavia muito bem. Mesmo naquela figura enfiou-se no elevador e desceu à garagem: tinha-as deixado no carro, de certeza, o saco esquecido, não, não era nada de especial, andava esquecido, ele, ainda que estivesse lindamente, estava, porque de as ter no carro lembrava-se, rolaram bagageira fora, duas. Até porque carregara um monte de sacos. Nem vestígio das laranjas. Ó que caraças! se era capaz de jurar, duas pela bagageira. Depois, mais de um mês depois, uma noite em que o comando falhou nas pilhas, ao voltar de as ter ido trocar, desaparecera-lhe o sofá. Diabo…

Objectos grandes ou pequenos, não interessava a dimensão, sumiam-se. A frequência entre os desaparecimentos aumentava. Ao fim de um ano, até a meio de um salmonete se lhe escafedera o garfo que tinha na mão. Acabou por se acostumar com o ilusionismo, ao menos era discreto: não acontecia diante de terceiros nem no emprego.

Fora isto de só ver gente no emprego, na rua, no prédio, estava óptimo: deixou de comprar laranjas para o pequeno almoço e enquanto teve cadeiras foi-se sentando nelas - depois habituou-se ao chão que nunca lhe fugiu de debaixo dos pés. Houve aquele incidente da costela. Porém, flutuante como ela. Não era de queixinhas nem tinha do que se queixar, a vida era como era. A meio de um sonho que quebrara as leis do tempo, ele e Magda conversavam deitados lado a lado, as toalhas de praia coladas, acordou com a violência duma pancada: a cama acabara de se evadir, ele estatelado e com o manípulo de suporte da passadeira de dobrar onde nunca dera um passo a esmigalhar-lhe os ossos. O osso. E nem esmigalhou. Era das de dobrar, a passadeira, a costela era das de partir, era dela, a passadeira, fazia quilómetros naquilo. Magda. Cabra. Fora a costela partida, estava bem. Teria preferido, claro, que fosse a merda da passadeira a desintegrar-se em vez da cama.

Demoraram muito tempo a dar por falta dele - empresas multinacionais. Quando a polícia foi procurá-lo a casa, encontrou-a vazia, nem sinal sequer dos armários embutidos nem dos electrodomésticos encastrados nos móveis da cozinha. Nem torneira nem pia, quanto mais.
- Estranha ocorrência, não te parece, ó Pires?
Ao Pires há-de ter parecido estranha. A toda a gente pareceu. Menos a Magda. Quando lhe contaram, levou algum tempo a lembrar-se de quem era ele, depois
- ah, sim… chegámos a viver mais ou menos juntos, acho que foi logo a seguir ao Paulo e antes do Afonso, um ano ou quase dois. Desapareceu? Sabes, sempre lhe achei um sorriso parvo.

Evangelho Segundo a Cabeça de Cão



[Do filme de Robert de Niro, The Good Shepherd, esta linha do diálogo, quase monólogo, entre Ulysses e Mother.]

Ulysses: Friends can be enemies, and enemies friends.

Cabeça de Cão : Palavra da Salvação. 
Leitores do Cabeça de Cão: Cínica?
Cabeça de Cão: De olhos bem abertos. Prática. Como as leis da natureza. Dimanche há mais.

13 de outubro de 2012

MÍNIMAS - i

Desistir é só uma forma de desexistir.

Com mãos, com pés e com Cão!

Minhas senhoras e meus senhores, estamos a emitir em diferido a partir do nosso escritório de duas rodas.

Bonjour Mundo!

lailailai all right
lailailai that´s fine
lailailailai
é sábado é sábado é sábado viva sábado VIVA!

Notinha: Já viu estas meninas ao vivo? Pois mais perde, são melhores que em diferido. É para que saiba.

12 de outubro de 2012

v - Para Borges, ao serão

Pequeninas histórias para o serão de Borges.

A RAPARIGA DO DORIAN GRAY
O espelho por cima do lavatório não deixava ver nada, o vapor da água condensara e só agora começava a desfazer-se. Se ela ali estivesse, passaria com o secador de cabelo diante daquela névoa e esta abrir-se-ia para mostrar o olhar eficiente e a mão armada de secador em punho. Mas não estava. Estava só ele. Farto de tanta eficiência, da optimização de tudo. Farto até do secador. Deslizou a mão pela superfície húmida. A água quente era cruel: aquele homem de meia idade era ele, as rugas eram as dele, as olheiras, os papos. Mais gordo, estava mais gordo. Futebol. Jogging na passadeira - e o tempo? Trabalho de horas infinitas, mais a vida nas horas sobrantes, que diabo, há que viver. Um homem tem de viver. Ele vivia. Dava-lhe, pelo menos, a impressão de que sim. Uma cadeia bem entrelaçada de sucessos profissionais, os melhores amigos do mundo, sempre os mesmos, amor, sempre diferente: dois anos para chegar do céu ao inferno e de volta ao céu. Morena, ruiva, loura, todas. Uma de cada vez desde a idade do juízo, ainda que, em regra, o princípio de uma se sobrepusesse ao fim de outra, as últimas discussões com os primeiros risos, o choro por baixo dos novos mimos - nem contava como traição já que o corpo que antes o chamava, fresco nos pulsos, morno no peito, quente no beijo, era uma massa nua na cama fora de horas. Nua porquê?

As mulheres não compreendem a ignição do desejo depois perdido. Não percebem que não são elas, são eles, o que eles pensam a sós com eles: a nudez, se não for primeiro mental, se não se passa entre eles e eles naquele exacto lugar onde a maior ternura açaima a maior violência, ninguém a despe. Tanto faz que esteja nua como vestida a mulher que não apetece, está vestida, antes esteja. Está fora de horas, fora do tempo, fora de prazo de validade. E pode ter vinte saias a outra, a desejada, que só a ideia de as desfolhar é nua. A verdade é que era sempre aquele tédio, o corpo morto na cama, um peso morto ao pescoço, o fim, que chatice a demora, a vontade de outros braços, outro cabelo, outro cheiro, desaparece, vem depressa, já estava apaixonado outra vez até ao tédio que cedo ou tarde chegaria. Do ceú ao inferno vão dois anos de luz, o resto é escuridão. Desta vez é que é. Era sempre desta vez. E não era. Nunca fora, em vez nenhuma. Era sempre.

Lembrava-se. Uma vez, na faculdade, meu Deus, há mil anos, ou ontem, nem sabia, acabara de acabar, com quem?, dizia-se assim, então: acabámos; acabei; ela acabou. Quem era ela? De vez em quando, ao invés de nós, acrescentava-se o comigo, com ele, com ela. Casos mais graves, como a própria expressão indicava, prostrantes. Ela acabou comigo. Estávamos acabados. No caso, quem acabara com ela fora ele. Mas quem?, é que não conseguia recordar-se do nome, apesar de se recordar perfeitamente que ela tinha um horrível soutien lilás - agora por isso, há um tempo em que toda a carne é lisa na perfeita tensão dos tecidos e as lágrimas são surpreendentes à despedida porque a chegada é leve, não tem passado, não tem peso, deve ser isso que mantém os tecidos, a ausência de passado, a força da gravidade da tristeza, carrega não os anos, o corpo.

As mesas do bar eram hexágonos verdes cortados ao meio, usava-se uns sobretudos verdes com um macho atrás, ou cortados a direito, era inverno verde floresta, névoa como a do espelho mas do tabaco, fumava-se dantes, mesmo nas aulas, enrolavam-se folhas A4 de caderno em cartucho de castanhas assadas por cinzeiro, prendiam-se entre as mesas, e para grande consternação dele, ela chorara no meio do bar, à despedida, lágrimas grossas de inverno a meio hexágono de distância, a fila para o almoço enorme e já uma floresta entre os dois. Olhara em volta, mais preocupado com que seria percebido do que com ela, se tivera o cuidado de escolher um sítio público para evitar cenas, como é que ela se chamava, também fora coisa pouca, dois, três meses, sexo, nada, qual era o nome dela? O cuidado de um lugar público e lágrimas. Ninguém vira. Vá lá. Respirara fundo e quando se preparava para sair, ao subir os poucos degraus, outra vez livre, lobo, ouviu, em sorriso de cascata maliciosa no ouvido, nem lhe viu o rosto, quem terá sido, um blazer de tweed castanho com cotoveleiras, na ultrapassagem pela direita sem pisca, em cascata, já no último degrau, as pregas bailarinas da saia desapareceram rápidas no corredor cheio, mas terá ouvido o sorriso malicioso?

- Cuidado, olhe que o coração é como O Retrato de Dorian Gray: envelhece mal quando o fecham no armário.

Porque hoje é sexta-feira

QUANDO TU ERAS PEQUENO
Procuro no coração de pedra dos segredos
a água que na pedra corre
o pulsar que na palavra bate
a morada onde respiras
Onde estás que não vens buscar-me
para me ir contigo cair nessas horas tuas
que te doem todo
que moem tudo
que te riem muito
arredondam o tempo nas esquinas
e assim te cruzas contigo quando
o alecrim se agarra às ideias
quando o fumo às paredes
quando o cuspo à raiva
quando a força aos dentes
o frio às mantas o sol à sede
o sal do mar aos cabelos
e tu tão crescido
por dentro da infância tua
lugar sem idade
Vou-te amar quanto tu eras pequeno

Bonjour Mundo!

lailailai
these boots are telling me keep walking
another voice is saying "don't let go"
that's just my heart talking lailailai
it's talking
sometimes I don't know what to say
pretend to look the other way
are you talking are you talking to me 
lailailailai